O mundo MUDOU-ME mas eu também quero mudar o mundo | Pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor

O mundo MUDOU-ME mas eu também quero mudar o mundo | Pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor

Há muito que andava para escrever este texto. Uma confissão composta por pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor, o meu mundo e o mundo de alguém. É uma espécie de desabafo interior, um texto que escrevo de mim para mim. Um texto onde partilho os meus pensamentos, aqueles que raramente saem da minha cabeça cá para fora. Aqueles que ficam a fervilhar dentro de mim e que me permitem viver a mil todos os dias. São memórias que me enchem a alma. São injecções de adrenalina que vou buscar ao meu âmago e me fazem acreditar que tudo o que faço tem um sentido e há pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor. Há algumas histórias que me vêm à cabeça quando penso nos pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor e que não posso deixar de exteriorizar. Chegou o momento de partilhar isso.


Pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor


1. O dia em que comprei uma polaróide

Ao longo das minhas viagens tiro centenas de fotografias, na realidade milhares, às vezes mais de mil por dia. Muitas dessas fotografias têm pessoas, crianças, mulheres e idosos. Raramente tiro uma fotografia sem pedir autorização e, a esmagadora maioria das vezes, converso com as pessoas antes de as fotografar. Gosto de manter uma relação de proximidade com a pessoa, conhecer a sua história, partilhar algo, ainda que, como na Índia, a maioria das conversas sejam perdidas “in translation”. No entanto, tento sempre dar-lhe algo em troca da fotografia que lhes tirei, um sorriso, um abraço, um beijo, um aconchego, uma palavra amiga, uma força, um encorajamento. Mas nunca dinheiro. Pagar pelas fotografias está (quase) sempre excluído, mas sobre isso escreverei um dia. No entanto, sempre senti que lhes tirava mais do que lhes dava. As fotografias eram consentidas mas sentia que devia ter algo para lhes oferecer em troca.

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Esta minha sensação terminou quando conheci a Rosa Furtado, uma viajante que foi comigo na primeira edição da viagem na Rota da Seda que liderei na Nomad. A Rosa viajava com uma polaróide e em troca das fotografias que tirava, oferecia uma. Fiquei deliciada. Era mesmo isto que precisava. Quando cheguei a Portugal, o Pai Natal ofereceu-me uma polaróide e ela passou a ser uma das minhas companheiras mais fiéis de viagem.

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Desde aquele momento, senti que a minha relação com a fotografia era uma relação de um para um. Tirava uma e dava uma. Foi maravilhoso. Senti-me muito melhor e, agora, para além de mostrar às pessoas as fotografias que lhes tiro no meu LCD da máquina fotográfica, tenho uma fotografia para lhes dar. Esta opção tem feito maravilhas por mim e pelos outros. Acho que humanizou mais o acto de fotografar, algo que agradeço sempre que o faço. Isto tem-me permitido entregar fotografias a pessoas que nunca tinham tido uma fotografia delas próprias como imensas velhas e crianças que conheci na Índia, ou uma família que conheci a caminho de Darvaza, no Turquemenistão. Bangladesh, Índia, Malawi, Cuba ou Irão são alguns dos destinos onde já troquei fotografias por fotografias. Uma relação que me deixa bastante mais satisfeita. São estes pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor.

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2. Fred, a criança que conheci no Tarrafal

Fred é um miúdo de cerca de 7 anos, pelo menos pareceu-me, que conheci numa viagem a Cabo Verde, na ilha de Santiago. Encontrou-me, sim, porque as crianças encontram-nos, quase pelos olhos dentro quando passeava no Campo de Concentração do Tarrafal, que em tempos recebeu presos políticos africanos e portugueses que lutavam pela independência das colónias. Fred era descomplexado, atrevido, como só as crianças sabem ser, e muito divertido. Abordou-me sem complexos, e começou a conversar.

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Fred recebeu-nos no campo de concentração e tinha uma bola furada e poída de tanto uso. Brincava com ela todos os dias e já estava completamente estragada. A sua irmã veio a correr quando nos viu. Fred falava bem português e depois de eu lhe perguntar quantos irmãos tinha, começou a pensar e a contar pelos dedos. Parou nos seis, dizendo que não tinha bem a certeza. Sorri e abracei-o. Aquela inocência era deliciosa.

– Não tens uma bola para mim? – Perguntou-me

Não tinha. A verdade é que não viajo com bolas. Mas, não sei porquê, senti-me triste por não ter uma. Queria muito tê-la ali para lha poder dar. Só tinha canetas e foi o que lhe dei. Gostou mas não era bem aquilo que queria. Encolheu os ombros.

