Os Himalaias indianos e o vale de Spiti, de Tabo a Kalpa | Índia

Os Himalaias indianos e o vale de Spiti, de Tabo a Kalpa | Índia

Tabo ficaria para trás e o vale de Spiti também estava quase a ficar. Era hora de seguir viagem pelos Himalaias indianos. E que viagem. Esta Índia estava a ser muito mais do que poderíamos sequer imaginar. No fundo, é para isso que viajamos. Viajámos para ser surpreendidos.

1. Estrada entre Tabo a Nako

Da cidade de Tabo, apanhámos um autocarro que nos levaria a Nako, e daí outro que nos deixaria no nosso destino, a aldeia de Kalpa, ainda nos Himalaias indianos.

A estrada é um assombro aos sentidos e um teste às nossas vertigens. Quem as tem, ou as perder, ou vai sofrer muito. O autocarro atravessa estradas de montanha vertiginosas dos Himalaias indianos, onde o motorista tem de fazer manobras para conseguir passar com os dois rodados. Por vezes, o autocarro circula com apenas três rodas assentes na estrada. Não é fácil lidar com as emoções de perigo constante.

Segurávamo-nos ao banco do autocarro, escondíamos a cara e colávamo-nos aos bancos. Arrepiava. Mas havia que confiar no motorista. Aqueles motoristas fazem esta estrada todos os dias. Conduzem devagar e com muita cautela. Eram de confiança e nós confiamos-lhes a nossa vida. A determinada altura até conseguimos adormecer. Para acordar momentos depois com verticalidades ainda maiores. Que loucura! Mas uma loucura boa, muito boa. Uma viagem que jamais esqueceremos pelos Himalaias indianos.

Dicas

  • Há um autocarro directo de Tabo para Rekong Peo (230 rupias) todos os dias às 5h da manhã (pára em Nako). Há um autocarro que sai de Kaza e passa por Tabo, por volta das 9h da manhã, e que também vai para Rekong Peo e que também param em Nako. Não se esqueça que para fazer esta viagem precisa de permissão. Deve tirá-la em Kaza. Pode ver mais aqui.
  • Escolha sentar-se do lado direito do autocarro para desfrutar da viagem em toda a sua plenitude. Vertigens, sim, muitas. Mas é a experiência de uma vida nos Himalaias indianos.
  • Para passar de Sumdo a Rekong Peo, para sair do Vale de Spiti, é necessário ter uma permissão. Essa permissão só pode ser tirada em Kaza ou Rekong Peo. Nós tiramos em Kaza, no Assistant Deputy Commissioners Office (abre das 10h – 13h30 e das 14h – 17h, de segunda a sábado), bem perto do Hotel Deysor. A permissão é gratuita, e demora cerca de 30 minutos a tirar. No entanto, precisa de ter um impresso que se compra na drogaria Ashoka (Ashoka Stationers) (do outro lado da praça), três fotografias de passe, fotocópias do passaporte e da folha do visto. É fácil de obter.

2. Sumdo

A 27 km de Tabo, a aldeia de Sumdo é um dos pontos de entrada na área de acesso restrito, para a qual se tem de ter uma permissão tirada em Kaza, ou em Rekong Peo (se fizéssemos o percurso no sentido contrário). A partir dali, deixámos o vale de Spiti para trás, entrando no distrito de Kinnaur e no vale de Hangrang, seguindo o percurso do rio Sutlej.

A poucos quilómetros da fronteira com o Tibete (sob ocupação chinesa), o cenário muda, tornando-se menos aberto e não tão luminoso. Quando chegámos a Sumdo, uma aldeia que mais parece um interposto militar e posto de controle fronteiriço, parámos para mostrar os documentos e as permissões. Todos saem do autocarro, entrando no edifício oficial do exercito indiano. Há casas de banho, felizmente, porque já ando mal dos intestinos há alguns dias. O controle é rápido e a viagem prossegue por um vale igualmente memorável e vertiginoso. Esta aldeia marca o fim do Vale de Spiti.

3. Nako

A nossa paragem seguinte, a aldeia de Nako, é uma das mais belas da região, com uma perspectiva fabulosa sobre as montanhas vizinhas dos Himalaias indianos.

O lago, as construções tradicionais, o mosteiro de Gompa, tudo aliado à envolvência, fazem desta aldeia uma paragem obrigatória, mas tínhamos traçado o nosso itinerário de outra forma.

Se tivéssemos mais tempo, teríamos ficado ali a dormir uma noite, mas resolvemos seguir caminho. A paragem foi curta mas deu para um passeio pela aldeia e para contemplar as magníficas vistas sobre o vale e sobre a aldeia de Leo no fundo do vale dos Himalaias indianos.

4. Pela estrada até Rekong Peo

A partir dali, a estrada transforma-se numa das mais espectaculares do mundo (se é que ainda podia melhorar), com precipícios e paredes verticais que nos levam a olhar para o rio que flui centenas de metros abaixo, e nos deixam a pensar como foi possível construir esta via de comunicação, e mantê-la em funcionamento, e como é possível por vezes o cruzamento de veículos.

Um percurso pelos Himalaias indianos não aconselhável a pessoas com problemas cardíacos!

5. Rekong Peo

Rekong Peo é o centro administrativo do distrito de Kinnaur, e ali já estamos definitivamente longe de Spiti e da sua tranquilidade. Ali já impera o ritmo indiano, com as suas multidões e o barulho daí resultante. A cidade em si não tem grande interesse, aparte para quem tira lá as permissões para seguir caminho.

Nós resolvemos acabar o dia em Kalpa, uma pequena aldeia a 7 km de Rekong Peo, percorridos num autocarro que não poderia ter sido mais antagónico em comparação com os nossos dias passados em Spiti. Parecíamos sardinhas em lata, com música aos berros, e o autocarro parecia ter sempre espaço para mais passageiros. Demorou 40 minutos a percorrer a pequena distância, mas finalmente chegámos. Já não estávamos em Spiti, mas ainda estávamos nos Himalaias indianos.

Dicas

  • Há alguns autocarros por dia de Rekong Peo para Kalpa (15 rupias), geralmente de duas em duas horas. Estes autocarros apanham os viajantes em frente aos correios, do lado oposto da Estação de Autocarros de Rekong Peo. Geralmente já vêm cheios. É a Índia. Felizmente há sempre espaço para mais um!
  • Há alojamentos em Rekong Peo ao lado da estação de autocarro. Podem ser uma boa opção no caso de chegarem já noite à cidade. Caso contrário, Kalpa é muito mais interessante.

Veja aqui o video da nossa aventura no Vale de Spiti. 

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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2 Comentários

  1. Já tinha muita curiosidade em conhecer a região do Ladakh e agora, depois de ler todos estes vossos artigos sobre o vale de Spiti, fiquei ainda com mais vontade de explorar esse “cantinho” da Índia. Mesmo sem lá ter ido (ainda!), estou certo que este extremo norte do país será a “minha” Índia (muito mais do que o Rajastão, onde já estive). Grande abraço e obrigado pela inspiração.

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada Filipe. Esta é a Índia do Rui. Ele adora e sente-se em “casa”. Eu gosto mais da Índia hindu, mas é por isso que as nossas viagens se complementam tão bem. Esta Índia é deslumbrante e tão remota e isolada que nem parece deste planeta. É completamente deslumbrante. O Rajastão é só uma “fatia” da Índia. Há muitas mais Índias e por isso é que nós somos tão apaixonados pelo país. Cada canto é tão diferente do outro! É demais, demais. 😀

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