Percorrer o Himachal Pradesh de Kalpa a Shimla, passando por Sarahan | Índia

Percorrer o Himachal Pradesh de Kalpa a Shimla, passando por Sarahan | Índia

Estávamos prestes a iniciar o último troço do circuito Spiti-Kinnaur, que nos levou por algumas das mais belas paisagens dos Himalaias indianos. Bem cedo, deixámos a aldeia de Kalpa, e dissemos adeus ao maciço de Kinnaur Kailash, escondido por trás das nuvens da manhã. Íamos a caminho de Shimla.

O nosso destino final nesse dia era a cidade de Shimla, antiga capital de verão dos ingleses, assim escolhida devido ao seu clima montanhoso mais fresco. Apanhámos um autocarro em direcção a Sarahan, onde visitaríamos o templo de Bhimakali, um templo dedicado à deusa Kali.

A estrada continua a ser espectacular, embora num grau diferente da estrada entre Nako e Rekong Peo. Para chegar a Sarahan, saímos do autocarro na cidade de Jeori, e dali apanhámos um táxi que nos levou a Sarahan, por uma estrada improvisada, pois a principal ligação tinha sido cortada por um deslizamento de terras. As monções faziam-se sentir.

SARAHAN

Em Sarahan, embora ainda no distrito de Kinnaur, já estamos definitivamente longe do panorama cultural e religioso de Spiti. A influência tibetana continua a fazer-se sentir, por exemplo na arquitectura dos templos hindus, e estamos em plena região montanhosa mas a uma altitude significativamente menos elevada (2165 m).

A estrada principal que liga Jeori a Sarahan estava intransitável devido à queda de uma ponte com as chuvas da monção. Sem possibilidade de apanhar autocarro ou riquexó, restou-nos o táxi. Atravessámos assim o vale das Maças e alcançámos o templo magnífico. 

O templo de Sarahan é uma reconstrução das torres originais do século XII, usando uma técnica antiga, alternando camadas de madeira e de pedra, de forma a tornar os edifícios mais resistentes a sismos.

As restrições de entrada são rigorosamente implementadas, como por exemplo a proibição da entrada de qualquer artigo em pele de animal. Não obstante, num pequeno templo ao lado fizeram-se sacrifícios humanos até ao século XVIII…

O Complexo do Templo de Bhimakali tem as suas origens no palácio dos reis Bushahr de Rampur, e é um complexo de pátios separados por edifícios em madeira, que levam ao pátio principal e às duas torres gémeas, edifícios que albergam a divindade ali adorada, uma representação de Bhimakali, uma das muitas formas da deusa Kali.

As portas que separam os pátios são extremamente decoradas, sendo as portas do segundo pátio de prata finamente trabalhada com representações de deuses hindus. No pátio principal acede-se à plataforma elevada onde se situa as torres gémeas. Uma delas, ligeiramente inclinada, era o templo principal até ao início do século XX, quando um terramoto a danificou.

A outra tornou-se desde então o santuário da divindade de Bhimakali, onde se pode entrar, mas não pudemos tirar fotos, pois as restrições na entrada são rigidamente implementadas por um guarda à entrada do pátio. Tivemos de colocar num cacifo tudo o que trazíamos, incluindo as meias que trazíamos nos pés!

As varandas esculpidas, no andar superior da torre principal, são lindíssimas, e o complexo forma um conjunto harmonioso, mas as nuvens e neblina não ajudavam a enquadrar o templo no contexto das montanhas que o rodeiam, pois só tivemos alguns momentos de sol envergonhado durante a nossa visita.

Depois de sair do templo, voltamos a cruzar o Vale das Maças de regresso a Jeori. Aí, e de volta à estrada principal, apanhámos outro autocarro, desta vez em direcção a Shimla.

Dicas

  • Há vários autocarros por dia de Rekong Peo para Shimla. Os autocarros começam às 5h da manhã e seguem-se a todas as horas. Todos os autocarros param em Jeori (3h30 de viagem).
  • Qualquer autocarro que faça a ligação entre Shimla e Rekong Peo pára em Jeori. Pode apanhar esses autocarros na estrada no centro da cidade.
  • Para chegar de Jeori a Sarahan é necessário apanhar um autocarro, riquexó ou táxi para fazer os 17 km que as separam. O táxi, ida e volta, com tempo de espera no templo, custou-nos 1000 rupias.

