Riscos naturais em Alta Montanha | Mal de altitude, ventos, avalanches, crevasses

Riscos Naturais em Alta Montanha | Mal de altitude

A Alta Montanha sempre exerceu um fascínio sobre o Homem. Habituado a cruzar o mundo, a empreender diásporas ao longo de desertos quentes, florestas e estepes ou a enfrentar travessias nos pólos, o Homem sempre tentou testar os seus limites. A conquista dos cumes mais altos da Terra foi uma das recentes conquistas da humanidade. A primeira ascensão ao cume de uma montanha com mais de 8000 metros só foi conseguida em 1950, no Annapurna, nos Himalaias, por dois alpinistas franceses. Seguiu-se depois, em 1953, a ascensão de Tenzing Norgay e Edmud Hillary ao Everest, e com eles desencadeou-se um novo fenómeno a que Messner viria a chamar “a conquista do inútil”.

A Alta Montanha corresponde a todas as áreas montanhosas situadas acima dos 2500 metros de altitude (embora possa variar em função de vários factores) e onde, habitualmente existem glaciares. É designada assim pelos montanhistas pois corresponde a áreas elevadas das montanhas onde o ser humano encontra-se exposto a vários perigos e fortes restrições de ordem fisiológica, ambos provocados pela altitude e condições meteorológicas, onde a progressão está dependente da utilização de técnicas específicas. Estas áreas, outrora extremamente remotas e inacessíveis, exerciam um fascínio tremendo sobre o Homem. Hoje, com estradas que cruzam as cordilheiras mais altas do mundo, como a estrada Manali-Leh (Taglang La, com passagem a 5325 metros de altitude), a estrada Leh – Vale de Nubra (Kardung La, com 5602 metros de altitude), ambas na Índia (consideradas as duas estradas mais altas do mundo) o acesso a estes locais ficou bastante facilitado. No entanto, um exemplo muito mais emblemático é a recente estrada que os chineses asfaltaram para levar a tocha olímpica até ao campo base da face norte do Everest. Mas, não foi só a rede viária que chegou a grandes altitudes. A linha Pan-Himalaia, da rede ferroviária chinesa, no percurso entre Chengdu e Lhasa atinge 5072 metros, assim como a linha ferroviária andina que liga Huancavelica a Huancayo, no Peru, cruza os Andes a uma cota de 4816 metros.

Com o passar dos tempos, a Alta Montanha deixa de estar totalmente inacessível e passa a ser mais facilmente conhecida pelo comum dos mortais. No entanto, o Homem, talvez decorrente da sua natureza, e na tentativa de empreender algo novo e chegar onde outros (ou poucos) ainda não chegaram, começa a desenvolver actividades desportivas específicas de Alta Montanha.

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Riscos Naturais a que estão sujeitos os praticantes das actividades desportivas

O ambiente da Alta Montanha expõe os praticantes das actividades desportivas a inúmeros riscos, quer de ordem natural, quer de ordem humana. Enquanto actividades radicais, todos os praticantes têm consciência dos riscos que a sua prática envolve e até certo ponto esses riscos são calculados.

Todo o desportista deve ter consciência dos perigos objectivos e subjectivos que enfrenta, sendo que dentro dos primeiros enquadramos os Riscos Naturais que, grande parte das vezes, fogem ao controle humano, e nos segundos enquadramos os riscos inerentes à figura do desportista. Os perigos subjectivos são aqueles que dependem unicamente do indivíduo. Os perigos objectivos são encarados com mais impotência por parte dos desportistas, no entanto, só o seu conhecimento profundo poderá servir de prevenção. Apesar de poderem ser mais ou menos conhecidos, estes perigos podem ser contornados, mas no caso dos riscos naturais, nunca poderão ser controlados pelo desportista já que o seu desencadear e desenvolvimento está dependente de fenómenos naturais.

