Um país, no fundo, é sempre uma coisa muito pequena: compõe-se de um grupo de homens de letras, homens de Estado, homens de negócio e homens de clube, que vivem de frequentar o centro da capital. O resto é paisagem, que mal se distingue da configuração das vilas ou dos vales. É a gente sonolenta da província.
Se, por um lado, a capital de um país é normalmente o centro urbano mais populoso e mais importante em termos económicos e políticos, como aplicado magistralmente ao nosso Portugal na frase citada do imortal Eça, também é verdade que, do ponto de vista de um viajante, a capital de um país é muitas vezes o último sítio a visitar.
Particularmente no caso de países sub-desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, a capital, e o seu modo de vida e suas gentes, têm características que são completamente distintas do resto do país, e o Senegal não é excepção. Mas são a ‘paisagem e a gente sonolenta da província’ que atraem o olhar do viajante, procurando uma autenticidade que normalmente se perdeu na selva urbana. O Viajar entre Viagens já percorreu países de lés a lés sem visitar a sua capital, como por exemplo a Guatemala.
Quando chegamos ao Senegal, o avião pousou no aeroporto de Dakar, dormimos no bairro de N’Gor e na manhã seguinte fomos para a estação de táxis. Daí seguimos para a aventura de conhecer o país e as suas gentes. No final, regressamos à capital, com um olhar enriquecido pelas experiências vividas nos últimos 10 dias. E ainda bem que o fizemos nesta ordem.
Por todo o país, convivemos com os locais, apanhando os mesmos transportes, frequentando os mesmos mercados, respirando o mesmo pó, e só encontramos pessoas com uma vida dura e pobre, mas disponíveis para ajudar e, muitas vezes, com um sorriso nos lábios. Percorremos paisagens belas e variadas, desde a savana e floresta do sul até ao deserto do norte, passando pelos braços de água do delta do Saloum.
Uma cidade é uma cidade, onde quer que ela se encontre. O centro de Dakar podia ser o centro de uma cidade de um qualquer país em vias de desenvolvimento, de um qualquer continente. Aqui podemos encontrar os bons restaurantes, os supermercados, o conforto de um apartamento, mas tudo isto não é o Senegal. Não é aquilo que o distingue dos outros, não faz parte da sua identidade.
É verdade que as duas principais atracções turísticas de Dakar (Goreé e N’Gor) fazem parte do imaginário de quem visita o Senegal e constituem parte da identidade do país, mas também é verdade que estão ao largo da cidade e rodeadas de água! Mas também é verdade que, até aqui, e talvez devido à proximidade da cidade grande, se está a perder a autenticidade das suas gentes, pescadores por natureza, cedendo o seu lugar à indústria do turismo.
Nos dois dias que estivemos em Dakar, não deixamos ainda assim de visitar os ‘highlights‘ da cidade, tais como o bairro de Yoff, passando pela mesquita da Divinidade e o Monumento da Renascença Africana, assim como os mercados de Kermel e de Sandaga. Fizemos a pé a zona marginal, passando pelo palácio presidencial. Jantámos, juntamente com expats e elite local, no excelente restaurante do Instituto Francês. Até o ritmo nocturno do mbalax senegalês não nos escapou, uma vez que dormíamos por cima de uma das discotecas mais in da cidade!
É por estas razões que sinto que Dakar, apesar de ter sido o ponto final da nossa aventura pelo Senegal, foi também o início de uma aventura pela África subsariana. Nas viagens, como na vida, não existe o ‘adeus’; é só um ‘até logo’.







