Visitar KASHGAR – Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Quando chegamos a Kashgar, a nossa primeira cidade na China, na Rota da Seda, tínhamos de comprar bilhetes de comboio para as viagens que teríamos que fazer nas semanas seguintes. É sabido que comprar bilhetes de comboio na China é uma tarefa hercúlea. As viagens são muito baratas (até para os parâmetros chineses) e os bilhetes podem ser adquiridos nas estações ou online 18 dias antes. No mês de Agosto há imensos estudantes que viajam (devido às férias escolares) e muitos regressam a casa no final do mês e inicio de Setembro para começarem um novo ano escolar.

Chegamos a Kashgar a 22 de Agosto e como tal precisávamos de adquirir bilhetes para os dias mais concorridos do ano.

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Da primeira vez que estivemos na China (em 2009, durante a nossa viagem a bordo do Transmongol) já tínhamos experimentado a adrenalina de enfrentar filas enormes nas estações de comboio para adquirir bilhetes. Sabíamos que se fossemos à estação, para além da barreira linguística, teríamos que perder o dia inteiro nas filas sem saber se conseguiríamos comprar alguma coisa.  Sendo assim, decidimos pedir ao recepcionista no nosso hostel para nos comprar os bilhetes online. Em troca teríamos que pagar 20 yuans (aproximadamente 2€) de comissão por cada bilhete. E, acreditem, essa comissão vale cada cêntimo.

Tinha feito uma pesquisa intensíssima na internet e sabia exactamente o horário e o número dos comboios cujos bilhetes necessitávamos. No entanto, quando o rapaz começou a fazer a pesquisa descobrimos que já não haviam bilhetes disponíveis para algumas das viagens que queríamos fazer. O maior problema era a viagem para sair de Kashgar. Nos próximos 12 dias não haviam bilhetes de comboio. Isto significava uma coisa: estávamos “presos” em Kashgar por duas semanas.

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Haviam duas opções para contornar esta situação: a primeira, era fazer um voo interno entre Kashgar e Urunqi e a segunda, era fazer a viagem de autocarro que demoraria 24 horas. A primeira opção estava fora de questão porque estávamos a fazer a viagem da Rota da Seda por terra. A segunda opção mostrava-se difícil porque os bilhetes de autocarro têm que ser comprados por nós nas estações e obrigam a horas de fila intermináveis.

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Mas, a segunda opção era a nossa única opção. Sendo assim, no dia seguinte, em que íamos para Caracórum, passamos pela estação pela manhã. Precisávamos dos bilhetes para dali a 6 dias. Quando cheguei à estação ia tendo um colapso cardíaco. Haviam centenas de chineses aglomerados na entrada e os policias não os deixavam entrar porque o interior da estação estava apinhado de gente.

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Peguei nos meus passaportes (vantagens de ser estrangeiro) e, empurrando de um lado e do outro, abri caminho entre os chineses e fui até à porta onde estavam os polícias. Mostrei-lhes os passaportes e mandaram-me entrar. Lá dentro uma polícia chinesa pergunta-me (penso eu) para onde queria viajar. Respondo: Turpan. Ela aponta-me para uma fila com mais de 200 pessoas. Não queria acreditar! Contornei a fila e tentei entrar pelo lado, fazendo-me de “burra” e aproveitando o facto de não falar chinês para “dar o golpe”. Quando alguém olhava para mim com um ar ameaçador eu encolhia os ombros e dizia “I don’t understand chinese, sorry!” Esta minha estratégia levou-me até ao inicio de uma fila em apenas 3 minutos. Mas…

– Tickets to kyrgystan only! Diz-me o chinês no guiché.

Nem queria acreditar. Há que voltar para a fila que a mulher polícia me tinha apontado. Estava cada vez maior. Era impossível enfrentar aquela fila. Se ali ficasse, perderia mais de 4 ou 5 horas e lá se ia a nossa viagem para conhecer a estrada de Caracórum que liga a China ao Paquistão. Estava num impasse. Se ficasse na fila a nossa viagem a Caracórum ficaria ameaçada. Se me fosse embora, faria a estrada de Caracórum até ao Paquistão mas a probabilidade de arranjar  bilhetes de autocarro para sair de Kasghar era cada vez menor. Era necessário tomar uma decisão rápida. Estava sozinha porque o Rui não tinha conseguido entrar na estação e esperava por mim lá fora. Mas, para situações extremas há que tomar medidas extremas, certo?!

Fui ter com a mulher polícia e num acto de desespero tentei explicar-lhe que não tinha tempo para esperar pelo bilhete. Ela não falava inglês e o meu chinês, convenhamos, só é perceptível por mim e por mais dois ou três chineses! Mas, o “please”, repetido várias vezes e um ar desesperado faz milagres.