1. Perigos Objectivos

Os perigos objectivos são processos e condicionantes naturais que existem independentemente da presença do ser humano. O ambiente de Alta Montanha é por natureza instável e sujeito a alterações rápidas e potenciadoras de risco. Nos designados perigos objectivos, perigos físicos inerentes à estrutura da montanha, podemos distinguir Riscos Geomorfológicos, onde o principal factor de perigo está associado à morfologia de Alta Montanha, e os Riscos Atmosféricos, onde os factores de risco correspondem a situações desenvolvidas no seio da atmosfera. Cada um destes encerra um conjunto de riscos associados e que os desportistas enfrentam nas suas práticas diárias.

1.1. Riscos Geomorfológicos

a) Moreias

Apesar de ocasionarem acidentes de pouca gravidade, alguns acidentes começam por acontecer na aproximação aos ambientes de Alta Montanha, na transposição das moreias. Aqui contam-se alguns entorses e fracturação de membros.

b) Desabamentos de rochas

Já a altitudes mais elevadas continua a existir muita rocha desagrada e disponível. Estes crioclastros podem atingir dimensões consideráveis e mobilizam-se com bastante facilidade nas vertentes aquando da passagem dos desportistas. Estes utilizam-nos como apoios para a sua ascensão aumentando a facilidade de mobilização. Estes podem ser provenientes dos materiais já desagregados mas também dos horns, arestas ou esporões rochosos que se encontram num processo de erosão activo e que devem ser contornados ou transpostos. Na escalada o desprendimento de entaladores pode também provocar o desprendimento de rochas na vertente. Como tal, todos os praticantes destas modalidades desportivas deverão utilizar capacetes como forma de prevenção em caso de desabamento de rochas.

c) Crevasses

As crevasses podem atingir dimensões variadas e constituem um dos principais riscos que os desportistas enfrentam. Estas áreas estão frequentemente cobertas por neve ou pontes de gelo que escondem verdadeiros abismos. Com boa luminosidade é possível identificar a crevasse através da tonalidade do azul do gelo na superfície da neve, no entanto, com nebulosidade e fraca iluminação estes indícios podem não ser visíveis. Normalmente, as crevasses da área de acumulação são mais perigosas do que as crevasses na área de ablação depois do degelo do Inverno, já que são mais difíceis de ver. As crevasses frescas são bem visíveis no gelo glaciar, com paredes verticais, mas à medida que o tempo passa, a água do degelo flui ao longo das paredes da crevasse e estas tornam-se menos íngremes e mais arredondadas. Aqui, é mais seguro caminhar sobre estas áreas, embora possam conter pequenos lagos.  A progressão efectuada no alpinismo deve ser feita da parte da manhã bem cedo para evitar o degelo das pontes que unem as crevasses e enquanto a neve ainda está dura. O salvamento em crevasses recentes na zona de acumulação pode ser difícil uma vez que elas têm paredes concavas, sendo necessário que os alpinistas tenham experiência com cordas. A queda em crevasses raramente termina com o indivíduo no fundo da crevasses já que existe no seu interior antigas pontes de neve colapsadas. À medida que os gelos se movem as crevasses fecham e é comum corpos não recuperados serem embalsamados no gelo e viajarem vários quilómetros até serem recuperados várias décadas depois. Um exemplo disto ocorreu no Maciço do Monte Branco, em 1820, quando três guias foram arrastados por uma avalanche para uma crevasse tendo os seus corpos sido apenas recuperados 43 anos depois e 3km a jusante. Neste caso, os corpos percorreram cerca de 70 m por ano.

