Sanchi, a história e expansão do Budismo gravadas em pedra | Índia

Sanchi, a história e expansão do Budismo gravadas em pedra | Índia

Sanchi é diferente do resto da Índia mas é a cara da história da Índia. Actualmente a religião predominante na Índia é o hinduísmo, seguida de longe pelo Islão. Quando se fala em budismo, naturalmente associamos à história desta religião países como a China ou o Japão, a Tailândia ou a Birmânia (Myanmar), Mongólia ou Sri Lanka, ou ainda o Tibete. Mas a verdade é que a Índia é o berço do budismo, e foi a partir dali que os novos princípios e textos religiosos se disseminaram por toda a Ásia ao longo de séculos.

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Hoje Bodhgaya, Sarnath e Sanchi são locais na Índia indissociavelmente associados à história do budismo, mas os pormenores estão envolvidos num misto de lenda e história. Da mesma forma que a vida de Cristo é apenas conhecida pelos evangelhos, a vida de Buda foi também transmitida ao longo dos tempos por textos sagrados escritos muito tempo depois da morte de Buda, não existindo fontes históricas independentes, e não sendo assim possível destrinçar factos históricos de lendas e histórias.

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A tradição conta que Siddhartha Gautama foi um príncipe nascido em 563 a.C. num reino localizado no sul do actual Nepal, tendo renunciado ao seu reinado e enveredado por uma vida de mendicante e eremita. Após vários anos sentado aos pés de outros mestres, e outros tantos passados em meditação solitária, atingiu a “iluminação”, ou seja, um conhecimento profundo sobre o porquê do sofrimento humano e como acabar com ele.

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Bodhgaya, uma cidade do distrito de Gaya, no estado de Bihar, marca o local onde Siddhartha se tornou Buda, o “desperto” e é hoje o local mais sagrado do budismo.

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Foi também na Índia que Buda pregou os seus ensinamentos (sendo Sarnath, perto de Varanasi, considerado o local do primeiro sermão de Buda), fundou as primeiras comunidades de monges e monjas, e foi também na Índia onde acabou por morrer, em 483 a.C.

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A expansão do budismo na sua terra natal foi no entanto lenta, mas sofreu um grande impulso quando Ashoka, rei (272 – 237 a.C.) do império maurya, o maior império da história no subcontinente indiano, se converteu ao budismo.

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Guerreiro implacável e cruel, Ashoka expandiu o império até ele se estender desde o Paquistão e Afeganistão, até à ponta sul da Índia, subjugando povos, matando e deportando aos milhares. No entanto, arrependeu-se da sua conduta e tornou-se o primeiro soberano a adoptar o budismo como religião oficial.

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No seu reinado, Ashoka promoveu a expansão dos princípios do budismo fora da Índia (por exemplo, os seus filhos foram responsáveis pela introdução do budismo no Sri Lanka), e a construção de monumentos em pedra que simbolizassem os elementos sagrados do budismo, quer fossem éditos em pedra, pilares com inscrições, ou stupas, estruturas em forma de monte que cobriam normalmente restos mortais ou relíquias de mestres budistas.

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Antes de Ashoka, já se construíam stupas, e diz-se que dez foram construídas para albergar as cinzas do corpo de Buda, mas como eram feitas de madeira ou terra, facilmente desapareciam. Ashoka mandou construir stupas em tijolo ou pedra, imitando a forma das mais antigas, mas mais resistentes à passagem do tempo. A maior prova dessa durabilidade é a grande stupa de Sanchi, aquela que é a mais antiga estrutura de pedra na Índia, e que pertence a um dos complexos arqueológicos budistas mais importantes do mundo, património mundial da UNESCO desde 1989.

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Ao contrário de Bodhgaya e Sarnath, Sanchi não está relacionada com nenhum episódio da vida de Buda, mas sim com o facto de uma das mulheres do rei Ashoka ser natural de Vidisha, a poucos quilómetros de Sanchi. Ali, Asoka decidiu construir a “Grande Stupa” (hoje conhecida como “Stupa n.º1”), com um domo em forma de hemisfério (anda), feita de tijolo, albergando relíquias do Buda, com um terraço levantado como base (medhi), e uma vedação (vedika) no topo a rodear um chatra, símbolo auspicioso em forma de pára-sol.

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Ashoka mandou também erguer um mosteiro e um pilar, encimado por um capitel semelhante ao de Sarnath, o símbolo nacional indiano, e que pode ser admirado no Museu Arqueológico de Sanchi, o qual visitámos depois de termos explorado o recinto.

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Mais tarde, no período do reino Shunga (185 – 75 a.C.), a grande stupa passou para o dobro do tamanho, foi recoberta de pedra, e foram construídos o patamar circum-ambulatório e escadas, assim como a balaustrada que rodeia a stupa ao nível do solo. Foi também neste período que foram construídas as stupas n.º 2 e 3, sendo que esta última albergaria as relíquias de dois dos mais destacados discípulos de Buda, Sariputra e Maugdalayana.

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A stupa n.º2 encontra-se actualmente fora do recinto, e exibe medalhões de lótus e animais mitológicos. O complexo tem uma série de templos, santuários e mosteiros, acrescentados ao longo de séculos, e que constituem um registo único da génese e florescimento do budismo e a sua arquitectura ao longo de um período de 1300 anos, começando a decair no século XIV, tendo Sanchi sido abandonada e permanecido esquecida durante 600 anos até que, em 1818, foi redescoberta por um general inglês, tendo sido restaurada significativamente no início do século XX.

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Mas é a grande stupa que capta todas as atenções, e merecidamente. Uma mistura de símbolos budistas com elementos arquitectónicos usados nos monumentos megalíticos, a grande stupa fascina académicos, fiéis religiosos e meros visitantes. No primeiro século da nossa era, na dinastia dos Satavahana, foram acrescentados os quatro pórticos (toranas) de pedra, e que são os elementos mais trabalhados, sendo que o detalhe das gravações em pedra lembra aquilo que é feito usualmente em madeira e marfim.

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Cada pórtico tem dois pilares, com capitéis no cimo, e suportam três traves. Foram erguidos um a um, com estilos diferentes, embora a diferença entre o primeiro e último seja apenas de algumas décadas. Os temas representados são maioritariamente as jatakas (histórias de vidas passadas de Buda), milagres ou outros episódios da vida de Buda, mas também alguns episódios da vida do rei Ashoka, em particular a recolha das cinzas da cremação de Buda. É curioso que, em todas estas esculturas, mesmo naquelas que retratam episódios pessoais, Buda nunca é representado em figura humana, mas sim através de símbolos, como uma árvore, um trono vazio, as suas pegadas ou o caminho por ele percorrido, ou ainda uma roda.

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Sanchi é assim um verdadeiro tesouro da humanidade e constitui um lugar de visita obrigatória para todos aqueles interessados na história, religião e cultura indianas. Em 2007, Sanchi estava nos nossos planos originais, mas constrangimentos de tempo fizeram-nos adiar essa visita. Este ano rendemo-nos a Sanchi, chegando lá de comboio, vindos de Gwalior, onde tínhamos dormido, e de lá partimos, novamente de comboio, para Bhopal. Saímos de Sanchi maravilhados e consideramo-la como uma das principais atracções da Índia central.

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Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida, culminando num doutoramento nos Andes, investigando ambientes glaciares. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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