DIA 4 – NÚBIA, a região que é senhora do deserto – Crónicas de Viagem | SUDÃO

DIA 4 – A NÚBIA é senhora do deserto – Crónicas de Viagem | SUDÃO

Levantamo-nos com o Sol. A noite tinha sido fria e mal dormida, pois a roupa das camas resumia-se a uma espécie de lençol que mal nos tapava os pés. Mas não fazia mal. Lavamos os dentes cá fora, iluminados pelo sol nascente. A Núbia, a região dividida entre o Egipto e o Sudão cuja antiga capital era Napata, esperava por nós.

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Pouco passava das seis da manhã quando saímos do nosso quarto e, logo em frente ao portão da casa, demos de caras com o templo de Soleb. O sol, que tinha nascido há pouco, iluminava as colunas que restaram de um dos templos egípcios mais importantes do agora território sudanês da Núbia.

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SOLEB

Construído no século XIV a.C. pelo faraó Amenhotep III, nas margens do rio Nilo, teria uma função cerimonial importante, relacionada com os ritos de celebração e renovação do poder do faraó.

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Hoje, e a apesar de termos lido que é o mais bem preservado do Sudão, a verdade é que pouco resta da sua antiga glória. Algumas colunas com mais de 10 m de altura e parte da parede virada para o rio são o mais impressionante do que resta. Em algumas das colunas pode ainda admirar-se representações hieroglíficas e de pessoas e animais, assim como em algumas das pedras que estão espalhadas a toda a volta do templo.

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A luz do sol nascente fazia com que as representações resplandecessem e parecessem querer regressar à sua antiga glória. Ao mesmo tempo que admirávamos o templo de Soleb, tínhamos de lidar com milhares de pequenas moscas que nos importunavam e dificultavam o simples acto de respirar.

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ALDEIAS NÚBIAS

Regressámos à nossa casa Núbia, onde tomámos o pequeno-almoço e de onde saímos logo de seguida. Percorremos as ruas de Soleb e das aldeias núbias próximas, admirando as construções em adobe, com apenas as portas e janelas pintadas. As aldeias da Núbia estão cheias de gente mas a esta hora do dia ainda são poucos os que se aventuram ao sol.

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Cada habitação de adobe tem uma cerca feita de lenha e arbustos espinhosos que protege os animais da aldeia das investidas das raposas do deserto. As mulheres já andam por ali a alimentar o gado. As mais jovens já vão a caminho dos campos agrícolas.

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Parámos numa aldeia Núbia para trocar umas palavras com a população local, brincar com as crianças e perceber como funciona a vida por aqui. Um ancião, com três dos seus jovens filhos, recebe-nos com um sorriso rasgado.

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MONTANHA HODJA

Nas margens do rio Nilo, um pouco mais a nascente, subimos a uma pequena montanha Núbia, chamada Hodja, de onde pudemos mais uma vez constatar a beleza deste rio e a sua capacidade de dar vida a uma paisagem totalmente seca e inóspita. Em particular, uma pequena ilha em frente estava totalmente agricultada, sendo que o verde contrastava com o castanho das margens.

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Na montanha havia uma gruta escavada pelos egípcios. Um lugar surreal com mensagens em hieróglifos esculpidas nas suas paredes interiores.

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SEDEINGA

Visitámos ainda outro templo egípcio em Sedeinga, também mandado construir por Amenhotep III, desta vez em honra da sua mulher, mas neste ainda menos sobrou para contar a história. Uma coluna e um amontoado de pedras com poucas representações é tudo o que resta. Aquilo que tinha mais valor foi levado para o Museu de Cartum mas também para Londres e Berlim.

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Este foi o ponto mais a norte do Sudão (e nascente do rio Nilo) que fomos. A Núbia continua em direcção ao Egipto mas nós iríamos agora começar a viajar em direcção a sul.

