A história conturbada dos Balcãs e a GUERRA DA JUGOSLÁVIA

A história conturbada dos Balcãs e a GUERRA DA JUGOSLÁVIA

A Guerra da Jugoslávia, ocorrida nos Balcãs no final do século XX, chocou a comunidade internacional pela brutalidade, ódios e atrocidades cometidas pelas várias partes.  Porquê tanto ódio? Porquê tanta violência?

O conflito entre reinos cristãos e o império otomano, mas principalmente o desmembramento deste último e a ingerência das grandes potências europeias explicam a evolução do mapa político dos Balcãs e as razões históricas da Guerra da Jugoslávia. Na nossa viagem pelos Balcãs, pudemos presenciar o quanto as cicatrizes da Guerra da Jugoslávia ainda se fazem sentir e tentámos compreender este conflito visitando museus, lendo livros e conversando com as pessoas.

Este post é uma reflexão para ajudar a compreender as razões históricas da Guerra da Jugoslávia.  Mas para isso temos de recuar quase mil anos.


O REINO MEDIEVAL DA SÉRVIA

O reino da Sérvia, estabelecido por tribos eslavas que se instalaram nos Balcãs nos séculos VI e VII (e mais tarde cristianizadas), foi crescendo e atingiu o seu auge no século XIV, sob o reinado de Stefan Dušan, quando se estendia por grande parte do sudeste da Europa, desde o Danúbio até ao Golfo de Corinto, ocupando um território que correspondia aos actuais países da Sérvia, Montenegro, Kosovo, Albânia, Macedónia e grande parte da Grécia. A capital desse império era Skopje (hoje capital da macedónia) e o território que é hoje o Kosovo estava no centro desse poder. Os seus vizinhos a leste eram os reinos da Bulgária (nessa altura já em fase de fragmentação) e de Bizâncio.

Mas uma grande potência emergia no horizonte, com pretensões de invadir os Balcãs: o império otomano. Com a morte de Dušan, o reino foi dividido entre o seu filho (Stephen Uroš V) e o seu meio-irmão, mas as divisões internas revelaram fraquezas que seriam decisivas face ao avanço dos otomanos. Após a derrota dos sérvios na Batalha de Maritsa, e a perda dos territórios do sul para os otomanos, Uroš V morre sem descendência levando ao final dessa dinastia.

Por essa altura, começou a afirmar-se o Príncipe Lazar, que governava a chamada Sérvia Morávia, e que tinha o sonho do regresso da Grande Sérvia. Apesar do apoio da Igreja Ortodoxa sérvia, a nobreza sérvia não via com bons olhos a ascensão de Lazar, mas este acabou por se impor. Fez frente aos otomanos, alargou o seu território, firmou acordos (nomeadamente pelo casamento de suas filhas) com os reinos búlgaro e húngaro, transformou a Igreja Sérvia num Patriarcado, e mandou construir mosteiros, incluindo o de Ravanica, onde viria a ser enterrado.

Mas Lazar sabia que o grande confronto com os otomanos era inevitável. Em 15 de Junho de 1389, perto de Pristina, deu-se a que ficou conhecida como a Batalha do Kosovo. Cerca de 30.000 homens de cada lado, otomanos contra sérvios, o sultão Murad I (que tinha conquistado Adrianópolis, mudando-lhe o nome para Edirne e nomeando-a como nova capital do império otomano), do outro o Príncipe Lazar. No final da batalha, ambos tinham morrido: o sultão foi apunhalado por um nobre sérvio que se fez passar por desertor; o príncipe foi capturado, levado à presença do sultão (então já ferido de morte) e decapitado. As perdas foram imensas para ambos os lados, mas devastadoras para o lado sérvio, que tinha investido na batalha quase todas as suas forças.

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O DOMÍNIO OTOMANO

Após a batalha, a Sérvia passou a ser oficialmente um estado vassalo do império otomano, embora tenha ainda havido resistência e se tenha formado o “Despotado da Sérvia”, cujos dirigentes foram jogando um “Game of Thrones”, ganhando algum tempo (e território). No entanto, uma segunda Batalha do Kosovo, em 1448, entre Húngaros e Otomanos, com vitória para os últimos, foi a machadada final na resistência face ao avanço otomano. Constantinopla cairia em 1453, e a Sérvia foi finalmente derrotada e assimilada em 1459.

