Dia 22 – Em Darvaza, o Turquemenistão estranha-se mas depois entranha-se MESMO! 🇹🇲 | Crónicas do Rally Mongol

Dia 22 – Em Darvaza, o Turquemenistão estranha-se mas depois entranha-se MESMO! 🇹🇲 | Crónicas do Rally Mongol

Nós já tínhamos estado no Turquemenistão e, por isso, já íamos preparados para aquelas características especiais que fazem deste país um dos mais singulares do mundo. Os outros Carapaus de Corrida sofreram, claro, um bocadinho de choque cultural. Aquando da nossa Rota da Seda, em 2013, a capital do Turquemenistão, Ashgabat, e a cratera de Darvaza foram os únicos lugares, incluídos no nosso itinerário, que não conseguimos visitar. Era por isso com alguma ansiedade e antecipação que, depois de dormida a noite num dos hotéis herdados dos tempos soviéticos, explorámos a cidade de Ashgabat.

Num país com uma densidade populacional baixa (o Turquemenistão tem cerca de 5 vezes a área de Portugal mas cerca de metade da população), e maioritariamente ocupado por deserto, Ashgabat é como uma miragem. Prédios brancos de apartamentos todos iguais, edifícios sofisticados, grandes rotundas com esculturas modernas, estradas com quatro faixas em cada sentido, chafarizes, jardins, tudo com um grande sentido de ordenamento, mas uma visão surreal se pensarmos que estamos rodeados de deserto.

No entanto, quase ninguém anda pelas ruas e avenidas, pelo menos agora, no Verão. São poucos aqueles que se aventuram a sujeitar-se às temperaturas elevadas que se fazem sentir, à aridez do ar, e à neblina que cobre a cidade, talvez em parte devido a areias do deserto em suspensão. Os carros e jipes brancos, novos e com ar condicionado, cruzam as avenidas, e os únicos que parecem resistir ao calor são os trabalhadores que varrem as ruas e cuidam dos jardins, e os omnipresentes polícias, que vigiam cada cruzamento.

Depois de percorrermos a pé a zona do palácio presidencial e edifícios governativos, e de sermos interpelados pela polícia por causa das fotos que estávamos a tirar (e inclusive termos de apagar algumas), decidimos pegar na burra de carga e dar uma volta pela cidade. Esta tem uma área bastante grande e só de carro se tem uma melhor ideia da sua dimensão. E parece estar em expansão.

Num país com uma das maiores reservas de gás natural do mundo, e com grande parte do seu território dedicado à produção de algodão, a electricidade, água e gás natural são gratuitos para os cidadãos, mas quase todos os outros produtos são importados. Sendo assim, o preço, mesmo de produtos de necessidade básica, é elevado. Nós aproveitámos para fazer compras para os dois dias seguintes, que iríamos passar cruzando o deserto.

O nosso destino do dia era a cratera de Darvaza, em pleno deserto de Karakum. Para lá chegarmos, teríamos de cruzar metade da largura do país, em direcção a terreno cada vez mais inóspito, desabitado e quente. Mas não foi preciso afastarmo-nos muito de Ashgabat para sentirmos isso. Pouco depois do aeroporto, a qualidade da estrada decai exponencialmente, e todo e qualquer sinal de civilização desaparece. São poucas as localidades que iríamos cruzar nos 300 km seguintes. O asfalto parece abandonado desde os tempos da URSS, e a progressão tem de ser cuidada e a baixa velocidade. O ar queima, mas a nossa burra de carga está a portar-se muito bem, não aquecendo em demasia.

Parámos em Jerbent, uma pequena localidade em pleno deserto, com as ruas a serem invadias pelas areias. Estacionamos a burra à sombra de uma casa, e comemos o almoço à sombra do alpendre de outra. Os camelos passeavam-se pelas ruas e o calor era quase insuportável. Uma senhora, da casa da frente, veio convidar-nos para entrar. Lá dentro, as suas três filhas olharam para nós e sorriram. Sentámo-nos no chão e bebemos o chá que nos foi oferecido. Enquanto as nossas anfitriãs, que não falavam uma palavra de inglês, viam a novela indiana, aproveitamos o ar condicionado e a hospitalidade para descansarmos um pouco. A Carla ainda ofereceu uma fotografia da polaróide como recordação daquele momento. Mas tínhamos de prosseguir.

Pelo caminho passámos por uma “cratera de água”, enorme e muito profunda, sem água, mas com alguma lama borbulhante, e alguns focos de gás a queimar. Foi a nossa primeira visão de uma cratera de gás e foi verdadeiramente impressionante. Estávamos ainda mais ansiosos por Darvaza!

Quando chegámos ao cruzamento para Dervaza, vimos que o maior desafio ainda estava pela frente. Cinco quilómetros de uma “estrada” de areia, percorrida por muitos camiões. O carapau Eduardo foi excelente na condução, mas o piso não perdoava, e ainda ficámos atolados duas vezes. Tínhamos umas grelhas que usámos para melhorar a tracção das rodas e tivemos de empurrar para sair da areia. Mas tudo corre bem quando acaba bem, e finalmente chegámos à cratera de Darvaza, cobertos de pó da cabeça aos pés, mas felizes pelo objectivo cumprido.

Resultado de um colapso do terreno devido a uma prospecção de petróleo que deu de caras com uma reserva de metano e outros gases perigosos, foi decidido pelos engenheiros queimar os gases, estimando eles que as chamas se apagassem em algumas semanas. No entanto, a cratera com 70 m de diâmetro e 30m de profundidade continua a arder ininterruptamente, até aos dias de hoje, diz-se, desde 1971.

A visão de Darvaza justifica inteiramente as dificuldades da viagem. Não tão profunda como a cratera que tínhamos visto anteriormente, mas cheia de focos de gás a arder e que libertam um calor quase insuportável quando o vento o traz na nossa direcção, é realmente uma “visão dos infernos”, a que ninguém fica indiferente, e que se torna ainda mais espectacular durante a noite.

Embora tenha-se falado em tapá-la, nos últimos anos Darvaza tem-se afirmado como atracção turística e, dos poucos turistas que atravessam o país (uma vez que o visto de turismo é extremamente difícil de obter, sendo o visto de trânsito o mais frequente), muitos são aqueles que se aventuram a vir até Dervaza, sendo que, agora, até uma vedação foi construída à sua volta.

Acampámos numa colina um pouco afastada da cratera (por causa dos gases emitidos), mas suficientemente perto para termos uma visão privilegiada da “Porta do Inferno”. Assistimos ao pôr-do-sol, fizemos o nosso jantar, conversámos um pouco com os nossos vizinhos italianos, e fumámos o narguilé que trouxemos da Turquia, tudo com a luz emitida pela cratera a iluminar o céu estrelado e os montes circundantes. Uma noite mágica, num dos locais mais singulares do planeta e que, com certeza, ficará para sempre na memória dos Carapaus de Corrida.

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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6 Comentários

  1. Lusa B. Pinto diz: Responder

    Obrigada pela partilha deste pedaço da v/viagem. Simplesmente espectacular!

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada 😀

  2. Célia calais diz: Responder

    Grandes carapaus e que fantásticas narrativas!Sinto-me a viajar convosco.Um abraço e …prá frente…que atrás vem gente!

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada 😀

  3. Que grande aventura! Isto sim é viajar!

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada 😀

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