ESTRADA ENTRE SARAHAN E SHIMLA

A viagem era longa e a chuva não deu tréguas. Durante o percurso abateu-se sobre nós uma chuva intensa. Eram as monções a chegar com toda a força. Foram quase oito horas de viagem, ao contrário das cinco que estavam previstas. A estrada encheu-se de terra, lama e água. As árvores esvoaçavam ao sabor do vento.

O autocarro onde seguíamos nem sequer tinha pára-brisas! Que loucura! Água, lama, terra, pedras, tudo escorria vertente abaixo e estávamos mesmo a ver quando éramos os seguintes.

O nosso motorista usava e abusava da buzina, que emitia uma longa série de sons estridentes. Estávamos definitivamente de volta à Índia. A viagem foi longa, muito longa, e só chegámos a Shimla já de noite. Chovia torrencialmente, e só descansámos quando o táxi que apanhámos nos deixou à porta do hotel Gulmag Regency. No dia seguinte, exploraríamos esta cidade emblemática criada pelos ingleses para fugir ao calor das planícies indianas.

SHIMLA

O tempo em Shimla estava extremamente chuvoso, com uma neblina constante que não deixava entrever quase nada da paisagem circundante. Aproveitámos os intervalos entre a chuva para visitar as principais atracções da cidade, nomeadamente os seus mercados e o centro histórico, onde se destaca a Christ Church, de 1846.

A principal via nesta zona é o “The Mall”, uma avenida pedonal de 7 km de comprimento, onde se distribuem as lojas e os edifícios mais emblemáticos, como a Câmara Municipal (Town Hall), o Posto de Correios (Post Office) e o edifício da administração dos caminhos-de-ferro (Railway Board Building).

Podíamos ter feito mais umas caminhadas (por exemplo, até ao templo Jakhu, em honra do deus Hanuman), mas o tempo não estava propício. Acabámos por recolher ao hotel, até porque nesse mesmo dia tínhamos marcada uma das viagens míticas de comboio na Índia, o “Toy Train”, entre Shimla e Kalka.

Dicas

  • Ficamos alojados no Hotel Gulmag Regency, no centro de Shimla. O hotel fica a poucos metros a pé do The Mall mas tem a vantagem do táxi nos poder levar lá, já que nos 7 km do The Mall o trânsito não passa. O hotel tem restaurante e a comida é maravilhosa. Pedimos um “butter chicken” com “naan” para o quarto e lambuzámo-nos.

TOY TRAIN

Apanhámos o Toy Train, um pequeno comboio que liga Shimla a Kalka, num trajecto de 96 km, que atravessa 102 túneis e 988 pontes. Saímos de Shimla da parte da tarde e, embora tivessemos feito parte da viagem já de noite, a chuva de monção tornou a paisagem extremamente bela ao atravessarmos a floresta verdejante.

Dicas

  • Os bilhetes do Toy Train estão incluídos no India Rail Pass.
  • Não há classes no Toy Train, só uma mini carruagem.
  • Há vários Toy Trains por dia de Shimla em direcção a Kalka.
Número do comboio Nome do comboio Hora de partida Hora de chegada
52456 Himalayan Queen 10:30 AM 4:05 PM
52458 KLK SML 2:25 PM 8:10 PM
52452 Shivalik Dlx Exp 5:40 PM 10:20 PM
52454 Kalka Shimla Exp 6:15 PM 11:15 PM
72452 Rail Motor 11:30 AM 4:25 PM
  • De Kalpa a Shimla também há vários Toy Trains por dia.
Número do comboio Nome do comboio Hora de partida Hora de chegada
52457 KLK SML Pass 4:00 AM 9:15 AM
52451 Shivalik Dix Exp 5:30 AM 10:15 AM
52453 Kalka Shimla Exp 6:00 AM 11:00 AM
52455 Himalayan Queen 12:10 PM 5:20 PM
72451 Rail Motor 11:35 AM 3:40 PM

A nossa viagem pelos Himalaias indianos tinha chegado ao fim. Iniciava-se uma nova fase da nossa viagem pela Índia, explorando a parte central do subcontinente, nos estados de Maharashtra e Karnataka, visitando locais como Sanchi, Gwalior, Badami e Hampi. Novas aventuras nos esperavam, mas os Himalaias ficaram, novamente, dez anos depois, marcados indelevelmente nos nossos corações. Não sabemos quando, mas um dia voltaremos.

Pode ver o video desta aventura aqui

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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