A resistência face aos otomanos continuaria na Hungria, apoiada pela Monarquia de Habsburgo (no que constituiria as raízes do império Austro-Húngaro), sendo que o avanço otomano na Europa se deteria no falhado cerco a Viena em 1683. Mas nos Balcãs ocidentais, seguir-se-iam quase 500 anos de domínio otomano. O modelo de administração otomana respeitava as outras religiões, dando-lhes até uma certa autonomia (em troca, claro, de submissão económica e política), sendo que os Balcãs faziam parte do Millet-i Rum, a divisão do império que reconhecia os cristãos ortodoxos, englobando Gregos, Albaneses, Búlgaros e Sérvios. No entanto, milhares de cristãos ortodoxos, sofrendo a opressão otomana, fugiriam, enquanto muitos converteram-se ao Islão. Gradualmente, no território do Kosovo, a percentagem de sérvios diminuiria, e a etnia albanesa, na sua maioria convertida ao Islão, tornar-se-ia dominante.

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A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA

No século XIX, a degradação interna do império otomano, e a guerra com a Rússia pelo domínio dos Balcãs e do Cáucaso, fez que as ideias nacionalistas nos Balcãs começassem a tomar forma, em particular da Sérvia. Em 1878, com a vitória russa na guerra, o império otomano teria de ceder. No Tratado de Berlim, a Rússia e as potências europeias ocidentais decretam uma reconfiguração do território dos Balcãs. É reconhecida a independência da Roménia, Sérvia e Montenegro, deixando a questão da Bulgária por resolver. A Bósnia continuaria sob ocupação do império Austro-Húngaro, enquanto o território correspondendo aos actuais países da Albânia, Kosovo e Macedónia continuaria a fazer parte do império otomano.

O Kosovo torna-se assim a primeira linha de defesa do império otomano. Milhares de muçulmanos (na sua maioria de etnia albanesa) são expulsos de zonas incorporadas na Sérvia, e têm de fugir para o Kosovo. Ao mesmo tempo, ocorrem massacres de população sérvia no território do Kosovo.

No início do século XX, a Liga Balcânica (Sérvia, Montenegro, Grécia e Bulgária) revolta-se contra o Império Otomano, dando origem à Primeira Guerra dos Balcãs (1912-1913), tendo como desfecho a derrota dos otomanos e a sua expulsão da Europa, e os espólios divididos entre os vencedores. Por pressão do Império Austro-Húngaro e da Itália, é criado um estado independente da Albânia, mas o território do Kosovo (correspondendo a cerca de um terço da área da Albânia) é dividido entre a Sérvia e o Montenegro.

A questão da Macedónia acabou por ser o rastilho da dissensão entre os antigos aliados, principalmente entre a Sérvia e a Bulgária (que se tinha tornado independente em 1908), levando à Segunda Guerra dos Balcãs (1913), em que a Bulgária, além de combater os companheiros da Liga dos Balcãs, ainda se viu envolvida em combates com a Roménia e o Império Otomano. Claramente derrotada, acabou por ceder boa parte dos territórios ganhos na Primeira Guerra dos Balcãs, sendo a Macedónia cedida à Sérvia.

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A I GUERRA MUNDIAL

Os Balcãs estavam numa situação altamente instável, e constituíam um verdadeiro barril de pólvora numa disputa entre grandes potências. O que se passaria a seguir lançaria a Europa num conflito tão mortal e devastador que acabou conhecido como a I Guerra Mundial. O Império Austro-Húngaro não via com bons olhos a ascensão da Sérvia como potência regional, e quando o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro presuntivo do império, é assassinado a 28 de junho de 1914, numa visita à capital da Bósnia, Sarajevo, por um nacionalista pertencente a uma organização que defendia a fusão da Bósnia com a Sérvia, estavam lançados os dados para um conflito generalizado.

