Dia 31 – Com o coração no Afeganistão 🇦🇫 | Crónicas do Rally Mongol

Dia 31 – Com o coração no Afeganistão | Crónicas do Rally Mongol

Nós já sabíamos que o projecto do Rally Mongol não iria acrescentar muitos países àqueles que nós já conhecemos. Aquando da nossa Rota da Seda, percorremos um trajecto que, em grande parte, coincide com aquele que foi definido pelos Carapaus de Corrida. O Tajiquistão é um daqueles países que ainda não conhecíamos e estávamos, naturalmente, ansiosos e expectantes quanto ao que este país teria para nos mostrar. Não tínhamos muitos dias no Tajiquistão, mas um dos objectivos era percorrer a estrada que acompanha o rio que faz fronteira natural com o Afeganistão.

Toda a fronteira sul do Tajiquistão é com o Afeganistão, e essa fronteira é definida, na sua quase totalidade, pelo curso do rio Pyanj, que nasce, a leste, no vale de Wakhan, e entronca a oeste, junto à fronteira com o Uzbequistão, com o rio Vakhsh, formando o grande rio Amu Darya. O nosso objectivo era percorrer a estrada que segue junto ao rio, começando logo a seguir à cidade de Kulob, onde dormimos.

Partimos de manhã cedo, pois a jornada ia ser longa. Após passarmos pelo Passo Shurabad (2200m), descemos em direcção ao rio Pyanj e à visão de um vale encantador. Parámos num miradouro para apreciar a paisagem. Do nosso lado direito, um pequeno afluente corria para o Pyanj, e à nossa frente erguiam-se as montanhas do Afeganistão, na região de Badakhshan. É uma região escassamente povoada, apenas salpicada por aldeias, sendo que as principais cidades, Faizabad e Kunduz, se encontram bastante afastadas.

O percurso é feito pela estrada do lado tajique, mas as vistas são todas para o lado do Afeganistão. A estrada está, na quase totalidade do percurso, em muito más condições, e a progressão é lenta.

O vale é espectacular, com gargantas profundas cortados pela acção erosiva do poderoso rio. Por vezes, a estrada segue junto ao rio; outras, centenas de metros acima, no topo de escarpas vertiginosas. Do lado afegão, um trilho acompanha o vale, às vezes com largura aparente para passar uma pessoa ou um burro, ligando as aldeias que se sucedem ao longo do vale.

As aldeias são verdadeiramente belas, normalmente localizadas junto a cursos de água que afluem ao rio Pyanj, e rodeadas de campos e vegetação, destacando-se o verde em relação à aridez circundante. Umas têm casas bem cuidadas, e campos organizados, aparentando ser de famílias com mais posses; outras são muito pobres, quase sem nada e perdidas no meio do nada. Por vezes vislumbramos tendas de organizações não-governamentais ou da ONU. Umas são construídas mesmo junto à água; outras no topo de formações rochosas. Por vezes fez-nos lembrar o magnífico vale de Spiti, nos Himalaias indianos.

Do nosso lado do rio, observamos, na margem do Afeganistão, crianças a brincar no rio, pessoas a trabalhar no campo, e outras a deslocar-se a pé, aparentemente carregando água para a aldeia mais próxima. Aquelas pessoas e aquela região não têm nada a ver com guerras e disputas pelo poder; do outro lado do rio conseguíamos sentir a pureza e genuinidade daquele povo. O Afeganistão já estava no topo da nossa lista dos países a visitar, e estar assim tão perto sem poder ir ao outro lado aguçou ainda mais o nosso apetite. Esperemos que as condições no terreno nos permitam concretizar este sonho a curto ou médio prazo.

Parámos para almoçar na localidade de Kalai-Khum, admirando a fusão da água glaciar azul-turquesa de um afluente com a água lamacenta e turbulenta do rio Pyanj. Dali, seguimos em direcção à localidade de Khorogh. O vale vai abrindo um pouco, mas não perde a sua espectacularidade.

A dada altura, começámos a sentir um forte odor a gasolina e a Burra parou. Um tubo tinha partido e estávamos a perder combustível! Estávamos numa parte isolada da estrada, o calor fazia-se sentir e tínhamos de fazer algo. Começámos por empurrar a Burra para o lado, para permitir a passagem dos poucos carros em sentido contrário. Depois, enquanto pensávamos em empurra-la até à aldeia mais próxima para conseguir ajuda, o segundo carro que passava por nós parou e o seu condutor perguntou o que se passava. Explicámos e ficámos a saber que era mecânico!

Saiu do carro, olhou para dentro do capô, pediu uma chave inglesa e um alicate, cortou os dois tubos, inseriu um no outro e colocou uma anilha a prendê-los. A Burra já trabalhava outra vez! Tinham-se passado apenas cerca de quinze minutos, e uma situação aparentemente de resolução difícil foi ultrapassada graças ao engenho e generosidade de um completo desconhecido. Um verdadeiro milagre! Mas ainda não era o último do dia…

Ao longo do percurso, são vários os postos de controlo onde temos de mostrar os passaportes e o visto electrónico, incluindo a permissão para viajar na região (GBAO). No último posto que atravessámos, a noite já tinha caído. Estávamos cansados e moídos pelas longas horas de condução. O local era assombroso, com uma ponte sobre a foz de um afluente, sob a qual as águas rugiam e, em redor, com o céu recortado pela silhueta negra das montanhas que se distinguiam no lusco-fusco.

Quando partimos, as dúvidas instalavam-se. Khorogh parecia nunca mais chegar, e não sabíamos se seria seguro circular naquela estrada àquelas horas, pois o Afeganistão é o país que produz mais de 90% do ópio do mundo e o tráfico é constante. De repente, um camião buzinava atrás de nós e fazia sinais com os máximos. Abrandámos, mas o camião não passava. Haveria algum problema com a Burra? Seria que o condutor estava com pressa ou queria mais alguma coisa? Abrandámos ainda mais e encostámos de modo a deixar passar o camião. Este passou à nossa frente, mas parou imediatamente, cortando o nosso caminho. Os nossos corações pararam por instantes.

O condutor saiu do camião e caminhou na nossa direcção. Gesticulava e parecia trazer algo na mão. Quando se aproximou da Burra, vimos que trazia a carteira do Carapau Oliveira, com passaporte, dinheiro, e cartões. Tinha caído para o chão no posto de controlo e o condutor do camião tinha-nos seguido a alta velocidade para nos entrega-la. Aliviados e espantados, não pudemos deixar de pensar que tínhamos assistido a outro milagre, uma demonstração de generosidade e preocupação por parte de um desconhecido, que nos salvou de uma situação que seria bastante complicada.

Prosseguimos viagem e finalmente chegámos a Khorogh, onde ainda andámos quase uma hora à procura de um alojamento. Tínhamos andado na estrada durante doze horas, e estávamos exaustos, mas tínhamos sido abençoados com experiências humanas enriquecedoras e paisagens fabulosas. Afinal, é para isto que se viaja. O resto, dilui-se no tempo.

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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