Eu e a Índia, memórias e reflexões de um viajante

Eu e a Índia, memórias e reflexões de um viajante

Há 10 anos, em 2007, eu e a Carla estávamos juntos há pouco tempo e decidimos embarcar numa viagem pela Índia de mochila às costas durante dois meses. Era a nossa primeira grande viagem fora da Europa, e constituiria um marco muito importante para nós como viajantes, como casal, e como pessoas. Tudo foi uma novidade, para quem estava habituado a viajar com a comodidade e segurança de um contexto cultural muito semelhante ao nosso. A Europa é toda igual; essa é a verdade. Ásia e África são os grandes desafios para os viajantes e nós lançámo-nos de cabeça num dos destinos culturalmente mais diferentes do modelo ocidental. Estávamos preparados? Não; mas isso foi o que tornou essa viagem única e que nos marcaria para sempre. Este ano, decidimos voltar. Dez anos passados, cheios de viagens para destinos muito diversos, sabíamos que nós tínhamos mudado, e que veríamos a Índia com olhos diferentes. Mas também esperávamos que a Índia tivesse mudado nesta última década. As expectativas eram muitas e, mais uma vez, a Índia nunca nos desiludiu e conseguiu sempre surpreender-nos. Em 2007, o Viajar entre Viagens ainda não existia. O nosso primeiro blogue dedicado a uma grande viagem de Verão só apareceria em 2008 com a “América do Sul de mochila às costas”, e durante a viagem pela Índia e Nepal estava muito longe das nossas cabeças partilhar na internet tudo o que nos arrebatava, maravilhava ou angustiava durante aqueles dois meses. No entanto, tanto eu como a Carla escrevemos durante a viagem. Em jeito de recordação e de reflexão sobre aquele país tão singular, deixo aqui os textos tal como os escrevi então, finalizando com algumas reflexões sobre o que mudou, ou não, na Índia.

21/07/2007

“Estamos em solo indiano há quase 72 horas. Parece pouco, visto de fora, mas para mim já parece que estou cá há muito tempo. Isto porque este país é um verdadeiro assalto aos nossos sentidos, uma torrente de sensações que não pára. Quando saí do aeroporto (por volta da meia-noite), o calor e a humidade eram tais, e o ar parecia tão ‘pesado’ que tive dificuldade em respirar nos primeiros minutos. A quantidade de pessoas à volta era incrível, o barulho era imenso e demorou uma eternidade até que saíssemos do parque de estacionamento do aeroporto. Mas o verdadeiro choque foi quando entrámos na rua onde se situava o nosso ‘hotel’… A pobreza das casas, pessoas a dormir na rua, o lixo, as vacas, o cheiro a mijo… Fiquei assustado! O quarto do hotel era muito simples (espartano, de facto), mas no dia a seguir já nos parecia um de 5 estrelas. Isto porque Nova Deli (ou melhor, Velha Deli) é um pesadelo. Milhares e milhares de pessoas nas ruas, uma profusão de cheiros, um trânsito caótico (quer em ruas estreitíssimas, quer em avenidas largas), lojas atrás de lojas, vendedores atrás de vendedores, tudo isto acondicionado com um calor insuportável: é esta a receita básica da capital indiana. Isto já para não falar no constante assédio por parte de pessoas que vivem com base no engano e na exploração dos medos dos turistas ocidentais. Tivemos de vir descansar para o quarto e recarregar baterias… Dos lugares e monumentos que vi, o que mais gostei (de longe!) foi a Jama Masjid, a maior mesquita da Índia. Nunca tinha estado numa, e gostei do ambiente lá dentro. Até me apeteceu sentar de joelhos diante do Corão… O que a Índia nos faz! Ao fim do dia tomei banho, recuperei forças e demos uma volta pelos arredores do hotel. No dia a seguir, seguimos viagem e, desta vez, a Índia surpreendeu-me pela positiva. Apesar da pobreza extrema lá fora, o comboio que nos levou a Chandigarh era quase um Alfa Pendular… E o nosso destino é, provavelmente, a mais limpa cidade da Índia. Uma área comercial ao estilo ocidental, muita vegetação dispersa pelos vastos espaços entre os diferentes sectores da cidade, museus e jardins fazem desta cidade um local muito aprazível. Tudo isto apimentado pelas primeiras chuvas das monções! O jardim de Pedras é um local a não perder, nesta cidade delineada por Le Corbusier a pedido de Nehru para se criar uma nova capital do Punjab (já que Lahore tinha passado a ser paquistanesa). Nesse mesmo dia, seguimos de autocarro nocturno para Dharamsala. Uma viagem a alta velocidade por estradas (ou projectos de estradas…) com paragem em aldeolas perdidas no meio do nada. Muito cansativo! Quando cheguei a Dharamsala só me apetecia ir para o quarto do hotel e dormir… e foi o que fizemos! Quando acordei, uma boa e uma má notícia: tinha o começo de uma diarreia (fruto da hospitalidade excessiva de um polícia de Chandigarh!) mas, para compensar, a temperatura deve andar 15 graus abaixo da de Deli. Nada mau para descansar um pouco. O ambiente aqui é descontraído, com uma mistura de comunidades religiosas, indianos (poucos), tibetanos exilados e ocidentais mais ou menos ‘indianalizados’. Nestes primeiros dias aprendi o que há muito suspeitava: não existe uma Índia, existem MUITAS Índias, cada uma com características próprias, mas partilhando de um fundo comum e que, no conjunto, forma este manto de retalhos que é este país.”