Para além de fomentar motins, massacres, prisões e extradições, em território bósnio, croata e esloveno, contra população sérvia, o império entrega um ultimato à Sérvia com dez condições exigentes. A Sérvia acaba por aceitá-las a todas, com excepção de uma, a de que fosse iniciada uma investigação judicial contra os cúmplices da conspiração de 28 de Junho, mas com a colaboração do governo Austro-Húngaro. Um mês depois do atentado, a 28 de Julho de 1914, o império Austro-Húngaro declara guerra à Sérvia. O Império Russo, antigo aliado da Sérvia, ordena uma mobilização geral dois dias depois. A Alemanha declara guerra à Rússia, levando a uma mobilização geral no Império Austro-Húngaro. Face à não tomada de posição da França, a Alemanha invade o Luxemburgo e a Bélgica. A França responde e a Bélgica pede o auxílio do Reino Unido, que declara guerra à Alemanha a 4 de Agosto de 1914.

Numa semana, as principais potências europeias estavam oficialmente em guerra.

Nos Balcãs, a I Guerra Mundial teria como consequências perdas humanas avassaladoras (por exemplo, cerca de 30% da população sérvia morre durante o conflito), e mais uma reconfiguração política da região. A Bulgária aliar-se-ia à Alemanha e ao império Austro-Húngaro, voltando a ocupar território da Macedónia (sendo que a linha da frente entre os búlgaros, a norte, e ingleses, franceses, gregos e sérvios, a sul, corresponderia à actual fronteira entre a Macedónia e a Grécia). Com a derrota das Potências Centrais, a Macedónia foi dividida entre a Grécia e o então formado Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que englobava também os territórios do Montenegro, Bósnia e Kosovo. Ao mesmo tempo, a Albânia consegue ficar de fora da “federação de territórios”, estabelecendo-se uma monarquia. Estavam novamente lançados os dados para as guerras que viriam.


II GUERRA MUNDIAL

Após a formação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, após o fim da I Guerra Mundial, os problemas internos começaram imediatamente a sentir-se, nomeadamente pretensões de autonomia por parte da Croácia. A oposição rapidamente se torna armada, e a Sérvia respondeu com o estabelecimento de uma ditadura (monárquica) em 1929, mudando o nome para Reino da Jugoslávia.

Apesar da tentativa da Jugoslávia em se manter neutra, os nazis invadem em 1941. É instaurado um regime fascista na Croácia, com base na oposição no exílio em Itália, o chamado Movimento de Libertação Croata Ustaše. A Bósnia é ocupada pela Itália e pela Alemanha; o Kosovo é incorporado na Albânia controlada pelos italianos; a Macedónia é invadida pela Bulgária e Alemanha; a Sérvia é ocupada pelos Nazis.

Na Croácia, começam imediatamente as perseguições a sérvios e judeus. São estabelecidos campos de concentração e implementa-se um programa de verdadeira “limpeza étnica”. Na Bósnia, os croatas perseguem os bósnios sérvios e judeus bósnios com um zelo que orgulha os nazis. O número de vítimas nunca chegou a ser contabilizado, mas crê-se na ordem de mais de uma centena de milhar. Em resposta, a resistência armada dos “Chetniks” sérvios (também designado “Exército Jugoslavo na Pátria) leva a cabo massacres de população croata na parte leste da Croácia e na Bósnia.

Mas são os partisans comunistas liderados por Tito que tomam a dianteira na Guerra da Jugoslávia face aos nazis e recebem apoio dos aliados. Em Outubro de 1944, Tito entra em Belgrado com o Exercito Vermelho, sendo que, após a retirada dos nazis, as represálias contra o exército croata foram brutais. A Guerra da Jugoslávia contra os nazis tinha chegado ao fim, mas estava lançada uma nova Jugoslávia, desta vez comunista.


A JUGOSLÁVIA DE TITO

Sob o regime comunista de Tito, a Jugoslávia torna-se uma uma federação de repúblicas; a Sérvia vê o seu território diminuído, sendo que a Croácia, Eslovénia, Bósnia, Montenegro e Macedónia obtêm o estatuto de repúblicas. O Kosovo, no entanto, mantém-se apenas como província autónoma. O poder encontra-se concentrado, no entanto, em Belgrado, e os sérvios têm uma presença dominante na máquina federal (forças armadas, governo e polícia). O descontentamento pelo desequilíbrio na partilha do poder foi crescendo ao longo dos anos, em particular nos anos 70, na Croácia e no Kosovo (ao qual é concedido governo autónomo em 1974).

