Dia 14 – Os astros conjugaram-se num país que não existe – Nagorno Karaback | Crónicas do Rally Mongol

Dia 14 - Os astros conjugaram-se num país que não existe - Nagorno Karaback | Crónicas do Rally Mongol

Nagorno Karaback era o destino do dia. O que não sabíamos era que neste dia, para além do eclipse lunar, mais estrelas se iriam conjugar e enriquecer o nosso destino.

O sol nasceu por trás do lago Sevan, na Arménia. Foi aí que nos lavámos e preparámos para um novo dia. Entre estradas completamente esburacadas, saímos da Arménia, a apenas 60 km do local onde dormirmos. O planalto arménio deu lugar às montanhas e vales de vegetação rasteira. Quando demos por nós, estávamos a entrar em Nagorno Karaback. Apenas uma placa a anunciar “Artsak”, o nome que os karabaques dão ao seu “país”.

Nagorno Karaback é mais um “país” que não existe. Com pretensões de independência desde 1989, quando um referendo “decidiu” a sua independência do Azerbeijão, Nagorno Karaback abraçou a causa contra tudo e contra todos. Desde essa altura, guerra, desilusão, muita esperança e uma forte identidade nacional tem permitido a Karabakh sobreviver no meio de um dos lugares mais conflituosos do mundo. Não há um único país do mundo que os reconheça e, no entanto, a sua determinação persiste.

Entrar no “país” é fácil, bastou-nos conduzir e passar a placa na estrada. Um pouco à frente, sem qualquer fronteira artificial, apareceu-nos um posto de controle, no qual parámos apenas porque queríamos tomar pequeno-almoço. Descobrimos que teríamos de fazer aí o registo. Simples e fácil. Talvez porque um “país” que não é país tenha ainda uma burocracia embrionária. O sorriso dos guardas parecia adivinhar que Nagorno Karaback iria ser um dos pontos altos da nossa viagem.

A viagem da Arménia até Stepanakert é verdadeiramente magnífica, com vales verdejantes e cenários que fazem lembrar os Alpes. Parámos várias vezes, para contemplar a paisagem e respirar o ar puro de mais um lugar esquecido pelo mundo.

Da parte da manhã visitámos dois mosteiros, o Dadivank e o Gandzasar, dois dos mais belos de Nagorno Karaback. Não viemos a Nagorno Karaback para ver mosteiros mas sabemos que este “país”é também a manifestação cultural da igreja cristã no Cáucaso, por isso. não podíamos esquecer essa vertente. O primeiro tem o túmulo e um disciplino de um dos apóstolos de Cristo, o segundo encerra em si uma beleza e devoção que emociona.

A vertente transformista de Nagorno Karaback, como lhe chamam os karabaques, encontrámo-la em Vank, uma cidade curiosa em que um oligarca russa financiou um desenvolvimento “estranho”, com dois restaurantes, um em forma de Titanic (onde almoçámos), escolas e edifícios muito desconcertantes. As casas exibem as placas dos carros abatidos no Azerbeijão durante a guerra!

Para viajar em Nagorno Karaback é necessário tirar um visto no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Stepanakert, a capital do “país” que não existe. 3000 AMD, um formulário e o visto estava no passaporte. Fácil e rápido. Menos de 20 minutos. Talvez sejam os sinais de desburocratização de um “país” que não existe.

Apesar do dia já levar muitas horas a aventuras, só começaria quando chegámos a Shushi, uma das cidades históricas de Karabakh. Tínhamos o contacto de um professor de História, funcionário no museu de Geologia, que sabíamos geria uma guesthouse particular. Saro recebeu-nos de braços abertos. Inflacionou o preço dos quartos mas a minha “veia negociante” da Rota da Seda permitiu-nos negociar o preço para quase metade. E ainda visitámos o museu com visita guiada.

No final da visita, Saro sentou-se no lugar da frente da “burra”, enquanto quatro de nós nos empacotámos no banco traseiro. A sua casa era o nosso destino. Quando o portão de ferro cinzento se abriu todos nós vimos um cenário possível para um filme de terror. Chamar guesthouse à casa do Saro era um exercício de ficção cientifica de alto calibre. No entanto, todos os nossos complexos se desfizeram quando Saro nos montou uma mesa no terraço com chá, vodka, pão, queijo, doces, sumos e muita história à mistura. Passámos a noite a conversar sobre Karabakh, como Saro lhe gosta de chamar, sobre a independência, as guerras, as esperanças e as feridas que um “país” que não existe deixa nas suas gentes. Dissertámos sobre o Cáucaso, geopolítica mundial e muito mais.

A determinada altura Saro saca do telemóvel para nos mostrar a fotografia dele ao lado de Antony Bourdain, no seu episódio sobre a Arménia e Nagorno Karaback. Nenhum de nós queria acreditar no que estávamos a ver. Saro serviu de guia histórico na parte do episódio sobre Nagorno Karaback e foi na sua cozinha que foi preparado o grelhado que impressionou Bourdain.

Por companhia tínhamos ainda um alemão quase sexagenário a fazer uma viagem em honra do filho que cometeu suicídio dois anos antes. A noite foi passada à volta da mesa, conversando e partilhando momentos intimistas e pessoais e ao mesmo tempo mundiais. Tudo iluminados por uma noite de lua cheia, parcialmente apagada pelo maior eclipse lunar do século. Memorável… para todos nós. Foi com certeza mais um dos melhores dias desta incrível viagem…

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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1 Comentário

  1. Marisa Teodósio diz: Responder

    Estoua rever todos os posts atrasados, mas tinha que comentar este. :) Que experiência brutal! Quando daqui a uns anos perguntarem onde estavam durante o eclipse lunar de 2018, terão das respostas mais surpreendentes de todas. Estas memórias são tudo o que vale a pena.

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