ENCLAVE DE OECUSSE – Uma incursão por um Timor-Leste desconhecido

DIAS 80 a 82 - Uma incursão pelo enclave de OECUSSE, um Timor-Leste desconhecido

Imaginem um território que pertence a Timor-Leste mas que está separado de Timor-Leste. Um pedacinho de terra de que quase ninguém ouviu falar, mas que foi durante muito tempo capital de Timor. Uma região de Timor-Leste rodeada por território indonésio. Curioso e intrigante, não é? Por isso é que não podíamos deixar passar a oportunidade de visitar Oecusse no nosso périplo por Timor-Leste.

Veja aqui os relatos da nossa viagem da Volta ao Mundo

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Geografia de Oecusse

Oé-Cusse Ambeno (também conhecida simplesmente por Oecusse) é uma pequena região costeira que constitui um exclave (ou semi-enclave) de Timor-Leste, rodeado por território indonésio de Timor Ocidental, excepto no acesso ao mar. A sua área é de cerca de 800 km2, e tem cerca de 68.000 habitantes. A principal cidade, e capital, é Pante Macassar.

Oecusse é uma região montanhosa, com um clima tropical. A precipitação é muito baixa fora da época das chuvas, que é entre Dezembro e Abril.

As línguas oficiais são, como no resto de Timor-Leste, o Português e o tétum, mas uma boa parte da população não fala nem uma, nem outra. O principal dialecto local é o Lais Meto (ou Baiqueno).

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História de Oecusse

Oecusse-Ambeno é o berço do Timor português. Ambeno (“Pai Beno”), é o nome do reino original que existia antes do período colonial, e Oecusse era a sua capital, mas o desembarque dos portugueses mudou a história de desta região para sempre. Os missionários dominicanos estabeleceram-se em 1556, mas só passados 100 anos é que o território começou a ser administrado efectivamente pelos portugueses.

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Oecusse foi, no entanto, uma região difícil de controlar pelos portugueses. Os topasses, descendentes mistos de portugueses, indígenas e escravos, foram sempre um foco de rebelião contra o domínio colonial. Além disso, era um território também disputado pelos holandeses. Face a estas dificuldades, os portugueses decidem, em 1769, deslocar a sua capital para Díli, mas no século seguinte continuam a reclamar a seu direito sobre este território.

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Em 1859, é assinado um acordo entre portugueses e holandeses, sendo que Portugal reconhece a soberania dos Países Baixos na parte ocidental de Timor e Oecusse passa a fazer parte oficialmente do Timor português (assim como a ilha de Ataúro).

Em Novembro de 1975, Oecusse é a primeira região de Timor-Leste a ser anexada pela Indonésia, mas durante os anos de ocupação continuou a ser negligenciada, politica e economicamente. Embora separada fisicamente de Timor-Leste, as ideias independentistas nunca desapareceram, e a região também sofreu os horrores do pós-referendo em Setembro de 1999.

Oecusse tornou-se parte da República Democrática de Timor-Leste em 2002, gozando actualmente do estatuto de Região Administrativa Especial.

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Como chegar a Oecusse


Por terra

Uma vez que Oecusse é um semi-enclave, quem quiser entrar por terra tem de o fazer por território indonésio, neste caso, por Timor Ocidental. Não há transportes regulares a fazer esta ligação. A partir de Kupang, é possível apanhar um autocarro ou van até Kefamenanu. Daí terá de arranjar um ojek (motorizada) que o levará até à fronteira. Do lado de Oecusse terá de arranjar um transporte, moto ou camião, que o poderá levar até Oé-Silo e daí até Pante Macassar. Nós fizemos este percurso no sentido inverso quando viemos embora de Oecusse.

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Por mar

O ferry Success parte às três da tarde do porto de Díli, às Terças e Sextas, demorando cerca de 12 horas a chegar ao porto de Pante Macasssar, em Oecusse, de onde volta a partir, à mesma hora, nos dias seguintes.

Foi esta ligação que nós usámos para entrar em Oecusse. O novo porto de Pante Macassar situa-se a alguns quilómetros do centro da localidade. Por isso, quando chegar (por volta das três da manhã, é necessário arranjar boleia ou um transporte para o centro, onde existem algumas homestays e hotéis). Como nós tínhamos alugado uma cabine no ferry, pedimos para ficar a dormir lá até ao início da manhã, já com o ferry atracado no porto de Pante Macassar. Outro ferry, o Nakroma, parte de Díli em direcção a Oecusse às Segundas e Quintas.