Quando Tito morre, em 1980, as portas estavam abertas para a desagregação e Guerra da Jugoslávia, mas uma nova figura entra paulatinamente na cena política sérvia: Slobodan Milošević.

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A ASCENSÃO DE MILOSEVIC

Uma figura aparentemente inócua, um burocrata do partido, Milošević sobe gradualmente na estrutura do poder, vai recolhendo apoio popular com o reacendimento de tensões entre as minorias sérvias em territórios croata, bósnio e kosovar, e assume que o Kosovo é o coração da Sérvia, o seu centro histórico e cultural. Em Maio de 1989, é eleito presidente da república jugoslava da Sérvia, e suspende o estatuto de autonomia do Kosovo de 1974. Em 28 de junho de 1989, no aniversário dos 600 anos da Batalha do Kosovo, Milošević discursa no local perante uma multidão de um milhão de sérvios, pronunciando um discurso que inflama o nacionalismo sérvio, e onde não afasta a possibilidade de conflitos armados passados 600 anos da derrota com os turcos.

A tensão no parlamento em Belgrado estava em crescendo, e as delegações croatas e eslovena abandonam o Congresso da Liga dos Comunistas da Jugoslávia, em 1990. Após a realização de referendos em 25 de junho de 1991, Croácia e Eslovénia proclamam a independência. Iniciava-se assim o desmembramento e a Guerra da Jugoslávia.

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O DESMEMBRAMENTO E A GUERRA DA JUGOSLÁVIA

A missão política (e militar) de Milošević passou a ser defender a integridade territorial da “Grande Sérvia”, procurando manter, ou anexar (em caso de tentativas de independência), os territórios fora da Sérvia em que a maioria da população fosse de etnia sérvia. Esta estratégia incendiou os ânimos de todas as etnias e, durante a década em que esteve à frente do governo da Sérvia, os Balcãs estiveram a ferro e fogo, sendo que a Guerra da Jugoslávia atingiu proporções nunca vistas na Europa desde o final da II Guerra Mundial.

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ESLOVÉNIA

A Eslovénia, “protegida” territorialmente em relação à Sérvia pela Croácia, e encostada à Áustria, era um país homogéneo em termos étnicos, logo não existindo os problemas que estavam na base dos conflitos nos Balcãs. Ainda assim, o exército sérvio invade a Eslovénia, sendo que a Guerra da Jugoslávia na Eslovénia dura apenas dez dias, após a qual são assinados acordos de paz.

  • A Eslovénia é oficialmente reconhecida por todos os Estados membros da Comunidade Europeia a 15 de Janeiro de 1992, e é admitida como membro da ONU a 22 de Maio. Adere à União Europeia a 1 de Maio de 2004.

MACEDÓNIA

Após um referendo a 8 de Setembro de 1991, a República da Macedónia declara a independência a Janeiro de 1992. É negociado um acordo de separação pacífica, o único entre as antigas repúblicas da Jugoslávia. Existem, no entanto, problemas. Algumas minorias étnicas queixam-se de discriminação, em particular os macedónios de etnia albanesa. Para além disso, a Grécia tem bloqueado a entrada da Macedónia na EU e na NATO, devido a uma polémica com o nome do país, pois os gregos não querem que os macedónios reclamem parte da antiga Macedónia que agora é território grego. Assim, a Grécia propõe que o vizinho se passe a chamar “República da Macedónia do Norte”.

  • Em Setembro de 2018, fez-se um referendo na Macedónia e o sim à alteração do nome ganhou esmagadoramente, mas os resultados não foram vinculativos pois o número de votantes não atingiu 50% dos eleitores. Em Janeiro de 2019, o parlamento macedónio votou pelo sim, e o processo parece bem encaminhado.

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CROÁCIA

Apesar de a Croácia ter conseguido o reconhecimento internacional em Janeiro de 1992, e a admissão como membro da ONU em Maio do mesmo ano, a saída da Jugoslávia não foi pacífica. O Exército Federal tinha tropas em quartéis no território croata e avançou pelo terreno. Milošević dizia querer apenas cuidar da segurança dos sérvios que viviam, especialmente, na autoproclamada República Sérvia de Krajina e na região da Eslavónia, onde eram maioria. A Guerra da Jugoslávia na Croácia prolongou-se por vários anos, causando milhares de vítimas e a deslocação de centenas de milhares de pessoas. Em 1995, os croatas conseguem lançar ofensivas bem-sucedidas e recuperam as regiões separatistas.

