A CONFERÊNCIA DE WANNSEE e a solução final da questão judaica | Alemanha

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Das origens do anti-semitismo ao regime nazi

O anti-semitismo é uma longa, longa, história de ódio. Pode dizer-se que, à escala europeia, o sentimento anti-judeu nasceu simultaneamente com a nova religião do cristianismo. Desde cedo, os judeus foram encarados como os responsáveis pela morte de Cristo e, gradualmente, esta tese passou a ser defendida por aqueles que definiam a doutrina da igreja. Na Idade Média, com a separação da Igreja Católica da Ortodoxa, a ameaça islâmica e o fervor das Cruzadas, este sentimento cresceu. Os judeus eram uma minoria religiosa na Europa; e, disseminados, constituíam um alvo fácil. Mitos começaram a espalhar-se pelas populações: os judeus usavam o sangue de crianças cristãs em rituais, adoravam o Diabo e eram infiéis à civilização ocidental emergente, o que levava a serem perpetrados actos de histeria colectiva quando corria a ideia de que uma calamidade era causada pelos judeus, como por exemplo o aparecimento da Peste Negra. Mais tarde, as acções de represálias violentas direccionadas contra judeus pela população, mas muitas vezes encorajadas pelas autoridades, adquiriram uma designação oficial: pogroms (palavra russa que significa “semear destruição”). Estes passaram a ser mais comuns a partir do século XIX, principalmente em território russo e da Europa de Leste. No entanto, a natureza política da integração dos judeus nos países onde viviam é talvez a razão (e ao mesmo tempo consequência) mais sublime do anti-semitismo. Não era permitido aos judeus a posse de terra, o serviço militar, e o funcionalismo público. Era então quase compulsivo os judeus enveredarem pelas áreas mais liberais, literatura, música, teatro, pequena manufactura e comércio, e principalmente finanças (uma vez que a prática de usura era proibida a cristãos). Com isto, cresceram sentimentos e crenças que se tornaram parte da identidade judaica vista pela população em geral: os judeus não trabalhavam no duro, eram frívolos, preferindo o entretenimento e o conhecimento ao trabalho manual; lidavam com dinheiro para não trabalharem e para dar azo à sua cobiça e desejo de enganar os cristãos; eram cobardes e alguém em quem não se podia confiar numa batalha ou guerra, minando os esforços dos povos europeus. Quando, a partir do início do século XVIII, as nações europeias foram decretando constituições e adoptando sistemas políticos baseados na igualdade social, os judeus ganharam uma liberdade inédita, mas o anti-semitismo não desapareceu, mas adquiriu novas formas associadas à luta política e considerações económicas.

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Aos olhos de muitos, os judeus estavam em toda a parte, dominando áreas inteiras do saber, do entretenimento, da actividade política e dos emergentes meios de comunicação. Em particular, os novos partidos mais radicais, marxistas e social-democratas, pareciam ter uma preponderância de membros judeus. No início do século XX, começou a crescer a ideia de uma conspiração judaica a nível global, tirando os empregos a outros em áreas privilegiadas, e mexendo os cordelinhos nos bastidores da cena internacional, culminando com a I Guerra Mundial e a revolução bolchevique. Novos estereótipos espalhavam-se rapidamente em tempos de crise e destruição: os judeus estavam por trás da grande guerra, controlando as finanças dos estados e querendo controlar politicamente todo o continente, e minando internamente a união social e os esforços de guerra, levando à submissão por exemplo da Alemanha. É neste contexto que, na década de 20, o novo Partido Nacional Socialista Alemão escolhe os judeus como alvo preferencial da sua retórica e acção política. A profunda crise económica em que a Alemanha vivia era o terreno perfeito onde crescia a vontade de atirar as culpas para alguém que pudesse arcar com elas, e os judeus eram o alvo preferencial. Mas o anti-semitismo adquire então uma nova e insidiosa faceta, o anti-semitismo racial. Com o avanço da ciência, em particular da biologia e das ideias evolucionistas, diferentes autores começaram a aventar a hipótese da existência de “sub-humanos”, uma parte da população que não partilhava das mesmas características físicas e mentais da maioria e que era encarada como inferior. É esta ideia perniciosa que estaria na origem de toda a ideologia nazi. Para estes, a História baseava-se, não numa luta entre classes sociais, mas sim entre raças. O marxismo era, por definição, um movimento político nascido da intelectualidade judaica. Os socialmente “desajustados”, fosse por deficiência genética, doença, ou opção (por exemplo, sexual), seriam encarados como uma ameaça ao Estado. Para lidar com estas ameaças, o regime servir-se-ia da prisão, esterilização forçada, deportação, eutanásia não autorizada, e por fim o extermínio em massa, numa espiral ascendente de violência e demência, que levaria à “solução final”.