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DESERTO ROCHOSO

Regressámos num longa viagem até à cidade de Dongola. Pelo caminho, como não podia deixar de ser, o deserto domina por completo a paisagem, desta vez em tons de negro e cinzento, pela presença de basaltos e granitos. A acção dos elementos, em particular a amplitude térmica entre dia e noite, ao longo de séculos, desfaz literalmente as rochas, transformando-as em areia fina que lentamente alimenta os depósitos que rodeiam a estrada. É assim que nascem os desertos. E nós podíamos testemunhar isso mesmo em frente aos nossos olhos.

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DONGOLA

Em Dongola tivemos de resolver um problema burocrático. O Sudão passa por uma crise política a que não é alheia a situação económica. Com a separação entre Sudão e Sudão do Sul, este último ficou com grande parte das reservas de petróleo, e o Sudão luta para diversificar a sua economia e diminuir a sua dependência do ouro negro. A gasolina é um bem raro por estes dias no Sudão, muitas das bombas não funcionam, e as que estão abertas, ou estão apinhadas de clientes, ou só servem aqueles que têm uma permissão especial do governo. Foi um destas permissões que Mohamed conseguiu, mas não sem antes saltarmos de repartição em repartição, num espectáculo da burocracia sudanesa no seu melhor (ou pior) e perdermos ali parte do dia.

Depois de almoçarmos (adivinhem? Pão e feijões, pois claro!), voltámos à estrada em direcção à cidade de Karima, onde passaríamos a noite. O percurso entre as duas cidades atravessa uma secção muito mais arenosa do deserto, e o vento intenso que se fazia sentir empurrava as areias para cima da estrada e contra o nosso carro. Parámos para comer melancia no deserto, um miminho que Mohamed nos preparou.

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JEBEL BARKAL

Quando chegámos a Karima, já eram cinco da tarde. Dirigimo-nos à montanha sagrada da cidade, Jebel Barkal, que os antigos egípcios e núbios acreditavam ser a morada do deus Amon. Ali Tutmoses III mandou erguer, no século XV a.C., um enorme templo virado para o rio Nilo, mas a zona acabaria por ser utilizada como local de construção de templos e túmulos por dinastias sucessivas, incluindo os chamados “faraós negros”. Mas destes falaremos amanhã, quando visitarmos o complexo pela manhã.

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Subimos ao cimo de Jebel Barkal, na primeira ocasião em que tivemos a companhia de uma dezena de turistas e outra dezena de miúdos sudaneses. Do alto tem-se vistas fabulosas sobre a cidade de Karima, para poente, sobre as fundações do templo de Amun, e sobre o cemitério real, com as primeiras pirâmides que víamos na nossa viagem.

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E mais uma vez temos aquela sensação de deslumbramento perante construções que sobreviveram tanto tempo aos elementos naturais e humanos, e que ainda permanecem, imponentes e orgulhosas, superando em muito as construções actuais sudanesas. O dia de amanhã promete, quando as explorarmos em maior pormenor e de perto.

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O sol já se tinha deitado atrás do horizonte quando descemos pela areia que se acumula num dos lados de Jebel Barkal. Mohamed estava à nossa espera e dali seguimos para jantar. Desta vez, comemos pedaços de frango que nos fizeram lembrar o franguinho de churrasco português.

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Acabámos o dia na que seria a nossa casa por duas noites, na cidade de Karima. Era tempo de tomar um duche e retemperar energias para o dia seguinte.

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Leia aqui as crónicas diárias da nossa aventura a viajar no Sudão:

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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4 Comentários

  1. claudio diz: Responder

    Sou um grande fã vosso, e o Sudão é para mim tb um sonho difícil, por isso estou muito atento ao vosso relato.
    Queria perguntar se essas vossas caminhadas a pé não são perigosas? Não existem nessas áreas animais perigosos como hienas??
    Obrigado

    1. Carla Mota diz: Responder

      Cláudio, antes de viajar para o Sudão estávamos um pouco apreensivos, especialmente devido ao estado de emergência decretado antes de partirmos. Uma vez lá, percebemos que o país é bastante seguro e tranquilo. Não achamos nada perigoso ou arriscado. Tudo tranquilo. Não há animais selvagens perigosos.

  2. Lusa Pinto diz: Responder

    Belas fotos do Sudão.

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada, Lusa.

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