Portugal, Omã, Zanzibar e as ROTAS DOS ESCRAVOS

Portugal, Omã, Zanzibar e as ROTAS DOS ESCRAVOS

A que é unanimemente encarada como a época mais gloriosa de Portugal, aquela em que o nosso país se tornou uma potência global e, como cantou Camões, “deu novos mundos ao mundo”, baseou-se em apenas uma estratégia: a exploração dos recursos naturais e humanos dos novos mundos por descobrir. O comércio e rotas dos escravos foi talvez a face mais negra, e de consequências mais marcantes, do domínio português nas Américas e em África. Portugal foi realmente pioneiro; num dia de Agosto de 1444, atracava no porto de Lagos o primeiro carregamento de escravos: a chegada de 235 pessoas trazidas do território que hoje é a Mauritânia marcava simbolicamente o início do comércio transatlântico de escravos, controlado em exclusivo por Portugal no século seguinte. Mas outros rapidamente se juntaram a tão lucrativa iniciativa empresarial.

Portugal, Omã, Zanzibar e as Rotas dos Escravos

Não é assim de estranhar que, quando se pensa nas rotas dos escravos em África, naturalmente vêm à mente a imagem das potências coloniais ocidentais, nomeadamente, Portugal, Inglaterra, França, Espanha, ou Holanda, como principais perpetradores deste negócio. E não deixa de ser verdade; o fluxo transatlântico de escravos moveu milhões de escravos entre continentes durante vários séculos, e, de facto, a ordem pela qual estes países foram anteriormente enumerados reflecte a ordenação por volume de negócio (ver Trans-Atlantic Slave Trade Database). Estima-se que, entre 1450 e 1860, cerca de 13 milhões de africanos foram escravizados, sendo que quase 6 milhões foram transportados em navios com a bandeira de Portugal ou Brasil.

Portugal, Omã, Zanzibar e as Rotas dos Escravos

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No entanto, não foram só os europeus a envolver-se nesta sórdida actividade. Em particular, na costa oriental africana, os Árabes foram os primeiros e principais responsáveis pelas rotas dos escravos, e Zanzibar foi o último grande bastião dessa desumanidade.

Portugal, Omã, Zanzibar e as Rotas dos Escravos

Embora a prática da escravatura em África, pelos Árabes, seja anterior ao Islão, recuando até à época do Império Romano, foi só a partir do século IX que que se começaram a desenhar as grandes rotas dos escravos, partindo do interior africano, até aos mercados nas costas do norte de África, do Corno de África, ou da costa oriental africana, para depois chegarem ao seu destino final no Médio Oriente e Península Arábica. Sendo assim, o início deste comércio antecipa em 700 anos o comércio transatlântico feito pelos europeus!

Portugal, Omã, Zanzibar e as Rotas dos Escravos

Em 1497, no entanto, entravam em cena novos actores desta tragédia, quando Vasco Da Gama, a caminho da Índia, passou por Zanzibar e atracou em Mombasa e em Melinde (actual Quénia). Em 1503, os portugueses dominavam já Unguja, a maior ilha do arquipélago de Zanzibar, ponto nevrálgico na passagem de navios, e passados menos de 10 anos, chegavam a Muscat e ao estreito de Ormuz. Por volta de 1525, Portugal dominava quase toda a costa oriental africana, desde Lamu (200 km a norte de Mombasa) até Sofala (actual Moçambique). Estavam instaladas as condições para “business as usual”. Do interior africano vinham o ouro, o marfim e os escravos, trocados por tecidos, porcelana e metais.

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Com a expansão dos ingleses no Oceano Índico, os portugueses procuraram aumentar o seu domínio construindo fortificações em Pemba e Mombasa. Apesar disto, a posição portuguesa estava a enfraquecer e, em meados do século XVII, os Árabes tinham já recuperado Ormuz e Muscat, ameaçando então o domínio português em Zanzibar. No final desse século, os portugueses tinham perdido por completo o seu domínio da costa oriental africana, sendo expulsos de Zanzibar, e restringindo-se à costa do que é hoje Moçambique.

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A partir daí, e durante quase 200 anos, o domínio do sultanato de Omã foi absoluto. Construíram um forte no local de uma igreja portuguesa e fundaram a que viria a ser a actual Stone Town (ou Zanzibar Town). Rapidamente, o comércio de escravos cresceu, em resposta à necessidade de mão-de-obra barata para as plantações de tâmaras, mas também para o trabalho doméstico ou escravidão sexual. Mas, ao mesmo tempo, o movimento abolicionista inglês começava a convencer a opinião pública e as instituições de poder. Em 1807, a lei que tornava ilegal o comércio de escravos no império britânico passava no parlamento inglês, sendo que os escravos podiam ser mantidos, mas não transaccionados. Finalmente, em 1833, deu-se a abolição da escravatura no império britânico, abrindo caminho a um processo longo e gradual de emancipação dos escravos.

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Em 1822, o sultanato de Omã assinou um primeiro tratado antiescravagista, um tímido primeiro passo de um longo processo que se desenrolaria durante quase um século. Este tratado impedia a venda de escravos a cristãos, mas permitia o transporte até Omã. As pressões inglesas fizeram com que o sultanato de Omã procurasse outras potências como parceiros comerciais e, para fortalecer a sua posição na região, o sultão mudou a sua capital para Zanzibar em 1840. Apesar das restrições, a procura de escravos continuava a crescer, de tal forma que os comerciantes de escravos árabes e swahili começaram a embrenhar-se mais no interior africano, chegando aos lagos Malawi, Tanganyika e Vitória. O aumento do “volume de negócio” foi tal que as plantações de cravo foram introduzidas em Zanzibar para escoar o excesso de oferta de mão-de-obra. Em meados do século XIX, estima-se que 50.000 escravos passassem anualmente pelos mercados de Zanzibar.

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Durante o século, os ingleses continuaram a forçar a assinatura de tratados antiescravagistas cada vez mais restritivos para o sultanato. Apesar de terem poucos recursos para o efeito, os barcos ingleses tinham autoridade para capturar e queimar as embarcações árabes que faziam as rotas dos escravos, agora ilegais, libertando os escravos para comunidades recém-formadas de pessoas livres. Finalmente, em 1876, o comércio de escravos em Zanzibar foi oficialmente abolido, mas a escravatura só foi tornada ilegal em 1897. Oficialmente, chegava ao fim uma história negra de sofrimento de milhões, quiçá sem comparação na história da humanidade. Infelizmente, as tradições milenares demoram tempo a serem mudadas, e, por exemplo, a escravatura só foi tornada ilegal na Arábia Saudita em 1963! E, hoje, a escravatura adquire novas facetas com o tráfico sexual ou de refugiados. É preciso uma atenção redobrada para que a humanidade não tenha ainda mais razões para se envergonhar no futuro. Esperemos que assim seja.

Portugal, Omã, Zanzibar e as Rotas dos Escravos

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As fotografias apresentadas neste post foram tiradas na exposição no Santa Mónica Hostel, no Mercado de Escravos de Stone Town, em Zanzibar. 

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Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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