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Visto com o distanciamento histórico que os mais de 80 anos passados nos permitem, a acção do regime nazi parece obedecer a uma lógica e a uma inevitabilidade que poucos na altura puderam prever. Infelizmente, eram muito poucos aqueles que tinham os meios e a presciência de fugir enquanto era tempo. O resto, a esmagadora maioria da população, sofreria o que é ainda hoje considerado como um dos momentos mais negros da História da Humanidade.

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O anti-semitismo racial e o escalar da violência

A 30 de Janeiro de 1933, o Presidente Hindenburg nomeava Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha. Menos de um mês depois, o Reichtag, o edifício onde se reunia o parlamento, ardia e a culpa era atirada aos comunistas. Os nazis aproveitam e, acrescentam uma cláusula de emergência à Constituição, suspendendo a liberdade de expressão e de associação. Estava aberto o caminho para a perseguição aos oponentes políticos do regime. E, do ponto de vista nazi, não eram poucos. Em Março de 1933, dois meses depois de terem subido ao poder, o parlamento tinha sido suspenso, e os partidos políticos ilegalizados. Era construído o primeiro campo de concentração, em Dachau, destinado aos oponentes políticos do regime. A Alemanha era oficialmente uma ditadura. Em 1 de Abril, aconteceu o primeiro boicote nacional ao comércio nas mãos de judeus, e nos meses seguintes, foi aprovada legislação que impedia os judeus de serem funcionários públicos e de acederem a profissões tais como advogados, juízes, médicos e professores. A 14 de Julho, é retirada a nacionalidade alemã a judeus naturalizados. Mas é em Setembro de 1935 que são aprovadas as Leis da Cidadania e Protecção do Sangue e da Honra Alemã, conhecidas hoje como as Leis de Nuremberga. Estas oficializam os judeus como cidadãos de segunda categoria, sem direito à nacionalidade alemã, e proibidos de casar e ter relações sexuais com cidadãos alemães: “um cidadão do Reich é um súbdito do Estado que tenha sangue alemão, ou relacionado, e que prove pela sua conduta que tem a vontade e capacidade de servir com honra o Povo Alemão e o Reich.”.

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Durante os Jogos Olímpicos de 1936, a perseguição abranda, mas a partir de 1938, a iniciativa de guerra e a perseguição aos não arianos andarão de mão dadas. Em Novembro desse ano, na noite de 9 para 10, que ficaria conhecida como a “Noite dos Cristais”, ocorre um pogrom a nível nacional, com sinagogas a arder, lojas e casas de judeus destruídas, cerca de 90 mortes, e 30.000 judeus presos e enviados para os campos de concentração de Dachau, Sachsenhausen, Buchenwald e Mauthausen.

