Do lago Malawi a Mbeya, na Tanzânia | Um pesadelo de autocarro e as aventuras nas estradas de África

Do lago Malawi a Mbeya, na Tanzânia | Um pesadelo de autocarro e as aventuras nas estradas de África

As aventuras no lago Malawi foram muitas, com direito a um trekking na companhia de pescadores embriagados e até a um acidente de canoa. Mas depois de desfrutar do lago estava na hora de nos lançarmos ao caminho. O próximo destino seria a Tanzânia, o nosso último país neste périplo pela África Oriental.

A dúvida

Passámos a noite no Mayokas Village a jogar jogos de tabuleiros e a conversar. A internet não funcionava nada bem por isso voltámos a sentir-nos viajantes do século XX.

Tínhamos comprado bilhetes de autocarro ao James, o rapaz que trabalhava no Mayokas Village. Ele entregou-nos os bilhetes no dia anterior e combinámos com ele, que nos encontrávamos nessa noite, por volta das 23h, para seguir para Mzuzu de táxi. Precisávamos da ajuda do James porque íamos apanhar um autocarro directo que vinha de Lilongwe (capital do Malawi) e que não parava no terminal de Mzuzu mas sim numa estação de serviço. Como não sabíamos onde era, o James prontificou-se a ir connosco (em troco de uma gorjeta).

Era noite serrada quando saímos de Nkhata Bay e a estrada que levava a Mzuzu não tinha qualquer iluminação. Durante quase uma hora percorremos estradas desertas que podiam ser em qualquer lugar do mundo. Dormitei um pouco. Se soubesse o que ira acontecer, teria dormido o caminho todo.

Quando chegámos a Mzuzu, parámos na estação de serviço. Os parcos automóveis que apareciam para abastecer, entravam e saiam rapidamente. O tempo foi passando e o autocarro que deveria chegar às 24h não aparecia. Uma da manhã e nada. Duas da manhã e nada. O James e o taxista estavam fora do carro. Eu e o Rui conversávamos no interior. Já estávamos mais ou menos convencidos que tínhamos entrado num esquema e que o dito autocarro para a Tanzânia não iria aparecer.

Perto das 2h30 da manhã, aparece um autocarro decrépito e cheio de gente. Era o nosso transporte. Vinha completamente a abarrotar e James diz-nos:

– Parece que houve um problema em Lilongwe e, de dois autocarros que deveriam ter partido, um avariou. Tiveram que colocar toda a gente neste.

Era esquema, claramente. Os nossos bilhetes (com preço inflacionado) tinham sido um “roubo” e ainda por cima íamos agora fazer uma viagem nocturna de pé. Olhámos um para o outro e sabíamos que não tínhamos alternativa. Estávamos no meio do nada. James ainda propôs levar-nos até à paragem de combis e aí apanhar um combi pela manhã cedo em direcção a Karonga e daí para a fronteira. Depois de passar a fronteira teríamos que arranjar um novo transporte do lado da Tanzânia. Era um opção bastante pior. Teríamos que passar a noite num terminal no Malawi (que não fazíamos ideia de como era, mas a julgar pelo de Lilongwe seria terrível) e depois de cruzar a fronteira, arranjar um transporte que não fazíamos ideia se existiria ou não.

O pesadelo da viagem

Optámos por entrar naquele autocarro decrépito com a esperança de conseguir sentarmo-nos no chão. Mas nem isso foi possível. Quando entrámos, o autocarro estava cheio, com gente sentada nos bancos, no chão e pessoas de pé porque não havia espaço no chão para todos. Não queríamos acreditar. A viagem até à Tanzânia iria ser um suplício. E foi.

Os primeiros minutos viajámos de pé, batendo contra os ferros dos bancos a cada guinada do motorista. Era impossível dormirmos assim. Havia pessoas a dormir sentadas umas em cima das outras. Era surreal. Aproveitámos uma travagem do autocarro para ocupar com o rabo um pedaço de chão. Sentei-me. O Rui ocupou o meio das minhas pernas para evitar bater contra os laterais dos bancos. Foi infrutífero. Tentava encostar-me atrás mas batia com as costas num bebé que dormia no colo da mãe. O bebé chorava. Tentei virar-me e encostar-me aos bancos. Enfiei as pernas por baixo dos bancos do outro lado, e as minhas pernas ficaram no meio das pernas de duas mulheres. As costas começaram a ficar pisadas e com feridas. De cada vez que o autocarro fazia uma pausa, as pessoas saiam para ir urinar ou defecar. Mas só saiam os que tinham bilhete sentado. Os outros não podiam dar-se ao luxo de perder o “pedaço de chão conquistado”. Nós estávamos nesse grupo. Homens e mulheres passavam por cima de nós e eu ocasionalmente ficava com a cabeça dentro da saia de alguém. Este ritual foi constante durante mais de três horas. Cheirei várias partes baixas das mulheres que passavam por cima de mim. Fui pisada dezenas de vezes e a determinada altura até sentia os bichos do chão do autocarro a percorrer-me as pernas. O Rui ainda estava de pé. Era insano. Trocámos por momentos. O meu lugar era demasiado pequeno para ele e tive que o segurar com os braços para ele conseguir dormir alguns minutos naquela noite. Mas já não aguentava mais. Estava a ficar com os braços pisados e as costas completamente doridas. Tivemos que voltar a trocar de lugar até chegar à fronteira. Eu fui conseguindo dormitar e o Rui “acha” (porque ainda hoje não tem a certeza) que chegou a dormir de pé.

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O cruzamento da fronteira

Eram quase 7h da manhã quando o autocarro chegou à fronteira. Saímos e aguardámos na porta. Só abria às 7h. Já lá estavam três estrangeiros que ali tinham passado a noite. Quando a fronteira abriu, os guardas pegaram nos passaportes de todos os passageiros do autocarro e trataram dos trâmites rapidamente. Depois dos passaportes carimbados, vieram entregar-nos na porta do autocarro e voltámos a entrar para passar a terra de ninguém. Ainda bem que tínhamos vindo de autocarro, pois a distância entre as duas fronteiras deveria ser mais de um quilómetro. Do lado da Tanzânia o procedimento foi semelhante. Todos os passageiros voltaram a sair do autocarro, desta vez com as mochilas, e carimbaram os passaportes. Como precisávamos de visto para a Tanzânia, fomos para uma outra fila tratar dos vistos e depois voltámos à parte do controle das bagagens. No final do processo, voltámos para o autocarro, prontos para seguir viagem. Tivemos tempo de ver que no autocarro, os lugares marcados iam apenas até à letra L e os nossos bilhetes eram o M. O James tinha-nos mesmo enganado. Naquele momento ter-lhe-ia apertado o pescoço.

Saímos da fronteira por volta das 9h da manhã e chegámos a Mbeya, na Tanzânia, pouco passava das 10h. A viagem tinha sido horrível, a pior viagem de autocarro em mais de 10 anos de viajantes. Porém tinha sido uma viagem eficaz, pois tinha-nos trazido a Mbeya em apenas uma noite. O autocarro parou na estrada principal e deixou-nos ficar. Com as mochilas às costas, tentámos arranjar um taxista para nos levar à estação de comboio para comprar os bilhetes para o Tazara Train, no dia seguinte, e depois para a plantação de café onde iríamos dormir. Estávamos em Mbeya e, embora não tivéssemos arranjado bilhetes na estação para o comboio (que só saia uma vez por semana) estávamos satisfeitos. O resto teríamos que resolver, e como estamos habituados, ir-se-ia resolver.

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Estávamos na Tanzânia! 😀

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Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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