Dia 21 – De Mashhad, no Irão 🇮🇷 ao Turquemenistão, aventuras e peripécias na fronteira 🇹🇲 | Crónicas do Rally Mongol

Dia 21 – De Mashhad, no Irão 🇮🇷 ao Turquemenistão, aventuras e peripécias na fronteira 🇹🇲 | Crónicas do Rally Mongol

Dizem que quem faz a peregrinação a Mashhad pode usar o título de Mashti, como sufixo do seu nome. Se assim for, eu e o Rui já o podemos usar duas vezes. Estamos pela segunda vez a testemunhar a fé e devoção islâmica em Mashhad, no Mausoléu de Iman Reza, o oitavo Iman mais importante para os muçulmanos xiitas.

Tomámos o pequeno-almoço na varanda da guesthouse do Varis pouco tempo depois do nascer do sol. Começámos o dia bem cedo porque queríamos visitar o Mausoléu de Mashhad, atravessar a fronteira do Turquemenistão e chegar a Ashgabat, a capital do país.

Da parte da manhã embrenhei-me no chador, acompanhada pelos rapazes de calças compridas e camisola e dirigimo-nos ao Mausoléu de Iman Reza. A segurança era apertada e nenhuma das câmaras conseguiu entrar no recinto, apenas telemóveis.

A devoção islâmica impressiona, especialmente ali em volta do túmulo de Iman Reza, onde as mulheres e os homens são separados de forma a aproximarem-se do túmulo. Do lado das mulheres, elas acotovelam-se e lutam por poder tocar nas grades prateadas do túmulo, que guarda um edifício verde envidraçado onde jaz o corpo de Iman Reza.

Gritos, pancadas no peito, rezas, cânticos, empurrões, hijabs atirados pelo ar, tudo parece acontecer à minha volta. Do lado dos homens passa-se algo semelhante mas penso que sem tantas lágrimas e pancadas auto-infligidas no peito. Juntei-me às multidões para tentar tocar no túmulo do Iman, algo que não me tinha atrevido fazer da primeira vez que aqui estive. Fui barrada à entrada por causa de ter as unhas pintadas mas coloquei as mãos dentro das mangas da túnica preta e passei.

Agarrei-me bem ao telemóvel e tentar penetrar na multidão. Estava claustrofóbica mas a muito custo em alguns minutos alcancei o túmulo. Quando dei por mim estava a ser empurrada pelas multidões e esmagada contra o túmulo. Tentei, em vão, sair. Resolvi colocar o braço por cima para abrir caminho mas nesse gesto abaixei-me e as multidões de mulheres treparam por cima de mim. Só dei conta quando as zeladoras do túmulo, munidas com espanadores gigantes, bateram nas mulheres que estavam por cima de mim e me puxaram para fora daquele espaço. Consegui respirar e sentir o fervor, à mistura com um certo alivio.

Cá fora os rapazes já estavam a repousar da sua experiência, encostados numa sombra, tal era o calor que às 9h da manhã já se fazia sentir. Demos uma volta pelo recinto exterior, e vimos, inclusive, passar um funeral. No entanto, era hora de deixar Mashhad para trás e rumar ao Turquemenistão.

Pegamos na burra e saímos em direcção à fronteira de Bajgiran. Do lado iraniano as coisas foram rápidas, com a questão do CPD a levantar apenas algumas confusões. Tivemos que pagar mais 10 USD e seguimos. Do lado do Turquemenistão receberam-nos com um sorriso rasgado. Os guardas fronteiriços, que não deviam ter mais do que 19 anos, ficaram encantados com a burra de carga e só não tiraram fotografias porque não podiam.

Os nossos trâmites fronteiriços foram rápidos, menos de uma hora, mas a burra foi inspeccionada, embora não com muito detalhe porque estava a chegar ao final do dia e os guardas queriam ir-se embora. O Agostinho demorou cerca de uma hora a passar o carro, ao contrário dos checos que estavam à nossa frente e que demoraram mais de duas horas. Pagámos 128 USD para colocar o carro no Turquemenistão. Uma taxa para circular nas estradas, seguro de viagem e mais não sei o quê, para além de 66 USD por pessoa para o visto. O dinheiro começava a mingar a olhos vistos.

– Podem seguir mas nos próximos 35 km não podem fotografar nem tirar fotografias.

Seguimos assim em direcção a Ashgabat, a capital do Turquemenistão. Quando lá chegámos o sol já se estava a pôr. Precissávamos de arranjar um hotel com urgência. Os primeiros dois que tentámos estavam cheios. A noite aproximava-se e começávamos a ficar preocupados.

O terceiro hotel tinha quarto e pediu-nos 22 USD/pessoa. Sim, era um verdadeiro pardieiro, tão mão que até nos reunimos na casa de banho do quarto dos rapazes para tirar uma selfie! Mas o pior foi quando a senhora nos trocou de quartos, mandou uma menina sair do quarto onde estava e meteu os três rapazes lá dentro. A sanita tresandava e os colchões metiam nojo aos cães. Comecei a reclamar com ela, exigindo-lhe mais condições. Ela passou-se e queria colocar-nos a todos fora do hotel. Tive que “meter a viola no saco”a muito custo (porque não tínhamos mais para onde ir) e pedir-lhe desculpa. Desde esse momento deixou de me falar e passou a ignorar-me. Deixamos as coisas todas no quarto e descemos. Estávamos exaustos, cheios de calor e esgotados psicologicamente. Precisávamos trocar algum dinheiro e arranjar um lugar para comer.

Demos uma pequena volta pela cidade, para descobrir que estava quase tudo fechado. Entretanto descobrimos um bar aberto, com esplanada e que servia comida. Abancámos logo e jantamos ali. Relaxamos, descontraímos e rimos. Ter a capacidade de rir de nós próprios é muito bom e terminar os nossos dias a rir é maravilhoso. Temos conseguido fazê-lo, apesar dos dias serem cada vez mais duros.

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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