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A 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invade a Polónia, e começa a II Guerra Mundial, com a França e Inglaterra a declararem guerra à Alemanha. Com a anexação de parte da Polónia, e administração de outra sob o nome de “Governo Geral”, o regime nazi encontraria judeus em muito maior número do que aqueles residentes até então em solo alemão e, em Junho de 1940, dá-se início à política dos “guetos”, começando-se a concentrar as populações judaicas das áreas ocupadas em zonas limitadas (e mais tarde seladas) das grandes cidades. Mas seria com a invasão da URSS, a 22 de Junho de 1941, que a questão judaica assumiria proporções bíblicas. De repente, graças à “guerra-relâmpago”, o Reich alemão tinha de lidar com uma vasta expansão de terra e, principalmente, com populações eslavas, consideradas sub-humanas, e com uma forte presença de judeus. O que fazer com tantas bocas para alimentar e controlar? O plano nazi a longo prazo era povoar a Eurásia com colonos alemães que escravizariam as populações locais, aproveitando o “espaço vital” do Reich, e produzindo os produtos alimentares e materiais necessários para os fins civis e militares da Nação. Mas a maioria da população local não era necessária como força de trabalho, e não era possível economicamente sustentar essa franja da população. Estava aberto o caminho para a implementação da “solução final”.

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A Conferência de Wannsee e a solução final da questão judaica

Quando, a 22 de Junho de 1941, os exércitos alemães atravessaram a linha que dividia a Polónia entre as áreas anexadas pela Alemanha e pela URSS, e avançaram rapidamente no terreno, não iam sozinhos. Com eles, avançaram unidades móveis das SS, denominadas Einsatzgruppen, com o objectivo de identificar, reunir e eliminar judeus, assim como oficiais soviéticos e colaboradores. Até à primavera do ano seguinte, seriam mortas mais de 1 milhão de pessoas. As mortes ocorriam com um tiro na nuca, e as vítimas eram atiradas para valas comuns. Mas a grandeza dos números envolvidos, meticulosamente apontados pelos responsáveis alemães, fazia com que, mesmo para os oficiais SS, e populações locais colaborantes, fosse um “trabalho” duro e que deixava marcas psicológicas. A rotatividade dos homens nestas unidades tinha de ser alta e, muito simplesmente, a matança não estava a ser suficientemente eficaz, ficando atrás do avanço no terreno das unidades militares. Algo tinha de ser feito para alterar isto. Pouco mais de um mês após o início da invasão, o Marechal Goering encarregou o chefe da Polícia Política e de Segurança, Richard Heydrich, de tomar medidas para implementar “a solução final da questão judaica”. Embora não se possa provar, é óbvio que Hitler e Himmler estavam por trás desta iniciativa. Heydrich convocaria alguns dos responsáveis civis e militares do regime para uma conferência que teria lugar em Wannsee, perto de Berlim, a 20 de Janeiro de 1942. O seu objectivo era oficializar a filosofia e métodos do extermínio em massa, uniformizar procedimentos, e combinar esforços das diferentes estruturas da máquina civil e militar do Reich. Tudo confidencial, apenas para aqueles presentes. A acta da reunião seria redigida por Adolf Eichmann, oficial da Gestapo responsável pelos “Assuntos judaicos”, e seriam distribuídas 30 cópias, as quais deveriam ser posteriormente destruídas. Uma destas cópias sobreviveu à destruição, e permite-nos ter hoje uma visão privilegiada sobre este momento marcante da história do Holocausto. A Casa da Conferência de Wannsee, onde esta se realizou, é hoje um museu dedicado à história da perseguição e exterminação dos judeus pelos nazis, e é um dos melhores lugares da Alemanha para se aprender e compreender este período negro da Humanidade.

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Mesmo antes da conferência de Wannsee, as SS prosseguiam no terreno a demanda de novos e melhores métodos de matar em massa. Entre Setembro e Dezembro de 1941, foram feitas experiências no campo de concentração de Auschwitz com um gás denominado Zyklon B, e no centro de extermínio de Chelmno, operações de gaseamento foram iniciadas. Mas foi após a conferência de Wannsee que tudo se desenrolou. Todos os participantes exprimiram os seus pontos de vista, uns mais a favor da esterilização, outros a favor do extermínio o mais rápido possível. Mas a verdade é que a decisão já tinha sido tomada pela cúpula nazi, e no terreno as medidas estavam a começar a ser já implementadas. Wannsee foi uma reunião administrativa, para tratar de um problema logístico, e burocrático. Era necessário decidir quais as pessoas que, em relação à solução final da questão judaica, seriam tratadas como judeus: o que fazer às pessoas com sangue “misto”, em primeiro e em segundo grau, às pessoas em casamentos “mistos”, às crianças resultantes desses casamentos. As excepções à regra foram consideradas; a regra seria a deportação e morte. No final, todos concordaram em fazer o seu melhor pela eficácia da solução encontrada.