Setembro de 2017

Quer se seja um viajante experiente, ou um novato à procura de aventura, a Índia continua a ser um desafio, uma ‘pancada’ das fortes, capaz de nos derrubar e de nos manter anestesiados durante algum tempo. Ninguém, absolutamente ninguém lhe poderá ficar indiferente. Continua a ser verdade que existem muitas Índias, e todas elas conseguem surpreender-nos quando menos estamos à espera. Para nós, o choque inicial não foi tão grande desta vez, pois estávamos mais preparados, e a Índia também mudou. Coisas tão simples como um novo aeroporto em Nova Deli, galardoado como um dos melhores do mundo, alteram por completo o primeiro impacto. Chegámos a Deli aos primeiros raios de sol, e a saída do parque do aeroporto não podia ter sido mais contrastante com a que vivemos em 2007. Mas, rapidamente entrámos no ritmo indiano. Paharganj continua tão caótico como nos recordávamos, e antes ainda de lá chegarmos já tínhamos sido obrigados a deixar o nosso táxi, supostamente com problemas de bateria (mas quase de certeza um esquema), para o mais tradicional riquexó (pago pelo taxista depois da nossa reclamação). Percorridas as vielas sujas, desviando-nos de vacas, chegámos ao nosso hotel ranhoso e, aí, sentimos que a Índia ainda era a Índia de que nos lembrávamos!

07/08/2007

“Manali é a pátria dos ‘loucos pela Índia’. Em nenhum outro local se vêem tantos ocidentais completamente ‘indianalizados’, alguns mostrando indícios de viverem já a ‘full-time’ neste país. Foi nessa cidade que partilhámos um auto-riquexó com uma jovem francesa que no ano passado tinha vindo para cá para passar dois meses, acabou por ficar e este ano já cá está há três meses. Quando lhe disse que estávamos na Índia há uma semana, ela pôs a mão à testa e exclamou: ‘Oh, my god!’. Pois é, somos ‘frescos’, respondi eu. Após uma breve pausa, ela disse: ‘Take your time’. É… É mesmo assim. É preciso tempo para nos adaptarmos, para nos ajustarmos mentalmente ao primeiro contacto com a(s) realidade(s) deste país. Depende da pessoa, das suas motivações, dos locais por onde passa, das experiências por que passa, mas o choque… Esse é inevitável. Não vou ao ponto de citar Pessoa dizendo ‘Primeiro estranha-se; depois entranha-se.’. Não, no meu caso acho que se pode falar de um período de ‘acomodação’ (como o da retina quando se passa da escuridão para a luz ou vice-versa) em que o meu centro emocional e mental (e até físico) foi afastado do equilíbrio e a ele teve de voltar. O dia em que senti que ganhei (ou melhor, que comecei a recuperar) a minha estabilidade foi o dia 1 de Agosto. Não sei se foi por ter entrado num novo mês, se foi por ter entrado numa nova fase da nossa viagem, ou se foi a partir daí que comecei a sentir-me mais confiante, mais seguro, preparado para enfrentar as peripécias desta nossa grande aventura. Foram precisos 14 dias.”

