Dia 42 – Apaixonados pelos modos de vida das estepes da Mongólia 🇲🇳 , de Khovd a Buutsagaan | Crónicas do Rally Mongol

Dia 42 – Apaixonados pelos modos de vida das estepes da Mongólia 🇲🇳 , de Khovd a Buutsagaan | Crónicas do Rally Mongol

Neste dia, o nosso objectivo era percorrer o mais que conseguíssemos das estepes da Mongólia, pois queríamos chegar à cidade de Bayankhongor em dois dias. Até à localidade de Altai, a estrada foi boa, asfaltada, de óptima qualidade. É uma estrada nova, e vê-se que alguns pormenores ainda não estão ultimados, mas pareceu-nos uma maravilha. Nós até comentamos que nem pareciam as mesmas estepes da Mongólia que tínhamos na memória

Nota-se um esforço do governo por construir vias de comunicação novas e mais rápidas, algo que é essencial para a melhoria do nível de vida da sua população. Por um lado retira um pouco da magia de percorrer trilhos em terra batida, areia, lama ou terreno pedregoso. Por outro lado, a segurança e rapidez das travessias é um factor fundamental para todos aqueles que querem deslocar-se ou viajar dentro da Mongólia.

A paisagem maravilhosa das estepes da Mongólia continuou a acompanhar-nos, e parámos um pouco para admirar um rebanho de ovelhas e cabras. Amesterdão (Agostinho) e Ushuaia (Carla) saíram da Burra e resolveram fazer de pastores e tentaram juntar os animais. Claro que já se sabe quem saiu da situação por ser mais rápido!

Logo a seguir, apareceram os verdadeiros pastores e vinham acompanhados de um carro com pessoas que pretendiam comprar uma ovelha. Assistimos então, em primeira fila, às tentativas de captura por laço, até que um dos pastores conseguiu o propósito fazendo uma placagem à pobre ovelha. É assim a vida nas estepes da Mongólia…

Chegados a Altai, escolhemos um restaurante para almoçar e acertámos em cheio! O restaurante era chinês e tinha muitos e apetitosos pratos. Escolhemos um com carne de vaca ou de cordeiro em pedaços acompanhado de arroz frito e salada. Delicioso! Mas a viagem pelas estepes da Mongólia tinha de prosseguir…

Estávamos convencidos que a estrada seria asfaltada até à localidade de Buutsagaan, onde pretendíamos passar a noite, mas tal acabou por não acontecer. Pouco mais de 100 km depois de termos saído de Altai, a estrada asfaltada acabou abruptamente e deu lugar a terra batida. A noite estava a cair, e o céu estava muito carregado de nuvens escuras. Durante o dia observámos a chuva a cair em lugares distantes, para lá das montanhas que víamos no horizonte. No entanto, agora, começava a chover no sítio onde estávamos.

A lição que tínhamos aprendido no dia anterior começou a ressoar nas nossas cabeças. As estradas da Mongólia são famosas por se transformarem em autênticos lamaçais em caso de chuva, e não queríamos ficar atolados de noite, sob chuva, e sem ajuda imediata. Tudo isto passava na cabeça de todos os Carapaus, mas ninguém exprimia em palavras. Apesar do silêncio na Burra, sentia-se a tensão no ar.

De repente, avistámos uma paragem de camiões, com três ou quatro gers, e vários camiões estacionados. Quase em uníssono, resolvemos parar para perguntar se podíamos ficar ali a pernoitar. A família responsável pelo negócio (mini-mercado, restaurante e reparação de camiões) recebeu-nos com simpatia e umas chávenas do tradicional suutei tsai, chá salgado com leite.

O preço que nos pediam era muito em conta e, mais do que isso, aquele lugar pareceu-nos providencial naquela situação. A chuva intensificava-se e os relâmpagos iluminavam o horizonte. Continuar naquelas circunstâncias seria mais que aventureiro, seria perigoso, para nós e para a Burra. No escuro, com faróis fracos, sem conhecer o caminho, seria muito fácil ficar atolado na lama ou preso num buraco. Sendo assim, decidimos passar a noite na ger à beira da estrada.

Ainda conseguimos assistir a um pôr-do-sol espectacular, com a planura das estepes da Mongólia diante de nós, e as gers iluminadas por um laranja espantoso, e depois instalámo-nos na ger, que suspeitamos que fosse da família, mas que agora seria nossa por uma noite.

O filho mais velho, Bat, organizou a ger, e depois arranjámos um jantar caseiro com tostas com queijo, mel com frutos secos, acompanhado de vinho e vodka, tudo rematado por uma sessão de narguilé.

Lá fora, o frio instalava-se mas a chuva tinha parado. As nuvens começavam a dissipar-se, mas ainda se ouviam relâmpagos à distância. O céu estrelado começou a mostrar-se em toda a sua magnificência. Dentro da ger, a conversa continuava animada e acabou por ser uma das noites mais memoráveis do Rally Mongol.

Antes de nos deitarmos, vim cá fora. O céu estava pontilhado por milhares de estrelas e a Ursa Maior encontrava-se por cima das gers. E ali compreendi porque a antiga religião praticada na Mongólia, antes da propagação das grandes religiões, se baseava na vida em harmonia com o mundo, sustentado pelas divindades do Eterno Céu Azul e Fértil Mãe-Terra. A Mongólia é, sem dúvida, a filha dessas divindades e continua, hoje como então, a maravilhar quem a contempla.

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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2 Comentários

  1. Xiii…. já tinha ouvido falar nas estradas novas das estepes mongóis, mas ainda não as tinha visto em imagens. Parece outro país… :)

    1. Carla Mota diz: Responder

      Até corta o coração. Mas a Mongólia está a mudar. Muito e rápido. Ulan Batar parace a China. :(

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