Dias 134 a 136 – Preparar a expedição ao RIO SEPIK na Papua Nova Guiné

Dias 134 a 136 - Preparar a expedição ao RIO SEPIK na Papua Nova Guiné

O rio Sepik é o mais longo da ilha da Nova Guiné, com cerca de 1100km de comprimento, e é uma poderosa força da natureza, com uma bacia hidrográfica quase do tamanho de Portugal continental, considerada a maior área de drenagem de água doce não contaminada na região Ásia-Pacífico. Nasce na cordilheira Victor Emanuel, nas montanhas centrais da Papua Nova Guiné, faz uma breve incursão pelo território da Papua Indonésia, e depois volta a entrar nas províncias de Sandaun e Sepik leste da Papua Nova Guiné (PNG), iniciando a sua longa descida, serpenteando até desembocar no Mar de Bismarck.

Veja aqui como tratar do Visto para a Papua Nova Guiné

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O terreno que atravessa é caracterizado por montanhas e planícies, dominado por floresta equatorial, e pontuado por aldeias cuja população pouco contacto tem com o mundo exterior e com um estilo de vida que quase não se alterou nos últimos milhares de anos. O curso do rio Sepik é tradicionalmente dividido em três regiões, com características geográficas e culturais diferentes. A região do Alto Sepik vai desde a nascente (e, em particular desde a fronteira com a Indonésia) até à localidade de Ambunti; daí até à localidade de Tambanum, corresponde a região do Médio Sepik, e depois o Baixo Sepik, até à sua foz.

O Médio Sepik é a região mais acessível do rio, e a mais culturalmente rica. Pode aí aceder-se ao rio Sepik a partir da cidade de Wewak, com ligações rodoviárias às localidades de Pagwi e Timbunke, nas margens do Sepik. Esta região, em especial a jusante de Pagwi, é a mais turística do rio Sepik, com várias aldeias que são visitadas principalmente no mês de Agosto, quando ocorrem festivais em várias delas e quando é mais fácil ver demonstrações artísticas e culturais. O Baixo Sepik é pouco visitado e é menos rico em termos de tradições tribais.

O Alto Sepik é uma região mais selvagem, menos populoso e com menor visibilidade de tradições, mas com floresta equatorial (quase) intocada, aldeias genuínas e quase isoladas do mundo e populações pouquíssimo habituadas a ver estrangeiros de pele branca. Explorar esta região era o nosso principal objectivo ao visitar a PNG na nossa volta ao mundo.

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Planificar a expedição do Rio Sepik

Com quase um ano de antecedência começámos a estabelecer contactos para preparar uma expedição de descida do rio Sepik, com o objectivo de explorar as regiões do Alto e Médio Sepik. Como nós vínhamos da Indonésia, e cruzaríamos para a PNG no seu extremo leste, estávamos em posição privilegiada para aceder à região do Alto Sepik. No entanto, numa zona onde a floresta equatorial é rainha e senhora do terreno, nenhuma deslocação é fácil. Além disso, as populações falam uma série de línguas locais, por vezes diferentes de aldeia para aldeia, e exibem características tribais também distintas, e por vezes o choque cultural pode ser uma questão delicada. Para lidar com essa realidade, era indispensável sermos acompanhados por um guia local, que conhecesse o terreno, as pessoas e a cultura.

Sendo assim, depois de muita pesquisa e troca de e-mails, escolhemos os serviços de Joseph Kone, um guia natural da região de Ambunti. O plano foi elaborado em conjunto e, mesmo para Joseph, era uma novidade, pois os viajantes costumam visitar apenas a região do Médio Sepik. O plano era encontrarmo-nos em Vanimo, fazer a estrada (construída pelas companhias madeireiras) para sul até à localidade de Green River, e daí descer de barco, primeiro num afluente, e depois pelo rio Sepik até à região de Pagwi. Dali poderíamos regressar de carro até à cidade de Wewak. Tínhamos, no total, nove dias para fazer concretizar este plano, um desafio que nos levaria pela floresta virgem equatorial da Papua Nova Guiné e em contacto com povoações e populações quase desligadas do mundo exterior. Joseph e nós estávamos entusiasmados, pois éramos os primeiros turistas a fazer este percurso. A grande aventura no Sepik esperava-nos…

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Passagem de fronteira (Wutung)

Cruzar da Indonésia para a Papua Nova Guiné foi, surpreendentemente, fácil e directo. Arranjámos um carro particular no nosso alojamento em Jayapura, Guesthouse Galpera, que nos levou até à fronteira num percurso de menos de duas horas, por uma estrada com muito pouco trânsito. Na fronteira, do lado indonésio, aproveitámos para trocar as rupias indonésias que nos tinham sobrado para kinas, a moeda da PNG. O senhor do carro ainda nos levou na curta distância entre os dois postos fronteiriços e depois ficámos por nossa conta.