07/08/2007

“Quem vem para a Índia, e não se restringe a um turismo de hotel, terá de lidar com algumas características deste país à sua própria maneira. Pode estranhar, habituar-se, suportar, ignorar, acomodar-se. Quanto a mim, acho que me conformei. É destas características que vou falar. Estão todas interligadas, e é preciso não esquecer que se nos deparam, não isoladamente, mas em simultâneo. 1) O calor e a humidade no ar tornam qualquer actividade física um esforço considerável. A transpiração do corpo é constante e sente-se no corpo todo. É evidente que estas condições dependem da região onde estamos: Jammu e Caxemira é muita mais fresca do que Deli (nas montanhas ainda mais), mas Leh é de uma secura extrema (o pó, esse sim, entranha-se em nós). 2) A fauna variada é um elemento constante das cidades, vilas e aldeias. Dependendo dos locais, da aglomeração de gente, das regiões (e religião predominante) encontram-se e coabitam connosco os mais variados animais, desde os mais corriqueiros, ou quase omnipresentes, até aos mais exóticos, ou mais esparsos. Desde moscas, mosquitos, formigas, baratas, cães, corvos e pombas, passando pelos burros, búfalos, iaques, cabras, camelos, porcos, até chegar aos elefantes, bois, ratos e ratazanas, vacas, macacos e esquilos, vê-se de tudo! Há uma espécie da qual só vi um exemplar na Índia (num mosteiro budista): os gatos. Ou os comem, ou não é uma espécie endémica.”

Setembro de 2017

O calor e a humidade continuaram a ser uma constante da viagem. No entanto, este ano a Índia das monções fez-se sentir, e de que forma! Apanhámos chuva quase todos os dias, tivemos de alterar metade da nossa viagem por causa de constrangimentos devido a inundações em grande parte do nordeste da Índia mas, em compensação, o calor foi muito menor do que há 10 anos. Sofremos, por isso, muito menos com o cansaço e a transpiração. Por outro lado, os imprevistos e o constante repensar de estratégias pôs à prova a nossa experiência de viajantes.

07/08/2007

“A Índia intocada pela mão do Homem é linda, deslumbrante na sua variedade, na sua exuberância, ou na sua austeridade. Desde os picos gelados, passando pelas montanhas verdejantes, ou pelos desertos escaldantes, até às planícies sem fim, é um assombro. Quando viajámos de Manali para Leh, a paisagem era tão esmagadoramente bela e diversa, que sofri o que só posso descrever como uma ‘congestão sensorial’. Imaginem o vosso prato preferido. Agora imaginem que o comem até à exaustão, até não poderem mais. Foi assim que eu me senti. Já não podia mais. Tinha os olhos e o coração cheios, e já não podia mais. Fartei-me de tirar fotografias, aborreci-me. Era demais para mim. É uma paisagem para Deuses. Fiquei agoniado, senti tonturas e a minha cabeça parecia que explodia. Mal de altitude? Talvez. Mas tudo começou, penso eu, porque os meus sentidos comeram de mais e não resistiram. A Índia do Homem é, na sua maioria, feia, porca, nojenta, e revoltante para os sentidos. Isto de perto, no contacto íntimo. Porque descobri que as cidades indianas, na sua maioria, são bonitas, mas à distância. Vistas de longe, de preferência de um ponto alto, há cidades que são lindas. Cidades tão diferentes como Leh, Srinagar, Jodhpur, Jaisalmer ou Udaipur, têm um brilho, uma beleza, um fascínio que só consegui (e consigo) apreciar quando as vi ao longe, na sua totalidade, sem pormenores, a floresta, e não as árvores. Apesar disto ser verdade para quase todas as cidades por onde passámos, só me dei conta disso hoje, quando vi Udaipur do Palácio das Monções. E assim, à distância, até parecia que Homem e Natureza se complementavam para criar algo mais belo.”