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d) Seracs

Os seracs são especialmente perigosos para os desportistas, pois podem quebrar ou virar sem aviso prévio. Alguns dados curiosos permitem apontar os seracs com uma das principais causas de morte na Alta Montanha. Na Suíça, entre 1914 e 1983, as quedas de seracs fizeram 124 mortes. Já nos Himalaias, onde como vimos anteriormente esta é uma das principais causas de acidentes, morreram 11 pessoas, no K2, apenas com queda de seracs no mês de Agosto de 2008. Embora sem dados concretos, é senso comum entre alpinistas que o Shishapangma, nos Himalaias, é uma das montanhas da terra onde a queda dos seracs são especialmente comuns e fatais.

e) Rimayas

As rimayas constituem riscos bastante elevados para os desportistas já que se podem estender até à rocha-mãe e apresentar uma profundidade elevada. No Inverno, as rimayas estão frequentemente cobertas por neve proveniente de avalanches sendo menos perigosa a sua transposição. No Verão, devido ao degelo, constituem obstáculos dificeis de transpor e bastante arriscados.

f) Avalanches

A avalanche corresponde a uma massa de neve e gelo que se desprende de uma vertente a diferentes níveis de velocidade e desliza. Depois da neve se acumular na bacia de recepção começa a transformar-se segundo vários processos físicos relacionados com a acção da temperatura. Isto acarreta mudanças no tamanho e forma do gelo e alteração das suas propriedades físicas e mecânicas. Sendo assim, resulta um manto estratificado com diferentes camadas de neve, umas mais instáveis do que outras, sendo que a existência de uma camada instável pode provocar o desencadear de um processo de avalanche. O material mobilizado pela vertente vai seguir um canal de escoamento e acumular-se no cone de dejecção. As áreas mais utilizadas para ascensões correspondem aos canais de escoamento e são locais com elevados riscos de avalanche. É o caso dos corredores de neve (coulouirs) que correspondem a canais de escoamento ou as cornijas que são áreas de acumulação de neve mas funcionam como bacias de recepção. É possível distinguir três tipos de avalanches, segundo o tipo de neve que causa o seu desprendimento: avalanche de neve fresca (também designada avalanche seca), avalanche em placa (ou fatia) e avalanche húmida (ou de fusão). No entanto, grande parte das avalanches pode conter uma natureza mista já que durante a sua trajectória pode alterar as suas características devido ao material que vai incorporando. A Avalanche de Neve Fresca corresponde à ideia do efeito “bola de neve”. Extremamente devastadoras do ponto de vista material e humano, têm início com o colapso da neve e do gelo por acção da gravidade provocado pelo excesso do seu peso. Esta situação é mais comum depois de fortes quedas de neve e por conseguinte a sua acumulação em áreas instáveis, nomeadamente cornijas. A neve, muito leve, quando se desprende pode atingir velocidades de 100 a 300km/h e mobilizar volumes que podem atingir 200kg/m3. O movimento da avalanche cria um fenómeno de propagação do ar formando uma onda que arrasta tudo na sua passagem. Quando a neve termina o seu trajecto, devido ao encontro com um obstáculo intransponível ou porque chegou ao cone de dejecção, forma um bloco bastante cimentado. A Avalanche em Placa, mais frequente, inicia-se com o desprendimento de uma placa de neve e gelo da superfície que desliza sobre outras placas. O material mobilizado pode atingir 200 a 400kg/m3. As Avalanches de Neve Húmida (ou fusão), frequentes na Primavera, ocorrem quando se inicia o degelo provocado pelo aumento das temperaturas e da maior exposição solar. A neve começa a conter muita água no seu seio e o seu peso altera-se. O material mobilizado pode atingir entre 350 a 500kg/m3. Apesar da enorme quantidade de material envolvido, estas são habitualmente mais lentas do que as anteriores, entre 20 a 60km/h, o que minimiza o seu enorme poder destrutivo.  Outros critérios, como o critério físico, permite distinguir as avalanches em pulverulentas e densas (dentro de cada uma delas existem várias subcategorias), sendo que as primeiras são uma mistura de ar e neve cuja dinâmica depende principalmente da interacção da neve que se encontra à frente da avalancha e da topografia do terreno. Podem atingir cerca de 360 km/hora, a sua densidade é baixa e as suas proporções são significativas, podendo atingir algumas centenas de metros de altura. As segundas são semelhantes a uma torrente. No canal de escoamento a velocidade da avalanche pode variar entre os 40 e os 100 km/hora e a altura pode variar de 1 a 30 metros.