– Um dia volto e dou-te uma bola. Pode ser?

Tinha-lhe feito uma promessa sem perceber. Prometi-lhe que um dia voltava e lhe dava uma bola nova para que ele pudesse jogar. Perguntou-me imediatamente:

– Quando vens?

– Não sei, um dia destes. – Respondi-lhe.

A irmã, sorriu e disse:

– E uma boneca?

– Sim, também trago uma boneca para ti, respondi.

Nesse momento, senti os meus olhos raiarem de lágrimas. Não porque aquelas crianças precisassem muito daqueles brinquedos ou porque fossem extremamente pobres (algo que eram porque brincavam descalços nas terras quentes). Mas as lágrimas escondidas nos meus olhos deviam-se ao facto de lhes ter feito uma promessa que não sabia se poderia cumprir. Pior do que isso, depois de visitar o Campo de Concentração fui para a praia do Tarrafal e a minha ideia era comprar lá uma bola e, no regresso, parar no Campo de Concentração e dá-la ao Fred. Mas esqueci-me. Só quando o autocarro passou no regresso me lembrei. Senti-me a pessoa mais egoísta do mundo. E martirizei-me interiormente por dentro durante algum tempo.

Precisava de fazer as pazes com o Fred e comigo. E esta ideia atormentou-me durante muito tempo. Pensei durante meses como podia fazer para lhe fazer chegar aquela bola e a boneca para a sua irmã, criança que nunca cheguei a saber o nome.

Um dia a resposta chegou. A Beatriz Dias, uma amiga que conheci através da Gap Year Portugal, foi fazer uma missão de voluntariado para Cabo Verde, nomeadamente para a ilha do Santiago. Quando soube, enviei-lhe uma mensagem pedindo-lhe para entregar umas prendas ao Fred e à irmã. A Beatriz já estava em Santiago por isso comprei uma bola de futebol e uma boneca em Portugal, embalei-a cuidadosamente e enviei-a pelo correio. A Beatriz recebeu-a na sua casa e tratou de encontrar o Fred com todas as dicas que lhe dei.

A Beatriz escreveu-me e mandou fotografias uns dias depois:

“Carla, já entreguei. O menino ficou radiante e prometeu partilhar com os restantes!! 😊 ”

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O meu coração ficou cheio. Cheio de alegria e de sentido de dever comprido. Senti-me outra vez melhor, mais de um ano depois da minha promessa. Esta história motivou-me a ajudou-me a perceber que são estes pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor. Pelo menos o meu mundo.

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3. O dia em que as nossas mochilas foram cheias de material escolar para o Quénia

Há muito tempo que tínhamos vontade de tornar as nossas viagens mais humanas e humanitárias. Nunca pensamos muito nisso a sério porque não tínhamos grande tempo nas viagens, viajamos sempre a “correr” para aproveitar todos os dias disponíveis ao máximo. Esta sede de conhecer o mundo tem este efeito sobre nós! No entanto, um dia fez-se um clique! Conhecemos o projecto do Há ir e Voltar, de uma jovem de Amarante chamada Diana e que estava a construir uma escola na maior favela de África, Kibera, na cidade de Nairobi. Entrei em contacto com ela e perguntei-lhe: como posso ajudar? Vou para o Quénia em Dezembro, precisas que leve algo? Ela fez-me uma lista e eu decidi que não ia entrar nisto sozinha. Partilhei o projecto com os meus alunos da altura e juntos definimos uma estratégia para ajudar aquelas crianças. Eu e o Rui só tínhamos duas mochilas por isso resolvemos que iam vazias para o Quénia. Levaríamos apenas a roupa do corpo e as mochilas iam ser cheias de material escolar. Os meus alunos ficaram ainda mais entusiasmados do que eu. Tive que impor um limite ao material. Ter mais de 100 alunos dá muito material. Assim, cada um só podia trazer uma escova e pasta dos dentes, um caderno ou livro e um exemplar de material escolar como canetas, afias, etc. Mesmo assim as mochilas ficaram completamente cheias. Levamos excesso de bagagem, mas como era pouco a agência compreendeu. Quando chegamos a Nairobi apanhamos um táxi para Kibera.