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Deportações em massa seguir-se-iam nos meses seguintes, trazendo judeus de todos os territórios, principalmente de leste, directamente para os campos de extermínio e de concentração. No campo de extermínio de Belzec, uma equipa especial das SS começou a matar judeus em câmaras de gás em Março de 1942. Entre Março e Dezembro desse ano, mais de 600.000 pessoas seriam mortas em Belzec. Entre Maio de 1942 e Novembro de 1943, mais de 250.000 pessoas seriam mortas no campo de extermínio de Sosibor. Entre Julho de 1942 e Novembro de 1943, mais de 750.000 pessoas seriam mortas no campo de extermínio de Treblinka. E em Auschwitz-Birkenau, até Janeiro de 1945, mais de 850.000 pessoas encontraria o seu fim, a maior parte sem registo, mandadas para as câmaras de gás logo à chegada ao campo de concentração. Os números perdem o seu significado perante tal sofrimento humano, mas são eles que nos permitem ter uma ideia do alcance da “solução final” e do que poderia ter acontecido nos anos seguintes se a Alemanha nazi não tivesse capitulado perante o exército soviético, a leste, e americano e inglês, a oeste. Quando os soldados aliados libertaram os campos ainda em funcionamento no final da guerra, ninguém acreditava no que via. Apesar dos esforços nazis em ocultar provas, eliminar os últimos prisioneiros e destruir instalações, muito ainda sobrevivia aquando da libertação. E o horror ultrapassava em muito a imaginação…

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Quanto ao destino daqueles presentes em Wannsee, alguns viveram até ultrapassar os 80 anos, outros morreram, às suas próprias mãos ou não, antes do final da guerra. Poucos meses depois da conferência de Wannsee, Heydrich morreria de ferimentos resultantes de uma tentativa de assassinato em Praga. Eichmann herdaria a tarefa de levar a cabo a solução encontrada na conferência. E o antigo vendedor e agente de viagens em Viena fê-lo com brio e considerável sucesso. O seu gabinete coordenou e determinou o número de judeus deportados, e foi responsável pelo envio de mais de 400.000 judeus para Auschwitz e outros campos. No final da guerra fugiu disfarçado e acabou por se instalar na Argentina. Em Maio de 1960, era sequestrado pelos serviços secretos israelitas e enviado para Israel. Foi julgado, e em Dezembro de 1961 foi condenado à morte. Foi executado em Jerusalém a 31 de Maio de 1962. Mas nada traria de volta aqueles que tinham partido em sofrimento. À custa da questão judaica, curiosamente, um novo país tinha-se erguido no Médio Oriente, mas novos sofrimentos viriam a caminho. Mas tudo isso tem a sua génese em Wannsee. Churchill disse em 1940, acerca da Batalha de Inglaterra, “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”, mas os nazis deixaram para a história a sua versão macabra, pois também é verdade que, até aquela manhã do dia 20 de Janeiro de 1942, nunca tão poucos tinham decidido tão rápido o futuro de tantos.

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Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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4 Comentários

  1. muito completo a sua postagem, visitei esse lugar e fiquei espantada com a mentalidade da época e todas as desculpas que davam para “justificar” o ódio e mortes. …e é horrível pensar que tem gente que ainda pensa semelhante, q fica cego para a história

    1. Carla Mota diz: Responder

      Verdade. Há gente que parece que não aprendeu nada com a história. Incrível, não é?

  2. Paulo Simões diz: Responder

    A famosa frase de Winston Churchill foi relativamente à Batalha de Inglaterra (1940) e não ao Dia D (1944).

    1. Carla Mota diz: Responder

      Tem toda a razão. Já foi corrigido. Obrigado

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