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Na génese das avalanches estão a radiação solar, que acarreta o degelo, o vento ou a mudança do peso da neve e gelo. Para prevenir o primeiro, o desportista deverá, tal como foi referido anteriormente, desenvolver as suas actividades da parte da manhã ou se possível durante a noite; Já o segundo, só lhe competirá evitar a montanha com ventos fortes; No que diz respeito à mudança do peso da neve e do gelo, na medida em que normalmente é o homem o factor desencadeante do processo, este deve estar atento às cicatrizes de desprendimento que possam existir no manto de neve e sempre que as detectar, contorná-las pela parte superior.

Vários episódios externos podem ser responsáveis pelo despoletar de avalanches, é o caso dos abalos sísmicos. Um episódio destes ocorreu no Peru, a 31 de Maio 1970, paralelamente ao aluvião que viria a fazer desaparecer do mapa a povoação de Yungay, quando uma avalanche se desprendeu da face norte do Huascarán e desceu pelo vale superior do Llanganuco, soterrando uma equipa de alpinistas checoslovacos acampados na extremidade do lago.

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1.2. Riscos Atmosféricos

A dinâmica atmosférica em Alta Montanha expõe os desportistas a episódios adversos extremos que lhes potenciam situações de risco.

 a) Radiação solar e variação da temperatura

Existem variadíssimas razões pelas quais os desportistas devem efectuar as suas práticas durante a madrugada e manhã. Uma delas está relacionada com o degelo que ocorre nas paredes rochosas e que liberta clastros que estavam presos em cristas e vertentes e cuja perda do equilíbrio provoca o seu desabamento. Outra, tal como vimos oportunamente, está relacionada com o facto da radiação solar ser um dos factores desencadeantes das avalanchas.

Sendo assim, se o desportista pretende minimizar o risco da prática de actividades de Alta Montanha deverá começar a sua actividade bem cedo.

A própria amplitude térmica entre a rocha e a superfície da neve provoca, em determinados climas, um crescimento mais facetado dos cristais de gelo. Este gelo, designado muitas vezes por “nieve de azúcar” é incapaz de suportar pesos elevados. Estas situações são mais frequentes no Outono e princípio do Inverno e podem originar movimentos mais bruscos no glaciar e abertura de fendas.

A variação da temperatura muito repentina também pode constituir um problema. Quando, a variação da temperatura é progressiva, o glaciar tem tempo para se adaptar e os cristais assentam e compactam-se. No caso de variações de temperaturas acentuadas propicia-se situações de risco já que o gelo estará instável e vulnerável para ser mobilizado, formando avalanches.

De menor importância, mas igualmente relevante, é o desportista prevenir-se para possíveis queimaduras solares já que em Alta Montanha existe uma intensa radiação ultravioleta, especialmente quando é reflectida pela neve e gelo. Estas queimaduras acontecem frequentemente na pele mas podem também acarretar “oftalmia das neves”, uma conjuntivite provocada pela radiação ultravioleta que queima as capas externas do globo ocular. Para prevenção os desportistas deverão utilizar óculos de sol com grande protecção contra raios UV. Estas situações não são de menor importância já que muitos são os alpinistas que todos os anos ficam cegos durante as suas expedições.

b) Vento

Em Alta Montanha podem desenvolver-se ventos extremamente fortes que deslocam a neve e quebram as ligações entre os cristais de gelo. Estes ventos são especialmente perigosos porque, para além de reduzirem a visibilidade, diminuem o tamanho das partículas de gelo e compactam-nas em placas aumentando o risco de avalanche. Os ventos podem também ser responsáveis pelo movimento da neve nas cornijas e por conseguinte alteração do seu equilíbrio, potenciando uma queda das mesmas.

c) Tempestades

A ocorrência de tempestades em Alta Montanha está por norma associada à precipitação e à existência de raios. A precipitação acarreta uma perda de equilíbrio no manto de neve já que incrementa o seu peso. No entanto, pode ser também responsável pela quebra de ligações entre os cristais de gelo.