Setembro de 2017

A beleza natural da Índia continua a ser majestosa na sua diversidade e exuberância. O nosso plano de 2017 era fazer um grande circuito pela Índia e Bangladesh, quase não repetindo destinos, conhecendo novos locais, a maior parte longe dos circuitos turísticos habituais. Desde o vale de Spiti, nos Himalaias, passando pelas ilhas paradisíacas das Andaman, as planícies sem fim da Índia central, os desertos do Rajastão, os deltas dos grandes rios do Guzarate e de Bengala, tudo é uma visão de outro mundo, e ainda hoje me maravilho tanto como há 10 anos, e me interrogo o que terão sentido os ocidentais do século XVI que ali atracaram pela primeira vez.

15/08/2007

“Na visita às grutas de Ellora tivemos a companhia de um guia muito curioso. Era muito calmo e relaxado e falava com uma voz em tom baixo, fazendo uma pausa de uns breves segundos após cada frase, como se estivesse à espera que absorvêssemos a informação! Parecia alguém a dar um sermão… Quando entrámos na gruta 16, o complexo de templos de Kailash, admirávamos uma estátua da deusa Durga, a qual se pode manifestar como a deusa negra Kali, a deusa da destruição e morte, quando o nosso guia, no seu tom pardacento, nos disse que uma outra forma de manifestação da deusa Durga era adorada no Ocidente, o seu nome: Condoleeza Rice! A inteligência e o inusitado desta piada surpreendeu-me. Fartei-me de rir, assim como o nosso guia, que prontamente esclareceu que era apenas uma piada. Um indiano com sentido de humor apurado!”

15/08/2007

“Hoje comprei uma bola de basalto (até agora a única ‘bugiganga’ que comprei para mim) que tem, à sua volta, esculpidos os diferentes símbolos do hinduísmo, budismo, judaísmo, taoísmo, cristianismo, islamismo, etc… Acho que é um símbolo da Índia. Um pedaço de rocha, dura e densa, negra, tanto usada em esculturas de monumentos e templos, e que corresponde à terra deste país, no qual estão inscritas tantas religiões, que lhes serve de veículo, sendo cada uma delas apenas uma face, sendo todas elas o conjunto do seu semblante.”

Setembro de 2017

É o factor humano que torna a Índia verdadeiramente única no panorama mundial. É isso que a faz especial. A simplicidade e simpatia dos indianos, vivendo em circunstâncias difíceis, mas sempre com um sorriso no rosto, continua a ser a melhor apresentação que se pode ter do país. E um sorriso continua a ser a melhor forma de comunicar e entrar no coração dos indianos. A diversidade cultural e religiosa é algo maravilhoso, num país onde todos parecem conviver de uma forma harmoniosa, principalmente se o compararmos com os países vizinhos. A religião, ou melhor, as religiões são talvez culpadas de muitas injustiças e da imobilidade social que marcou o passado deste país, mas também podem ser um dos motores da procura da felicidade, algo que todos nós procuramos. Na Índia, a alegria de viver parece ser uma defesa necessária, precisamente quando a vida nos mostra a sua face menos agradável. Por contraste, nos países mais desenvolvidos, as pessoas parecem, cada vez mais, perder o gosto por esse milagre que é a vida. O desenvolvimento material é muito importante, mas não é tudo, nem determinante na felicidade das pessoas, essa é uma das lições que a Índia nos ensina.