Veja aqui o nosso artigo sobre Dili.

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Por ar

Pante Macassar tem, desde Junho de 2019, o Aeroporto Internacional «Rota do Sândalo» (com capacidade anual para acolher até um milhão de passageiros!), mas ainda não existem ligações aéreas comerciais para Pante Macassar. Em casos de emergência, é possível fretar uma avioneta.

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Como deslocar-se em Oecusse

As estradas em Oecusse são a prioridade para o governo da região e estão a melhorar em qualidade, com a construção de pontes e novos pavimentos, mas viajar na região ainda é um desafio. Em Oecusse não há uma rede de transportes públicos. A opção mais fiável, e a que nós utilizámos para nos deslocarmos em Oecusse, é os moto-táxis (ou ojek), mas também existem alguns microlets, mini-vans que têm rotas definidas.

Com a ajuda de alguma homestay ou hotel, poderá arranjar o contacto de alguém com uma viatura 4X4.

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Onde ficar a dormir em Oecusse

Na nossa breve incursão por Oecusse, só explorámos o alojamento em Pante Macassar. Ali há várias opções, mas aconselhamos o Hotel Inur Sakato (+67077240151) ou contactar as irmãs dominicanas (+670 7717 3176).

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Dicas práticas

  • Em Pante Macassar há ATMs, mas, por precaução (e para o resto do território), deve levar dinheiro suficiente (a moeda em Timor-Leste é o dólar americano).
  • Deve usar repelente de insectos, pois é uma área com risco de malária.
  • Há rede de telemóvel nacional, e pode ter conexão à internet se usar um cartão SIM de Timor-Leste com dados móveis.
  • Na saída e entrada de Oecusse deve ter em atenção a mudança de fuso horário; a fronteira indonésia fecha às 16.00h (17.00h em Timor-Leste).

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LUGARES E EXPERIÊNCIAS A NÃO PERDER EM OECUSSE


Oecusse é um lugar único e que vale a pena visitar. É, provavelmente, a região menos turística que nós visitámos, até agora, na nossa volta ao mundo. Tem uma cultura tradicional muito própria, preservada pelo isolamento e esquecimento, e tudo o que nos rodeia parece saído de um filme dos anos 60. Prepare-se para entrar num mundo onde as missões cristãs são ainda o centro das comunidades.

1. Chegar a Oecusse por mar

Faça como nós e os primeiros portugueses, há 500 anos, e chegue a Oecusse de barco. A viagem de Dili até Pante Macassar demora cerca de 12 horas e é muito interessante. Partilhe o espaço do ferry com a população local, que transporta consigo os animais e as mercadorias que adquiriu em Dili.

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2. Colégio Feminino das Mães Missionárias Dominicanas

Aquela que foi uma das primeiras escolas femininas católicas que abriu em Oecusse no período colonial, continua agora a sua missão de educar, e é ao mesmo tempo um local agradável, com um café, e onde pode conversar com as irmãs, obter informações e ajuda. É o centro da acção em Pante Macassar.

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3. Centro de Pante Macassar

Pante Macassar é uma pequena localidade, com cerca de 5.000 habitantes. As estradas asfaltadas e ruas com passeios são de construção recente, mas no seu centro, em particular na marginal, ainda se podem ver algumas recordações do período colonial português, como o Kumando, um edifício da administração portuguesa que será convertido em Centro Cultural, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1965, e uns canhões perdidos que ainda apontam para o mar.

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4. Aeroporto Internacional Rota do Sândalo

Mesmo que não vá voar (o que é muito provável), a mera visão surreal deste megaprojecto de 120 milhões de dólares à saída de Pante Macassar é motivo suficiente para passar lá. O governo da região administrativa está apostado em melhorar os acessos a Oecusse, incluindo voos de Dili, mas também de Kupang. Por agora, ainda está tudo por concretizar.

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5. Lifau

Alguns quilómetros a oeste do centro de Pante Macassar, encontra-se o local onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez em Timor, em 1515. O nome Lifau provém de Lean Faun, que significa “povo estrangeiro”. Ali, encontra-se um padrão a comemorar o acontecimento de 18 de agosto de 1515, e um monumento que celebra o encontro histórico entre portugueses e indígenas.

