Os encantos da Linha do Douro, uma linha férrea centenária | Portugal

Linha do Douro

Quando se percorre a Linha do Douro e se olha para o rio e tudo o que o rodeia, aquilo que se vê depende de como se olha, mas principalmente dos olhos que vêem.

Um amante dos comboios vê a Linha do Douro como, indiscutivelmente, uma das linhas ferroviárias mais bonitas do mundo, com estações ancoradas nas margens do Douro, com edifícios revestidos a azulejos, apeadeiros perdidos, túneis misteriosos e pontes centenárias. De bitola ibérica, tem início no ambiente urbano da cidade do Porto e sua área metropolitana, atravessa os concelhos de Ermesinde, Penafiel, e Marco de Canaveses, passando para um ambiente mais rural e aproximando-se do Douro, com o qual contacta entre as estações de Pala e Mosteirô. A partir daí, a linha e o rio são um só, quase até à fronteira com Espanha.

Os encantos da Linha do Douro, uma linha férrea centenária | Portugal

Um admirador da Engenharia vê a Linha do Douro como uma obra titânica resultante do esforço humano, construída entre 1875 e 1887, numa época em que quase tudo foi feito à força de mãos e dinamite. Numa extensão que chegou a ter cerca de duzentos quilómetros, até Barca d’Alva e com ligação à rede espanhola, em La Fuente de San Esteban, a linha do Douro foi construída numa paisagem desafiadora e implacável. O solo rochoso e encostas inclinadas tiveram de ser domadas, pelo menos até certo ponto, para que esta linha nascesse. Mas a entrada na CEE e a prioridade dada às ligações rodoviárias viriam a ter consequências para a linha quase centenária. A ligação internacional encerraria em 1985, e o troço entre Pocinho e Barca d’Alva veria o seu último comboio em 1988, assumindo a linha o seu trajecto actual. Quanto a ramais famosos, a Linha do Sabor, de via estreita e inaugurada em 1911, ligava a Estação do Pocinho à estação de Duas Igrejas, nos arredores de Miranda do Douro, mas foi também encerrada em 1988, enquanto a espectacular Linha do Tua ligou outrora a estação do Tua a Bragança, estando hoje reduzida a um serviço de metro entre Carvalhais (Mirandela) e Cachão, sendo que a maravilhosa paisagem do vale do Rio Tua, principalmente junto à sua foz, se encontra ameaçada pela construção quase finalizada da Barragem do Tua.

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Um estudioso da História vê a paisagem do Douro Vinhateiro como testemunha das íntimas ligações de Portugal com o seu mais velho aliado, a Inglaterra, sendo que o Tratado de Methuen, um acordo comercial celebrado entre Inglaterra e Portugal no ano de 1703, levou grande parte dos produtores agrícolas a utilizarem as suas terras cultiváveis para a produção de vinho e sua exportação para Inglaterra. Mais tarde, as famílias inglesas começaram a tomar conta do negócio, comprando os terrenos e construindo as Quintas de produção de vinho que ainda hoje dominam o Douro.

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Um apreciador da Geografia vê a forma sinuosa como o Douro cortou o vale por onde corre, e como o Homem transformou a paisagem dominada pelo xisto e granito em algo que combina o útil ao agradável, um cenário prodigioso para os olhos e que, ao mesmo tempo, nos dá um dos produtos mais apreciados pelo palato, tanto de portugueses, como de estrangeiros em todo o mundo, o Vinho do Porto e os vinhos de mesa do Douro. Vê também como a linha foi desde o seu nascimento, e continua hoje a ser, um elo de ligação fundamental entre o litoral desenvolvido e povoado, e um interior despovoado, e tantas vezes esquecido, para além de um tesouro de potencial turístico difícil de igualar.

Os encantos da Linha do Douro, uma linha férrea centenária | Portugal

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Quando eu olho para o Douro a partir do comboio, vejo-o de todas estas formas. Mas, acima de tudo, a linha ferroviária do Douro tem, para mim, um profundo significado pessoal, fazendo parte da história da minha vida. Quando criança e jovem, percorri inúmeras vezes os carris que me levavam da lindíssima Estação de São Bento, no Porto, até, aquela que então me parecia remota, Estação do Tua, em Terras de Ansiães, bem no centro da região transmontana e da Região Demarcada do Douro. Era sempre um prazer gozar as férias escolares em Trás-os-Montes e o contraste com a cidade do Porto, no que toca a pessoas, paisagens, cores, cheiros e clima, era tal que sentia que viajava para um mundo completamente diferente. E um dos pontos altos dessas férias era a viagem de ida e de volta, usando a Linha do Douro. Lembro-me vivamente das máquinas a diesel (já não sou do tempo das máquinas a vapor), das carruagens com bancos colectivos e janelas que abriam, permitindo fazer a viagem quase toda com a cabeça de fora. Sentir o vento na cara, cheirar o fumo libertada pela máquina, ouvir os sinais das cancelas, apreciar o movimento nas estações, as vendedoras de rebuçados, o carregar e descarregar das bagagens, o embalar das rodas nos carris. Tudo isso me ficou marcado na memória. Mas, acima de tudo, lembro-me da beleza extraordinária do rio Douro e das suas encostas cheias de socalcos e vinhas, das pontes que o comboio cruzava, do escuro das carruagens nos túneis, dos momentos em que os carris pareciam tocar a água do rio.

Os encantos da Linha do Douro, uma linha férrea centenária | Portugal

Há muito tempo que já não fazia a viagem pela Linha do Douro. Mas recentemente percorri o troço entre o Pinhão, um pouco antes do Tua, até ao Pocinho, e recordei tudo aquilo que me fascinava no Douro. Começando no coração do Douro Vinhateiro, subi o Douro até ao Tua e segui mais além. Aí vê-se um Douro menos turístico, mais selvagem, mas logo se chega à Estação do Vesúvio e os vinhedos dominam novamente a paisagem. As máquinas diesel deram lugares a automotoras alugadas a Espanha, e as janelas já não abrem, mas, por outro lado, vêem-se turistas, muitos turistas, vindos de todo o país e do mundo, para conhecerem o Douro e a sua linha ferroviária. Descobri que os comboios da minha infância já não correm a Linha do Douro, descobri que os meus olhos também já não são os mesmos, mas descobri também que a linha do Douro continua a ser tão, ou mais, cativante quanto o era no passado. Espero que assim continue durante muito tempo e que sejam muitos a viver e partilhar essa magnífica experiência.

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Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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5 Comentários

  1. Alessandra diz: Responder

    Olá Rui, parabéns pelo blog, seus roteiros são uma inspiração!
    Tenho uma dúvida em relação a Linha do Douro: existe diferença de percurso entre o comboio histórico e o normal?
    Obrigada!
    Alessandra

  2. Descobri o seu blogue e estou a gostar muito. E quando encontrei este post gostei ainda mais. No meu blog, VEM COMIGO PARA A RUA, também já tive o prazer de falar deste tesouro do nosso país.

    1. Rui Pinto diz: Responder

      Obrigado, Teresa! É bom ter feedback dos leitores.

  3. Belíssimas fotos!

    1. Rui Pinto diz: Responder

      Obrigado, Marta! 🙂

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