GUEIXAS, compreender a tradição numa viagem ao Japão secular

GUEIXAS, compreender a tradição numa viagem ao Japão secular

A figura e o papel das gueixas na sociedade japonesa são impossíveis de ser compreendidos em plenitude no mundo ocidental. Podemos até tentar perceber o que são, como agem, porque existem, mas na realidade, nunca compreenderemos verdadeiramente o papel cultural que tiveram no Japão e o papel que ainda hoje desempenha.

A primeira dificuldade começa quando tentamos explicar o que é uma gueixa. É impossível fazê-lo de forma simples, já que isso nos levaria para um conjunto de estereótipos e banalizações que estão muito longe de abarcar a complexidade desta figura cultural. Gueixa significa “pessoa que vive das artes’ mas uma gueixa é muito mais do que isso. Para perceber o que são é necessário saber como são educadas, como vivem e o que representam as geikos, as gueixas de Quioto.

A formação de uma gueixa começa quando a jovem tem tenra idade e é escolhida como tendo potencial para ser uma excelente artista, na música, na dança e na representação. Para além disso, deve ser elegante e dotada de uma beleza invulgar. Ser escolhida como uma aprendiza de gueixa é um privilégio na cultura japonesa. Muitas jovens sonham em tornar-se gueixas, mas não basta serem bonitas, há que ser escolhidas e para isso é preciso muito mais do que beleza. Se em tempos de crise, as famílias vendiam as suas filhas para que fossem educadas numa okiya, para serem gueixas, na actualidade, são as próprias jovens que escolhem este caminho, tal como escolhem qualquer profissão. Devem fazê-lo depois dos dezasseis anos, completando no mínimo cinco anos de formação. Consideradas na cultura japonesa como guardiãs das artes tradicionais, as gueixas são alvo de admiração e respeito. A sua presença em eventos e encontros dá status ao lugar e às pessoas com quem se relacionam.

As okiyas são estabelecimentos em que uma antiga gueixa, a okasan, adopta jovens raparigas e investe na sua educação. É um investimento que só verá retorno a longo prazo, quando a jovem gueixa iniciar a sua actividade. Nem todas as raparigas acolhidas numa okiya se transformam em gueixas por isso a selecção das jovens que fazem parte das okiyas é altamente criteriosa. A educação de uma gueixa é extremamente cara, podendo atingir várias centenas de milhares de dólares, e é suportada pela okyia. Só mais tarde, quando as jovens se tornam gueixas, é que começam a amortizar o investimento que a okyia fez. Isto significa que os rendimentos dos primeiros anos de trabalho de uma gueixa sejam para pagar à okyia. Em Quioto existem cinco hanamachis, áreas tradicionais da cidade, onde existem várias okiyas e ochayas, casas de chá.

GUEIXAS, compreender a tradição numa viagem ao Japão secular

A educação de uma gueixa é o segredo do seu sucesso. As gueixas devem aprender a tocar vários instrumentos, sendo o shamisen o mais emblemático da cultura japonesa, a cantar, a dançar, a representar e a manter uma conversa culturalmente informada. Não basta dançar medianamente. As gueixas têm que ser exímias bailarinas. Devem cantar e encantar, atraíndo com a sua voz todas as atenções. Devem ser capazes de representar bailados clássicos e contemporâneos. Devem ser capazes de entreter, cortejar, e tornar-se irresistíveis. Para tal, as gueixas passam anos em aulas de canto, de música e de dança, sendo este um processo decisivo na seriação das jovens. Devem aprender pintura, literatura, caligrafia e a cerimónia do chá, uma das componentes mais importantes pois na qualidade de gueixas serão chamadas inúmeras vezes para participar em cerimónias de chá e entreterem os presentes. Muitas nunca chegarão a ser gueixas. Só as mais dotadas conseguem passar ao papel de maiko, a aprendiza de gueixa.