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A Diana não estava lá mas estava a Berta, uma professora queniana que nos recebeu de braços abertos, nos mostrou a favela, a nova e a velha escola e as crianças e famílias. Foi uma experiência, daquelas que nos enchem o coração e a alma, mas ao mesmo tempo que nos atiram ao tapete. Contamos esta história neste artigo. Nesse dia, sentimos que estávamos a fazer algo bom e bonito e que, embora quase nada, podia tornar o mundo um bocadinho melhor. No entanto, ficamos ainda insatisfeitos. Quando regressei a Portugal mostrei os vídeos e as fotografias aos meus alunos e conseguimos, juntos, fazer uma campanha na escola para apoiar a nova escola, juntando cerca de 1500€ para poder pagar às professoras da escola durante um ano. Eu, mas principalmente os meus alunos, foram incansáveis e conseguimos recolher 1€ por cada aluno da escola. Foi fantástico. Podia não ser muito dinheiro, mas são estes pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor, eu pelo menos acredito que sim.

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4. O dia em que me sentei nas estepes da Mongólia e ensinei uma criança 

Corria o ano de 2009 e depois de viajar pela Índia e pela América do Sul cheia de coisas para levar para os miúdos, decidi ir para a Mongólia com brinquedos e material escolar. O Rui chamou-me louca. Eu sei que ele tinha razão. Passei a parte da viagem na Rússia e o Transiberiano a carregar material que não precisava. É por esta e outras razões que a minha mochila anda sempre enorme! Bem, mas quando cheguei à Mongólia tinha tudo o que queria.

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Saímos numa viagem de nove dias pelas estepes e deserto do Gobi e durante essa viagem ficamos a dormir com as comunidades locais, em famílias e de forma muito tradicional. Na primeira família com que fiquei, havia uma menina, que não devia ter mais do que cinco anos, de sorriso fácil e inocente. Numa das tardes puxei de um livro de colorir com palavras em inglês e em lápis de cor e sentámo-nos encostadas à ger da família. Passámos a tarde a pintar, aprendendo inglês e ao mesmo tempo, rindo muito. Não sei se ela se lembrará do que aprendeu naquele dia mas eu lembro-me e isso torna o meu mundo muito melhor.

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Nos dias seguintes vivemos com famílias criadoras de camelos, nómadas, e passávamos a noite a jogar frisbee que tínhamos levado de Portugal e que deixamos de presente à criançada.

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No deserto de Gobi ficamos com uma família nómada criadora de cabras e enquanto os pais ensinavam o Rui a ordenhar as cabras eu deliciava-me a brincar com os brinquedos que tinha levado para os bebés. Eles estavam radiantes e eu também. Ao fim dos nove dias a mochila ficou vazia mas a minha alma estava cheia. Pode parecer pouco, e é. Mas a realidade é que acredito que são o conjunto destes pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor. Não só pelo que eles foram, mas pelo exemplo que podem ser.

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Tenho mais histórias para vos contar, que são pequenos gestos que podem fazer o mundo melhor, mas vão ter que esperar por mais tempo para as escrever.

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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6 Comentários

  1. Tão bom Carla! Não é pouco, nada pouco. Se todos déssemos tanto como tu, seria muito. Obrigada pela partilha!

    1. Carla Mota diz: Responder

      Muito obrigada, Sofia. <3 bjinhos

  2. Rui Duarte diz: Responder

    Obrigado Carla pelo teu testemunho. Realmente, sinto-me ás vezes um tanto incomodado, pelo facto de ir aos locais, disfrutar da experiência, e não retribuir com alguma coisa. Dei comigo a distribuir pacotes de lenços de papel, aos idosos que me abordavam em Havana, a tentar vender amedoins e jornais do estado (diziam eles que era um bom recuerdo de Cuba), na tentativa de trazerem algum dinheiro extra lá para casa. Os pacotes de lenços de papel intactos (cerca de 20 ou 30 un.), tinham sido aquilo que eu tinha ainda conseguido colocar na bagagem de cabine, e que pensei que eventualmente pudesse fazer falta ao nosso grupo (4 pax). Afinal, acabaram por ser distribuidos pelos idosos de Havana, sugerindo-lhes que poderiam também vender aquilo aos turistas. Curiosamente, alguns até afirmaram, que levariam para casa, pois também fazia falta lá em casa.

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada pela partilha. Viajar dá-me algumas lutas interiores que tento vencer.

  3. Obrigada por partilhares estas histórias, são sobretudo humanas e confesso que por vezes me emocionei ao lê-las. Espero ansiosamente as outras histórias que ficam por contar e continua a fazer deste mundo, um mundo melhor!

    1. Carla Mota diz: Responder

      Muito obrigada, Telma. de coração. <3

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