A precipitação, normalmente em forma de neve ou gelo, incrementa o manto de gelo e aumenta o risco de avalanche. Os desportistas devem estar bem atentos à previsão meteorológica, especialmente porque com um aumento de 25mm de neve a resistência do manto fica alterado e desencadeiam-se avalanches.

Apesar de mais raro, a precipitação pode ocorrer também sob a forma de chuva (especialmente na Primavera e Verão), o que permite a infiltração da água entre as diferentes camadas de gelo, uma quebra das ligações entre o gelo e potencia um desprendimento das camadas, actuando como lubrificante, e consequente avalanche. Este processo é muito rápido e pode apanhar desprevenidos os desportistas.

As tempestades eléctricas ou raios são bastante frequentes na Alta Montanha, especialmente ao final da tarde, na Primavera e Verão. Os raios podem efectuar trajectos de vários quilómetros e atingir alvos à frente ou atrás das nuvens. Esta situação aumenta a vulnerabilidade do desportista já que não está apenas sujeito ao risco no caso da tempestade estar sobre ele. No caso de queda de raio o desportista pode ser atingido directamente mas também por repercussão através do terreno. Depois do individuo ser atingido, a consequência mais comum é a paragem cardíaca. No entanto, também aqui, há formas de contornar estes riscos. A melhor forma de prevenção sobre qualquer risco de natureza climática será manter-se informado sobre as condições meteorológicas existentes e a previsão para os dias seguintes. Quando se inicia uma tempestade em que exista descarga eléctrica, o desportista deve procurar imediatamente refúgio. Devem, no entanto, evitar as tendas já que as varetas metálicas podem funcionar como pára-raios. O desportista deverá largar todo o material metálico que possuir, nomeadamente mosquetões, piolets, crampons, entaladores, descensores, etc. Deverá também afastar-se de árvores e no caso de estar numa região florestada baixar-se. No caso de ser surpreendido em locais abertos como num nevado sair dali já que poderá funcionar como objecto receptor. Independentemente do local onde se encontre, o desportista deverá sentar-se sobre a mochila evitando assim a condutibilidade eléctrica.

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1.3. Riscos Ambientais

O ambiente e meteorologia típicos de Alta montanha concedem-lhe características específicas e expõem o Homem a situações extremas.

a) Mal de altitude

Na troposfera, à medida que se sobe em altitude assiste-se a uma maior rarefacção em termos de oxigénio. Isso significa uma quantidade inferior deste gás disponível para inspirar. A fisiologia do organismo humano está apto a altitudes baixas e medianas, no entanto, consegue adaptar-se relativamente bem até cotas de 3000-3500m. A partir desta altitude, o organismo ressente-se da rarefacção do oxigénio, da diminuição da sua pressão e da temperatura. A pressão do oxigénio é fundamental para que os pulmões o consigam absorver. Quando a pressão é mais baixa os tecidos do corpo tem mais dificuldade em conseguir o oxigénio necessário para o metabolismo, criando situações de hipoxia. Esta situação cria, nos desportistas de Alta Montanha a necessidade de efectuarem processos de aclimatação de forma a permitirem, lentamente, ao organismo adaptar-se às altitudes. Cada indivíduo possui ritmos diferenciados de adaptação pelo que o processo de aclimatação possa ser distinto. Em termos globais, o desportista deverá subir lentamente e dormir a cerca de 300m de desnível da dormida na noite anterior.