  • Sob a pressão da comunidade internacional, são assinados acordos de paz, e a Croácia recupera as suas fronteiras em 1998. A Croácia aderiu à UE em 2013.

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MONTENEGRO

Durante a presidência de Milošević, o Montenegro manteve-se sempre ao lado da Sérvia na Guerra da Jugoslávia, participando activamente nas diferentes frentes de guerra, nomeadamente no bombardeamento de Dubrovnik, na Croácia, e votando pela continuação na Sérvia em 1992. Mas com a derrota em eleições de Milošević (e subsequente prisão), os montenegrinos começaram a rever a sua posição. Em 2006, um referendo determina que pouco mais de 55% dos montenegrinos votam pela independência, que é oficialmente declarada a 3 de Junho de 2006. O Montenegro é admitido como membro da ONU no mesmo mês.

  • Em 17 de dezembro de 2010 foi concedido ao Montenegro o estatuto de candidato à adesão à União Europeia, mas o processo de adesão ainda não foi concluído. Uma questão que tem levantado polémica foi a adesão unilateral do Montenegro ao euro, em 2002, sem cumprir os critérios de convergência, com a autorização do Banco Central Europeu.

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BÓSNIA E HERZEGOVINA

Em 1991, apesar da guerra entra a Croácia e a Sérvia, os dois presidentes tinham um acordo secreto de repartição da Bósnia entre os dois. A Bósnia e Herzegovina declara, no entanto, independência a 15 de Outubro de 1991 e reconhecida internacionalmente em Abril de 1992. Mas, nessa altura, já o exército sérvio tinha invadido o território e as regiões da Bósnia e Herzegovina com maioria sérvia tinham formado uma “República Sérvia” (Srpska), que proclamou a independência um dia depois do reconhecimento internacional da Bósnia e Herzegovina.

Milošević apoia militar e politicamente Radovan Karadžić, presidente da República Srpska, e seguir-se-iam três anos de uma guerra civil brutal e sanguinária. Sarajevo está na linha da frente e sofre um cerco que durará entre 5 de Abril de 1992 e 29 de Fevereiro de 1996, o mais longo cerco a uma capital na história da guerra moderna. Em 1993, abre-se uma nova frente de Guerra com os croatas e Mostar é bombardeada. A comunidade internacional assiste horrorizada a notícias de campos de concentração e campos de violação construídos pelos sérvios, mas há atrocidades também cometidas sobre a população sérvia. É formada a Força de Proteção das Nações Unidas (em inglês: United Nations Protection Force, UNPROFOR) em 1994, com o escalar da violência, em particular em Sarajevo, a NATO começa a bombardear o terreno.

Os sérvios, no entanto, não recuam, e chegam a usar tropas da UNPROFOR como escudos humanos nos bombardeamentos. Em Julho de 1995, uma zona declarada como “segura” pelas forças da ONU, em Srebrenica, é tomada pelos sérvios comandados pelo general Ratko Mladic. Nos dias seguintes, cerca de 10.000 bósnios muçulmanos são mortos e atirados para valas comuns nas montanhas, no maior massacre colectivo na Europa desde a II Guerra Mundial. Em Setembro de 1995, os ataques aéreos da NATO intensificam-se e os sérvios recuam.

O Quadro Geral para a Paz na Bósnia e Herzegovina, também conhecido como Acordo de Dayton é formalmente assinado em Paris a 14 de Dezembro de 1995, pondo fim ao conflito de três anos e meio na Bósnia e Herzegovina. Alguns incidentes ainda se verificam em Sarajevo, no entanto. A República Srpska volta a integrar-se na Bósnia e Herzegovina, mas com uma autonomia alargada, com funções constitucionais, legislativas e judiciais separadas da Bósnia e Herzegovina. Apesar de Sarajevo continuar a ser oficialmente a sua capital, a Assembleia Nacional e o Governo da República Srpska têm as suas sedes em Banja Luka.