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Chovia forte quando chegámos ao balcão da entrada na PNG. Tínhamos comprado um visto online de entrada na PNG, mas a fronteira não tinha ligação computorizada, apenas dois homens ao balcão, com um telefone. Depois de uma breve espera, o nosso visto foi confirmado e os nossos passaportes foram carimbados. Dali, passámos para o exterior onde tivemos de esperar, juntamente com locais, por um transporte que nos levaria até à cidade de Vanimo. Na PNG os transportes “públicos” são designados por PMVs (Public Motor Vehicles). As pessoas são simpáticas mas interagem pouco connosco. Depois de passarmos pelo controle fronteiriço (onde ficámos a saber que éramos os primeiros portugueses a passa por ali nos últimos tempos), a viagem até Vanimo foi rápida, atravessando alguns ribeiros e sempre pelo meio da floresta, demorando cerca de uma hora.

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Em Vanimo

Vanimo é uma pequena localidade, mas um grande centro na região, com alguns hotéis (confortáveis e seguros), guesthouses (pouco fidedignas), bancos, supermercados, e mercado tradicional, onde a população local vende os seus produtos agrícolas ou de artesanato. Depois de nos instalarmos no Sundaun Surf Hotel, saímos para fazer algumas compras e para levantarmos dinheiro.

NOTA: O ideal, para evitar taxas bancárias, é fazer como nós e usar o cartão Revolut. Com este cartão até 200€/mês não paga taxas, e mais de 200€/mês paga taxas mas são mais baixas do que no banco (no nosso caso mais baixas que no BPI e na CGD). Se ainda não tem o seu cartão Revolut pode pedi-lo aqui. Ainda assim, sempre que levantar dinheiro na PNG vai pagar 15 Kinas de taxas dos bancos da Papua.

Veja aqui o nosso artigo sobre como pedir o cartão Revolut e como escapar ao pagamento do envio.

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Depois regressámos ao hotel e contactámos o nosso guia, Joseph. Combinámos que ele iria ter connosco ao hotel. E assim foi. Joseph, com quem trocávamos emails há meses, apareceu à nossa porta e conversámos sobre os dias seguintes. Joseph tinha subido o rio e tinha chegado a Vanimo no dia anterior. Agora precisava de comprar as últimas provisões para a expedição, por isso fizemos um adiantamento do custo total. Combinámos que no dia seguinte iríamos com ele ao centro de Vanimo e que iríamos também procurar uma alternativa de alojamento. Tudo parecia estar bem encaminhado.

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No dia seguinte, procurámos várias alternativas, mas as guesthouses que vimos, ou nos pareciam pouco seguras, ou não tinham electricidade, ou a rede de telemóvel (necessária para termos acesso à internet) era demasiado fraca. Além disso, a última que vimos era longe do centro de Vanimo e a diferença de preço não era muita. Resolvemos regressar ao nosso alojamento e ficar no mesmo quarto. Depois saímos com Joseph para levantar mais dinheiro e fazer mais compras.

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Dúvidas e receios sobre o rio Sepik

Acabámos por fazer algo que não se deve fazer na PNG, que foi pagar a totalidade da expedição adiantado. Joseph precisava de comprar combustível e pagar o transporte para Green River, por isso concordámos em dar o dinheiro todo antes de começarmos a expedição. Era um risco que tínhamos de correr. Ficou combinado que Joseph iria tratar do transporte (não há PMVs para Green River, por isso é necessário arranjar um transporte privado) e iria buscar-nos ao nosso hotel. Ficou também prometido que nos diria por telefone a que hora é que seria. Regressámos ao nosso hotel e aproveitámos para trabalhar o resto do dia, e depois jantámos no restaurante do hotel (tal como tínhamos feito no dia anterior).

Mas a noite chegou e Joseph não disse nada. Resolvemos mandar uma sms e, depois de não termos resposta, tentámos ligar. No entanto, o Joseph não atendia o telefone, mesmo após várias tentativas. Comecámos a ficar preocupados. A PNG é famosa pelos seus “artistas” de esquemas de fraude e nós só conhecíamos Joseph virtualmente e só o tínhamos conhecido em pessoa havia 24 horas. Nada o fazia prever, mas também nada impedia que Joseph simplesmente desaparecesse com o nosso dinheiro e ficássemos sem a expedição. A Carla começou logo a elaborar planos B mentalmente… Finalmente, Joseph atendeu o telefone. Não se ouvia muito bem, mas aparentemente estava tudo tratado e Joseph viria buscar-nos, juntamente com um grupo de homens (que nos iriam acompanhar na expedição), por volta do meio-dia. Restava-nos esperar…