15/08/2007

“Nós, portugueses, fomos os primeiros colonizadores a grande escala, os primeiros exploradores e civilizadores de povos ‘pagãos e selvagens’. Para mim, até a ideia em si de colonização é abominável. A execução desta ideia, à escala global, por parte da raça branca revela bem o quão pobres de espírito nós somos, apesar de, consciente ou inconscientemente, nos acreditarmos superiores a qualquer raça do mundo. A religião, mais uma vez, teve aqui um papel fulcral. Os portugueses, na sua expansão por terras de Goa, destruíram mais de 500 templos hindus, convertendo à força os infiéis, ou condenando-os à fogueira. A Santa Inquisição, instituição trazida para a Índia por um homem que mais tarde seria canonizado pela Igreja Católica, realizou nesta região mais de 16.000 autos-de-fé nos seus quase 250 anos de existência. Mas a religião é apenas a ponta-de-lança, o pretexto visível de uma estratégia de imposição de um conjunto de valores culturais, políticos, económicos, um estilo de vida, um modo de estar, uma mentalidade. O que é certo, no entanto, e apesar de abominar tais acções, a verdade é que hoje, como ocidental na Índia, e passados 500 anos, encontro conforto nos vestígios que restaram desse período de aculturação. Simplesmente porque o que restou, passadas as lutas e atrocidades, são elementos civilizacionais com os quais me identifico e nos quais, como já disse, encontro conforto nesta Índia (ainda) tão diferente. Nas zonas onde o processo de colonização se fez sentir durante mais tempo ou com mais intensidade, por exemplo Mumbai e Goa, notam-se sinais de aproximação aos ‘nossos valores’: na organização das cidades, na construção das casas, no asseio das ruas, na forma de vestir das pessoas, na gastronomia. Posso parecer um colonialista saudosista a escrever, mas a verdade é que, os poucos elementos de organização que este país tem (tal como nós a vemos, claro), deve-os à administração inglesa, nomeadamente os caminhos-de-ferro. Se não tivessem sido construídos então, os indianos não os teriam construído na dimensão que têm hoje. Porque, simplesmente, não faz parte da filosofia da vida deles. Mas, é certo, hoje os utilizam. A Indian Railways é o maior empregador do mundo (com 2 milhões de empregados!) e transporta milhões de pessoas todos os dias.”

26/08/2007

“A poluição do ar é um factor a ter em conta na Índia. O automóvel particular é um bem raro, mas isso não quer dizer que o parque automóvel não seja imenso, assim como imensamente poluidor. Quer o elemento predominante seja o auto-riquexó (como em Deli), ou o táxi (como em Mumbai) ou ainda o autocarro (como em Calcutá), o parque automóvel é (eufemisticamente falando) decrépito, aparentando ter ‘selo’ dos anos 50. Os veículos parecem estar podres por dentro (por fora, nem se questiona!) e ‘queixam-se’ disso: o barulho dos motores (a acrescentar às buzinas) é monstruoso e o fumo emitido escuro como breu. Ainda assim, os elementos mais poluidores são os omnipresentes camiões de mercadorias, os ‘goods carriers’, exóticos, pindéricos, extravagantes, que parecem desengonçar-se em movimento e com uma frase pintada na traseira, uma pequena frase que dita a lei das estradas da Índia: BLOW HORN.”