  • As forças da ONU permaneceram no terreno até 2002, sendo sucedidas por uma missão policial da UE, até 2012. A Bósnia e Herzegovina é um candidato potencial à entrada na UE.

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KOSOVO

Terminado o conflito da Bósnia e Herzegovina, aumentaram as tensões entre separatistas de origem albanesa e o governo sérvio, uma vez que a questão do Kosovo não foi tocado nos Acordos de Dayton, e em 1998 começa o confronto entre as forças sérvias e o Exército de Libertação do Kosovo, criado em 1996 com vista à separação do Kosovo e à possível criação de uma “Grande Albânia”.

Quase um milhão de albaneses são forçados a fugir para a Albânia e Macedónia, fazendo parte do plano da limpeza étnica da região, e cometem-se atrocidades de ambos os lados. A comunidade internacional pressiona a assinatura de acordos de paz, mas estes fracassam, sendo que os kosovares não aceitam a autonomia, e os sérvios não aceitam a presença da NATO.

A NATO, pela primeira vez na história, sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, inicia os bombardeamentos do Kosovo e Sérvia a 24 de Março de 1999, incluindo o bombardeamento de Belgrado, e, 79 dias depois, a Sérvia aceita o fim da Guerra da Jugoslávia e a instalação de uma missão da ONU no território do Kosovo, tornando-se este um protectorado da NATO e ONU.

Apesar de muitos sérvios terem fugido para a Sérvia com medo de represálias, ainda existe uma população sérvia considerável, principalmente na cidade de Mitrovica, a norte de Pristina, onde houve violência étnica em 2004.

A 17 de Fevereiro de 2008, foi declarada unilateralmente a independência da República do Kosovo. Foi o culminar de um longo processo de afirmação política e territorial, mas que está ainda longe de terminar. A população sérvia do norte do Kosovo mantém, no entanto, o seu desejo de autonomia.

O acordo de Bruxelas, de 2013, prevê que a minoria sérvia pudesse ter polícia e tribunais próprios, mas não foi ainda ratificado por nenhum parlamento.

  • Reconhecido como estado independente por 104 dos 193 estados membro da ONU, e por 23 dos 28 membros da EU, o Kosovo luta por se afirmar, tendo conseguido a admissão como membro de instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, mas não da ONU ou UE.

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NOTA FINAL

Radovan Karadžić foi detido na Sérvia a 21 de Julho de 2008, acusado de crimes de guerra e genocídio na Guerra da Jugoslávia. A 24 de Março de 2016, é considerado culpado por um tribunal internacional nas acusações de genocídio, crimes de guerra e contra humanidade, e foi sentenciado a 40 anos de prisão.

Ratko Mladić foi preso na Sérvia em 26 de Maio de 2011, e a 22 de Novembro de 2017, foi condenado a prisão perpétua por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante a Guerra da Jugoslávia na Bósnia.

A 28 de junho de 2001, Slobodan Milošević é preso na Sérvia e transferido para Haia, acusado por crimes de guerra, contra a humanidade e genocídio, na Guerra da Jugoslávia no Kosovo e na Bósnia e Herzegovina, pelo Tribunal Penal Internacional. O julgamento começou a 12 de fevereiro de 2002, com Milosevic recusando-se a reconhecer a legalidade do tribunal. Milošević foi encontrado morto em sua cela a 11 de março de 2006, sendo que a autópsia revelou que tinha morrido de ataque cardíaco. Apesar de não ter tido direito a um funeral de estado, o seu corpo regressa à sua cidade natal na Sérvia, e em Belgrado cerca de 50.000 pessoas manifestam o seu pesar e apoio a Milošević.

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Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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4 Comentários

  1. Tiago diz: Responder

    Obrigado pela fantástica lição de História 🙂

    1. Carla Mota diz: Responder

      Obrigada, Tiago.

  2. Lusa Pinto diz: Responder

    Após leitura de História com tanto sofrimento pensei apenas – é tão bom ser Português !
    Obrigada po esta lição de História.

    1. Carla Mota diz: Responder

      Verdade. Nós temos alguma dificuldade em entender este fervor dos nacionalismos. É tão bom ser português.

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