A mulher polícia chamou um polícia que falava inglês e mandou-me tratar das coisas com ele. Apurei ainda mais o meu ar de desespero e pedi-lhe para passar à frente das pessoas para comprar bilhetes para dali a 6 dias. Ele diz-me que na China, os bilhetes de autocarro só podem ser comprados no dia da viagem ou no dia anterior. Não é possível comprar bilhetes de autocarro com tanta antecedência. Teria que regressar à estação no dia anterior à viagem e esperar na fila para comprar esses bilhetes. Aconselhou-me a vir bastante cedo porque os estudantes estão a regressar às escolas e universidades e as filas começam ainda de noite. Não podia acreditar!

Os nossos dias em Kashgar estavam super preenchidos. Tínhamos programado dois dias para a estrada de Caracórum, onde ficaríamos a dormir com uma família quirguize no lago, tínhamos um dia para o mercado de gado e para os arredores da cidade e tínhamos programado uma incursão pelo deserto de Taklamakan. Para comprar os bilhetes na véspera teríamos que abrir mão da nossa incursão pelo deserto de Taklamakan. Não, não podia ser. Era mau demais…

Resolvi dizer ao polícia que ia seis dias para as montanhas e que só chegaria a Kashgar ao fim do dia anterior à viagem. Apurei de tal maneira o meu ar de desespero que praticamente chorei à sua frente. Pedi-lhe tanto e tantas vezes que abrisse uma excepção e me vendesse os bilhetes agora que ele chamou o seu superior para lhe explicar a minha situação. Eu, repetia a cada 5 segundos “please” e expunha o meu ar desesperado.

O supervisor apontou para o polícia e ele chamou-me. A única coisa que podia fazer por mim era ficar-me com o dinheiro dos bilhetes, comprá-los na véspera, e depois eu viria levantá-los na noite anterior ou na manhã seguinte. Teria que lhe dar 900 yuans (aproximadamente 100€). Era um tiro no escuro. Podia ficar sem bilhetes e sem dinheiro mas resolvi arriscar. Ele deu-me o seu nome e número de telefone. Se fosse preciso alguma coisa quando eu viesse buscar os bilhetes e não o encontrasse poderia ligar-lhe. Com o coração nas mãos, sai da estação. Expliquei as coisas ao Rui que me diz:

– Carla, já fomos!

Havia essa hipótese mas também havia a hipótese de as coisas correrem bem. Havia que arriscar.

Sendo assim, nesses dias fomos para Caracórum, fomos ao mercado de gado e fomos ao deserto de Taklamakan. Quando regressamos do deserto fomos logo à estação. O meu corpo até tremia por dentro. Se não arranjássemos bilhetes ficávamos “presos” em Kashgar. Quando vi o polícia ele riu-se logo para mim e chamou-me. Disse.-me que já tinha os bilhetes para Turpan, sairia às 10.45h da manhã seguinte. Agarrei-me logo a ele e dei-lhe um grande abraço e um beijo.

– You are my chinese best friend!- Disse-lhe eu.

Ele fartou-se de rir. Tinha-nos arranjado os bilhetes e isso permitiria-nos fazer a nossa viagem tal como estava prevista e visitar tudo aquilo que queríamos na China. Se não arranjássemos esta ligação teríamos que ficar mais dias em Kashgar e abdicar, provavelmente, da região de Amdo, no planalto tibetano. No dia seguinte, o meu amigo polícia até nos veio ajudar a embarcar no autocarro. Despedimo-nos dele como se de um amigo se tratasse. E, na realidade, o polícia chinês, de seu nome Abdullah, foi um verdadeiro amigo.

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

A viagem, essa, foi igualmente atribulada, com paragens em casas de banho dignas de filmes de terror, comida de beira de estrada com cabeças de cabra a boiar e um “descarregar”das nossa pessoas numa autoestrada a 50 km de Turpan. Bem, mas isso são outras aventuras por terras da China. O importante é que tínhamos saído de Kashgar e chegado a Turpan. O resto é conversa.

Visitar KASHGAR - Como é que eu acabo esta história agarrada aos beijos a um polícia chinês? | China

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

More Posts - Facebook - Google Plus - Flickr - YouTube

.

PROGRAME A SUA VIAGEM

  Faça as suas reservas através das parcerias do nosso blogue. Você NÃO PAGA MAIS, nós ganhamos uma pequena comissão. Assim conseguimos manter o blogue com opiniões isentas.

Resultado de imagem para hotel icon Reserve o hotel no Booking.com e encontre as melhores promoções. Reserve e cancele sempre que necessitar.

Resultado de imagem para tourism iconMarque os seus bilhetes nos monumentos e tours, evitando filas usando o Get Your Guide.

Imagem relacionada  Reserve os seus voos com a Skyscanner. Garanta os melhores preços.

Resultado de imagem para car icon  Alugue carro usando o RentalCars, comparando e escolhendo o melhor preço antes de viajar.

Resultado de imagem para saúde icon  Faça seguro de viagem na Iati Seguros ao menor preço do mercado e com seguros especializados para viajantes. Se usar este link gozará de 5% de desconto.

Resultado de imagem para livro icon  Usamos os guias de viagem da Lonely Planet para preparar as nossas viagens. Se faz o mesmo, pode comprá-los online. Sai mais barato e os portes são grátis a partir dos 35€.

 Este blogue contém links de programas de afiliados.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.