Uma das partes principais da educação de uma maiko passa por aprender a entreter um homem, seduzindo-o, criando um jogo de arte, fazendo-se ao mesmo tempo confidente e ouvinte. Devem, no entanto, manter uma postura elegante, passiva e recatada. A arte da maquilhagem e da forma como vestem o quimono é outra das suas componentes de formação. Aprender a vestir correctamente um quimono pode demorar meses, especialmente quando tudo tem que estar mais do que perfeito. A forma de amarrar o oki, uma espécie de cinto sobre o quimono, deve ser feita de forma meticulosa, já que tem que ser atado nas costas. Apenas as prostitutas atam o oki à frente. A forma meticulosa como os seus lábios vermelhos em forma de coração contrastam com a pele branca deve ser dominada na maquilhagem, já que esta imagem carrega mistérios que fascinam as pessoas em todo o mundo.

Para se tornar uma gueixa, as maikos tinham que passar por um ritual de mizuage, uma cerimónia que representava a maioridade. Uma das principais componentes desta cerimónia consistia no leilão da virgindade da maiko. Essa prática foi ilegalizada em 1959. Hoje, a passagem de maiko a gueixa é feita pela cerimónia do eriage, que significa “mudança de colarinho”. Os colarinhos vermelhos usados por baixo do quimono da maiko, dá lugar a um colarinho branco.

Uma vez gueixas, as jovens mudam de nome e passam a ser o mais anónimas possível, tentando passar despercebidas e aumentando o seu carácter misterioso. Aqui a sua expressão corporal passa a ser o segredo. Maquilham-se e vestem-se de forma singular, sendo facilmente identíficáveis. Vestem quimonos específicos, os mais belos e valiosos que o Japão já viu, agora com colarinhos brancos. Deixam de parte os quimonos coloridos e passam a usar cores mais suaves. Maquilham o rosto e o pescoço de branco, tarefa que pode levar mais de duas horas. Penteiam-se de forma exuberante, adornando os cabelos com flores minúsculas. São convidadas para acompanhar empresários de sucesso e figuras públicas em reuniões formais. Este hábito faz parte da cultura japonesa, em que tradicionalmente a esposa não saía de casa, sendo a sua privacidade preservada. Assim, as gueixas apareciam como figuras alegóricas convidadas que acompanhavam os homens em momentos cruciais da sua vida profissional.

GUEIXAS, compreender a tradição numa viagem ao Japão secular

Vítimas de assédio sexual frequente, as gueixas podem cortejar, mas geralmente não ultrapassam a fronteira sexual, negando-se a discutir interacção sexual com os clientes. Esta questão é aceite por gueixas e clientes e faz parte da cultura japonesa. A gueixa é a mulher perfeita, é aquela que encanta os homens mas conserva o mito de ser inatingível. A linha vermelha da actuação de uma gueixa está no envolvimento sexual. A gueixa pode ter um danna, um patrono rico, que suporta as suas despesas e os custos da sua formação. Em troca, elas seriam gueixas privadas desses homens, devendo estar sempre disponíveis para qualquer evento e encontro. Ocasionalmente, as gueixas escolhiam dannas pelos quais tinham interesse afectivo e paixão, levando muitas vezes a que se estabelecesse um relacionamento entre os dois. Se houver um envolvimento, a gueixa terá que fazer um ritual de Hiki Iwai (comemoração da separação), já que estará apenas disponível para o seu danna. No entanto, nem todas as gueixas têm dannas e, na maioria, os dannas não têm envolvimento sexual com as gueixas.

Competia às gueixas satisfazer todos os desejos dos seus clientes mas a prática sexual é proibida por decreto governamental. O Japão criou legislação específica para regulamentar a arte das gueixas, dignificando ainda mais o seu papel na cultura japonesa. No entanto, as gueixas estão privadas da sua liberdade de relacionamento pessoal. Qualquer gueixa em actividade não poderá ter namorado ou casar. Se decidir fazê-lo, deve abandonar a condição de gueixa e mais uma vez efectuar o chamado Hiki Iwai.

O fascínio pela figura das gueixas é intemporal, quer por parte dos estrangeiros, como dos japoneses. Na realidade, são poucas as pessoas que conseguem ter contacto com alguma delas e, na melhor das hipóteses, teremos a sorte de nos cruzarmos com alguma nos bairros históricos de Quioto. Privar com uma gueixa é um privilégio que não está ao alcance da maioria dos mortais. Hoje estima-se que existam apenas cerca de mil gueixas no Japão, e apesar da profissão estar em risco, continua a ser extremamente valorizada na cultura japonesa.

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Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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