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Ali também se localizava o Forte de Santo António de Lifau, agora completamente desaparecido. Actualmente, apenas uma antiga peça de artilharia recorda a presença portuguesa.

A praia mesmo em frente, praia de Lifau, é muito bonita, com um longo areal, e resguardada. Não espanta, assim, porque é que os portugueses escolheram desembarcar ali na ilha de Timor.

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6. Ruínas de Fatu-Suba

No topo de uma colina, sobranceira à cidade, encontram-se as ruínas de uma antiga prisão e fortaleza portuguesa, que terá sido um dos edifícios mais emblemáticos da Vila Taveiro, nome de Pante Macassar na época do Timor Português. Só restam alguns muros de diferentes divisões e uma parte da muralha exterior.

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No seu interior, encontra-se uma gruta com uma estátua de Nossa Senhora, local visitado pela população local. Do topo das muralhas têm-se vistas espectaculares sobre a cidade e o mar.

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7. Percorrer um trilho a pé

Nós não tivemos tempo para explorar Oecusse a pé, mas ouvimos dizer que o trilho da Fonte Sagrada vale mesmo a pena. Fonte de água para a comunidade, tão preciosa quanto escassa, é também local sagrado, palco de cerimónias e de rituais. Entre os meses de Maio e Outubro, a precipitação em Oecusse é muito escassa, e a paisagem torna-se muito árida. Os leitos dos rios secam e todas as fontes de água são vitais para a sobrevivência das pessoas.

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8. Admirar o modo de vida e arquitectura tradicionais em Oecusse

Fora de Pante Macassar, Oecusse não é mais do que um conjunto de pequenas aldeias ligadas entre si por vias de comunicação ainda não muito fiáveis. Mas viajar pelo interior de Oecusse permite admirar de perto a arquitectura tradicional das aldeias e conhecer o modo de vida das suas gentes, como por exemplo as aldeias de Padiae e de Tono.

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Em Oecusse, as casas tradicionais (uma lulik, em tétum) são construídas em madeira e cobertas com folhas secas de palma, e representam um espaço sagrado de encontro, debate, e transferência de conhecimento entre gerações, assim como uma ligação com os antepassados.

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Normalmente, as famílias têm dois tipos de Uma Lulik, uma nas montanhas, chamada Uma Suba, e outra na costa, chamada Ume Haltuna.

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9. Explorar o desconhecido

Oecusse é uma terra por descobrir. Parta à verdadeira aventura e deixe-se encantar por esta terra esquecida por todos e desconhecida para todos. A nossa incursão por Oecusse foi breve, mas ficou a curiosidade de saber e descobrir mais.

Quando saímos de Oecusse, e passámos para a Indonésia, logo ao cruzar a fronteira (ela própria digna de registo como uma das mais surreais que já atravessámos), foi como se entrássemos noutro mundo. Não é que fosse fisicamente muito diferente (apesar de as estradas serem substancialmente melhores), mas tínhamos claramente a sensação de termos estado num local singular e que não esqueceremos.

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Este artigo foi realizado durante a nossa viagem de Volta ao Mundo em 2019/2020. DIAS 80 a 82 – Uma incursão pelo enclave de OECUSSE, um Timor-Leste desconhecido (Setembro 2019)

Se vai viajar para Timor Leste, estes são alguns artigos do nosso blogue que lhe podem interessar

  • VIAJAR EM TIMOR LESTE – Um artigo cheio de dicas práticas para viajar em Timor Leste, com tudo o que precisa de saber para explorar o país.
  • VISITAR OECUSSE – Um artigo com tudo o que precisa de saber para visitar Oecusse, em Timor Leste, desde Dili ou da Indonésia.
  • VISITAR A ILHA DE ATAÚRO – Tudo o que precisa de saber para visitar a ilha de Ataúro, em Timor Leste, está neste artigo aqui no blogue.
  • VISITAR DILI – Tudo o que precisa de saber para visitar Dili, a capital de Timor Leste, está neste artigo aqui no blogue.
  • VIVER EM DILI – Um artigo em forma de crónica de viagem sobre a nossa experiência em Dili durante a nossa viagem de Volta ao Mundo.

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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