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E esperámos! Fizemos o check-out do quarto por volta das 11.00h, mas ao meio-dia o Joseph ainda não tinha aparecido… Resolvemos comer qualquer coisa no restaurante do hotel, uma vez que não sabíamos como ia ser o resto do dia. Depois de comermos, ainda esperámos um pouco e já estávamos a ficar apreensivos, quando o Joseph telefonou e disse que estava a caminho. Finalmente, já passava das 13.00h quando uma pick up de caixa aberta entrou no recinto do hotel. Na parte de trás, vinha Joseph, acompanhado de meia dúzia de homens barbudos, de aspecto rude e pouco simpático. “É este o vosso transporte?”, perguntou a menina incrédula da recepção. Pusemos as mochilas atrás e preparávamo-nos para subir quando nos disseram para ir para a frente, junto do motorista. Na despedida, a menina do hotel disse, preocupada, para a Carla: “Take care, ok?”.

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Depois de sairmos do nosso hotel, parámos logo de seguida num mecânico no centro da cidade. Encheu-se o tanque de combustível, e as mercadorias (incluindo as nossas mochilas) foram embrulhadas num tolde, pois poderíamos apanhar chuva no caminho em direcção a Green River. Sabíamos que tínhamos pela frente pelo menos 5 horas de caminho e não queríamos chegar já de noite, mas isso parecia inevitável, uma vez que já se aproximavam as 15.00h. Estávamos há pouco tempo na PNG mas já tínhamos aprendido que tudo se desenrola a um ritmo muito próprio, lento ao olhar ocidental, mas de acordo com o ritmo de vida local.

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Ainda parámos em dois locais para o Joseph comprar pão de forma e finalmente partimos de Vanimo quase às 15.30h. Era certo que iríamos fazer parte do percurso já de noite. Era assim o início de uma grande aventura, a nossa expedição no rio Sepik.

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Quanto custa uma expedição no Rio Sepik

O Rio Sepik é a zona mais cara da Papua Nova Guiné exigindo para o visitar imensa burocracia, contactos com lideres tribais e locais, aluguer de transporte privado (porque não há transporte público em muitos locais), abastecimento de mantimentos, etc. Outra das coisas que encarece imenso uma expedição ao Sepik é o preço do combustível pois este tem que percorrer um longo caminho de barco, ao longo do rio, para estar disponível. Um litro de gasolina no Alto Sepik custa mais de 2€. Isso faz com que viajar no Sepik seja caro.

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Quando decidimos abraçar esta aventura entramos em contacto com agências locais e até internacionais, tentando ver qual a melhor opção para conhecer o rio. A maioria das agências só operava no Baixo Sepik e no Meio Sepik e pediram-nos valores que variavam entre os 8000 USD/pessoa e os 4600 USD/pessoa, para uma semana. Depois de negociar muito com uma agência local, o preço mais barato que conseguimos foi de cerca de 1000 USD/pessoa mas para apenas 4 dias, sendo que dois eram de viagem de Wewak para o Sepik e regresso a Wewak. Quase desmotivamos com estes valores. Paralelo a estes contactos, entramos em contacto por email com alguns guias freelancers locais, com os quais mantivemos contacto regular ao longo de meses, especialmente com dois deles. Tentamos sempre baixar o preço e construir uma viagem de exploração. Os valores variavam entre os 3000€ e os 1000€ para os dois, para cerca de 6 dias.

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Ao fim de vários meses de negociações optamos por viajar com o Joseph e pagamos-lhe inicialmente 3500 kinas, o equivalente a aproximadamente 1000€ para os dois. No final, devido ao preço do combustível no Alto Sepik e ao preço do transporte privado de Vanimo para GreenRiver (que custou 1000 kinas e que o Joseph não tinha contabilizado porque achava que havia PMV, transporte público), demos mais 1050 kinas ao Joseph, para fazer frente a estas despesas extra. No final, os 8 dias de expedição acabaram por nos ficar por 4550 kinas (cerca de 1200€), valor que o Joseph hoje considera impossível de repetir face aos custos que ele percebeu existirem. Para fazer face ao orçamento limitado que o Joseph e nós tínhamos, cortamos tudo ao máximo na viagem, nomeadamente comida e alojamento local (razão pela qual ficamos a dormir dois dias em casa do filho do Joseph), e aproveitávamos sempre as correntes e as capturas dos meandros para encortar caminho. Foi uma expedição memorável mas cujo preço real quase deve dobrar o preço que pagamos. É também por isso que temos que agradecer imenso ao Joseph e aos rapazes que nos acompanharam estes dias.

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Contactos para a expedição no rio Sepik

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Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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2 Comentários

  1. Rui Fernandes diz: Responder

    Que aventura e maravilhosa descrição, a qual associada ao acompanhamento das Stories acabam por dar uma imagem do vosso dia a dia.

    1. Carla Mota diz: Responder

      Muito obrigada, Rui. <3

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