A CIDADE VELHA e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

A CIDADE VELHA e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

Cabo Verde localiza-se numa encruzilhada de ventos e correntes marítimas do oceano Atlântico, e ocupa uma posição estratégica no triângulo Península Ibérica-América-África. Inevitavelmente, estava destinado a ter um papel na expansão dos povos ibéricos para novos mundos por conhecer. Hoje, em Cabo Verde, os testemunhos dessa época são muito poucos. Mas para quem se interessa pela história de Portugal e deseja conhecer o berço do que é hoje Cabo Verde, então o local a visitar é definitivamente a Cidade Velha.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

Cidade Velha é uma pequena vila a cerca de 15 km da Praia, a principal cidade da ilha de Santiago e capital de Cabo Verde. Hoje passa despercebida e é natural que muitos turistas nem olhem duas vezes para o lugarejo. A verdade é que, há 500 anos, era conhecida por “Ribeira Grande”, e seria a primeira capital do arquipélago, até 1769. Fundada em 1462, era à época a primeira cidade construída pelos portugueses na África subsariana, e sede da primeira diocese da costa ocidental africana. Inicialmente, a ilha era um ponto de paragem obrigatório para as embarcações de longo curso, com destino ao oriente e às Américas, fornecendo água potável e provisões indispensáveis para a continuação de uma boa viagem. Prova disso, é o facto de por aqui terem passado Vasco da Gama, em 1497, na sua viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia, e Cristóvão Colombo, em 1498, na sua terceira viagem para as Américas.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

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Seria, no entanto, o comércio transatlântico de escravos que daria o ímpeto necessário ao desenvolvimento de Santiago e à criação de capital para os Portugueses. Santiago passaria a ser uma plataforma de passagem de escravos, vindos da costa ocidental africana, sendo que passavam algum tempo na ilha, durante o qual era feita uma selecção entre os que deveriam permanecer na ilha, para trabalhar na produção de algodão, e os que deveriam ser vendidos.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

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Durante a sua permanência na ilha, estes últimos eram baptizados e aprendiam rudimentos do português, o que os tornava mais aceitáveis para os compradores. Estavam então prontos para a grande viagem para oeste. A Coroa Portuguesa vendia os direitos de exploração do comércio de escravos a empreendedores privados. Para além disso, recebia impostos por cada embarcação que atracava na costa africana para carregar escravos, e também uma comissão na venda de cada escravo em Cabo Verde. Os compradores eram os senhores dos navios espanhóis que os levariam para as Américas, ou portugueses, em direcção ao Brasil. Cabo Verde estava assim na encruzilhada do negócio mais lucrativo do século, acrescido das trocas comerciais de outros produtos: marfim vindo de África, vinho da Europa, prata da América, especiarias da Índia. O Pelourinho da cidade, símbolo do poder municipal e local onde os castigos eram aplicados aos escravos, continua hoje na praça principal como um testemunho silencioso, mas poderoso.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

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A religião sancionava todo o negócio, legitimando-o com a salvação das almas ignorantes de Cristo. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a primeira igreja documentada a ser construída nos trópicos, e a única a sobreviver na Cidade Velha até aos dias de hoje, era o local privilegiado de oração, até à construção da Sé Catedral.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

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Visitamos a primeira no centro da vila, zona baixa da cidade, percorrendo a Rua Banana, a primeira rua urbanizada pelos portugueses na África subsariana, com bonitas casas, mas quando chegamos à igreja, estava fechada. Foi pena, mas fica para uma próxima oportunidade.

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A Sé Catedral foi um projecto ambicioso, com pedra a vir de Portugal para a sua construção, mas os custos e outras preocupações levaram a que as obras, que se iniciaram em 1556, tenham sido finalizadas mais de 100 anos depois, em 1693. Mas as suas paredes duraram pouco… É que a riqueza de uns alimenta a cobiça de outros.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

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Cabo Verde estava condenado a ser um ponto de passagem de riqueza, com pouca a permanecer no arquipélago, e a ser um alvo prioritário de piratas e concorrentes dos portugueses na expansão marítima. A Cidade Velha seria o exemplo paradigmático disso. Indefesa perante um ataque por terra, de quem conseguisse atracar por perto, foi atacada por Francis Drake em 1585, sendo o Forte Real de São Filipe construído em resposta a este ataque.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

Do alto, domina a cidade ainda hoje e é de lá que se têm as melhores vistas, mas a neblina marítima não o permitia quando o visitámos. A cidade acabaria por voltar a ser arrasada em 1712 pelos franceses, e a população decidiu finalmente escolher uma outra localização mais segura e fortificada, correspondente à actual Praia. Gradualmente, a Ribeira Grande transformou-se na Cidade Velha, perdendo a maioria dos seus habitantes, sendo que, para os que por lá se mantiveram, a memória dos tempos gloriosos da cidade se desvaneceu para sempre.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

Hoje, quando visitamos Cidade Velha, as crianças tomam banho junto a ruínas de fortes, e os jovens trabalham nos campos pisando as ruínas de igrejas. As ruínas da Catedral foram reconstruídas em parte, mas o projecto parece ter ficado a meio, apesar da coordenação de um nome grande da arquitectura portuguesa. Visitámos também a Igreja e Convento de São Francisco, após termos subido a rua que é percorrida pela ribeira perene que desemboca bem no centro da vila. A igreja está parcialmente restaurada, mas é com sentimentos mistos que lemos numa placa o agradecimento do governo cabo-verdiano ao estado espanhol e à Rainha de Espanha, patrona do local. Ainda bem que alguém reconhece a importância do local, mas é lamentável que o estado português não defenda e restaure o património desta cidade, testemunho de uma era passada e esquecida, cheia de significado e importância para Portugal, e marco da fundação da nacionalidade cabo-verdiana.

A Cidade Velha e a rota dos escravos (Ilha de Santiago) | Cabo Verde

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Até agora, de pouco valeu à Cidade Velha ter sido eleita Património da UNESCO, ou ter sido votada como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Muito ainda há para fazer; esperemos que os responsáveis políticos de Portugal e Cabo Verde saibam ver a importância da sua história conjunta e reconheçam o papel fundamental desempenhado pela Cidade Velha. Enquanto isso, resta aos viajantes visitar esta cidade e deixar-se cativar pelos seus encantos, como nós o fizemos.

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Onde dormir: 

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  • Santiago Hotel: Optamos por ficar alojados num hotel fora do Plateau. A nossa opção foi ficar na Achada de Santo António porque nos pareceu um bom lugar para conhecer a verdadeira cidade da Praia, longe dos hotéis e restaurantes dos turistas. Foi uma boa opção porque mesmo ao lado haviam várias churrasqueiras com exceente ambinete noturno. O quarto duplo custa cerca de 70 €. Reserve aqui.
  • Hotel Escola da EHTCV: Numa das escalas que fizemos na Praia chegávamos tarde e voávamos cedo, pelo que escolhemos a opção mais barata para dormir. Ficamos no hotel da escola de turismo. O hotel é longe da cidade da Pria porque fica em Palmarejo Grande, a caminho da Cidade Velha. Para quem precisa de um lugar barato é bom porque os táxis e alugueres para lá são quase ao mesmo preço do que para a Praia. Para quem quer um hotel bem localizado no centro da Praia, esta não é uma boa opção. O quarto para duas pessoas custa 22€, com pequeno-almoço. Os quartos não têm casa de banho. Reserve aqui

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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1 Comentário

  1. Claudio Ramos diz: Responder

    Bom dia.
    Gostei muito, embora, texto precisa de algum rigor nas informações sobre os monumentos históricos da Cidade Velha Património Mundial.

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