Setembro de 2017

No entanto, a Índia progrediu muito no caminho do desenvolvimento nesta última década, talvez em prejuízo da sua genuinidade, mas certamente em benefício da qualidade de vida de muitos dos seus habitantes. Para bem e para o mal, a Índia é menos rural e mais urbana. A classe média, vestida à ocidental, e com dinheiro para viajar em primeira classe nos comboios, e fazer férias na Índia ou no estrangeiro, cresceu a olhos vistos. Um sistema de impostos, semelhante ao nosso IVA, foi implementado este ano, a nível nacional e regional. A preocupação com o lixo é uma das prioridades do actual governo. Os espaços públicos, notavelmente as estações de caminhos-de-ferro são hoje, na sua grande maioria, locais asseados, com serviço de limpeza e coimas aplicadas a quem prevaricar. O trânsito parece mais organizado, mais e melhores estradas atravessam o país, e até cheguei a ter saudades de um filme de Bollywood aos berros nos autocarros!

15/08/2007

“Na Índia de hoje, o automóvel particular é ainda um bem de luxo. Todo e qualquer transporte público, seja ele o comboio, o autocarro, ou mesmo o auto-riquexó ou o táxi, anda sempre a abarrotar de gente. O movimento nos comboios é particularmente impressionante; as estações estão cheias de pessoas a qualquer hora do dia e da noite, e os comboios, quer suburbanos nas grandes cidades, quer de longa distância, têm dezenas de carruagens e o seu comprimento é de centenas de metros.”

15/08/2007

“Li numa estatística apresentada num livro sobre a geografia da Índia que aproximadamente 50% da população indiana (que ronda os 1060 milhões) não tem uma casa ‘permanente’. Não sei o que este termo quer dizer com rigor, mas a verdade é que me parece que traduz a realidade deste país. E é até capaz de pecar por defeito…Milhões de pessoas dormem no seu local de trabalho, os lojistas na sua loja, os empregados no seu local de emprego, os condutores de transportes públicos no seu respectivo veículo, os desempregados (?) simplesmente nas ruas. A partir do começo da noite, a frente das estações de caminhos-de-ferro começam a encher-se de pessoas que reservam o seu lugar para passar a noite, todos estendidos lado a lado. Mesmo num hotel ‘mid-range’, como que ficámos em Dharamsala, com boas instalações, lobby de entrada com chão em tijoleira e grandes sofás, empregados vestidos a rigor e com ar apresentável, quando saímos às seis da manhã, os empregados do balcão de entrada dormiam num canto desse mesmo lobby. E, como este, todos os outros estabelecimentos onde ficámos…”

Setembro de 2017

Num país com uma área 35 vezes superior à de Portugal e com uma população de mais de 1300 milhões de pessoas, as mudanças não chegam a todos ao mesmo ritmo. Milhões de indianos continuam a viver na mais abjecta pobreza, principalmente nas grandes cidades, metrópoles onde o lixo e as pessoas competem pelo espaço vital. Milhões de pessoas continuam a viver (ou a sobreviver) do que a terra e os animais lhes dão, num estilo de vida que pouco terá mudado nos últimos milénios. Milhões de pessoas continuam a ter uma vida nómada, sem um vínculo a uma casa, ou a viver debaixo de uma lona numa rua de uma grande cidade. Ainda assim, a quantidade de pedintes e aleijados nas cidades diminuiu a olhos vistos, e mesmo na Índia rural mais recôndita, a escola parece ter um valor inestimável e ser para a população uma esperança de uma vida melhor. A Índia parece no caminho certo para bem das pessoas.

No entanto, o olhar de uma criança que nos pede dinheiro é capaz de desmontar qualquer coração e repor nele toda a angústia que a Índia é capaz de gerar. Olhos simples e profundos, ternos mas sofredores, interesseiros mas genuínos. Essa Índia, provavelmente, será intemporal.

Nota: O artigo está ilustrado com fotografias da viagem de 2007.

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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3 Comentários

  1. Andreia diz: Responder

    Sem dúvida um relato impressionante. Numa constante descoberta sobre a Índia, dei de caras com o vosso Blog. Não conheço esta realidade, mas tenho a certeza que será um sítio que visitarei quando me sentir preparada (ou achar estar). OBRIGADO

  2. Muito bom, Rui.

  3. Maria Motas diz: Responder

    Espetacular, adorei

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