A altitude produz um incremente muito grande da produção de urina pelo que o desportista deverá ingerir muitos líquidos, evitando assim a desidratação. Esta perda de água torna o sangue mais espesso. Em média, por cada mil metros de altitude devem ser ingeridos 1litro de água. Isto significa que, numa tentativa de cume por parte dos alpinistas a cotas de 7 mil e 8 mil metros, a quantidade de líquidos a ser ingerida é muito elevada. Isto pode ser um problema já que a esta altitude não existe água no estado liquido pelo que o alpinista terá que derretê-la, demorando muito tempo e tornando muito lenta a sua progressão.

Ao ser responsável pelas alterações do organismo humano, a altitude produz uma série de sintomas que são designados de “Mal de Altitude”. Estes sintomas ocorrem quando as subidas acima dos 3000-3500m são feitas de forma muito rápida sem dar tempo ao organismo de se adaptar. Normalmente, todos os desportistas de Alta Montanha já enfrentaram situações de aclimatação insuficiente e desenvolveram alguns destes sintomas: dores de cabeça, insónia, apatia, transtornos intestinais, desorientação, descoordenação motora, tosse, falta de apetite, debilidade física e psicológica, vómitos, náuseas, inchaços no rosto, pressão no peito, etc.

A altitude influencia também a capacidade de dormir dos desportistas, sendo que à medida que a altitude aumenta diminuem os períodos de sono profundo e aumentam os períodos de vigília nocturna, criando ciclos de hiperventilação e períodos de respiração lenta.

Para evitar o mal de altitude o processo de aclimatação deve ser lento e adequado às altitudes que serão atingidas. Quando os sintomas não desaparecerem ao fim de um dois dias, o desportista deverá descer para cotas mais baixas e aguardar que o organismo se adapte. Normalmente, uma descida de 600- 900m é o suficiente.

Num caso mais grave, os fluidos orgânicos podem encharcar nos pulmões e o desportista desenvolver Edema Pulmonar de Altitude. Este diagnóstico normalmente termina com a morte do desportista já que nada o permite distinguir dos sintomas do Mal de Altitude. Perante estes sintomas, o desportista deve descer e o organismo é aclimatado, caso contrário, com a permanência em altitude, e o desenvolver do edema o socorro é muito difícil. Só uma rápida e eficaz assistência médica poderá salvá-lo.

Convém, no entanto, realçar que toda a adaptação do organismo humano à altitude só acontece até aos 7900-8000m já que a partir dessa cota este não se consegue adaptar. É por isso, que a partir daqui se considera a “zona da morte”.

b) Hipotermia e congelamentos

Quando o organismo humano perde mais calor do que aquele que é capaz de gerar aparecem sintomas de hipotermia. Estas situações ocorrem quando o corpo humano apresenta uma temperatura do seu núcleo interno inferior a 35ºC. Nesta situação, o sangue vai deslocar-se da superfície do corpo e das extremidades para o interior do núcleo. Numa fase mais evoluída pode levar a existência de congelações. O corpo humano evidencia os primeiros sintomas de hipotermia, tais como: tilintar de dentes, tremores, dificuldade nos movimentos das mãos, passos incertos, ofuscamento, etc. Quando estamos perante níveis de hipotermia elevada, o individuo deixa de sentir tremores já que existem danos no sistema nervoso e muscular. Assim, o desportista pode deixar de ser capaz de caminhar e tem movimentos descoordenados, o seu comportamento é confuso e irracional e pode terminar na completa inconsciência. A hipotermia num estado avançado pode deixar o desportista com uma aparência moribunda o que pode levar ao seu abandono em Alta Montanha.

Face a uma longa exposição do organismo a temperaturas negativas começa a desenvolver-se congelações dos vasos sanguíneos nas extremidades do corpo que provocam lesões. A melhor forma de prevenir este risco é utilizar equipamento e vestuário adequado. Nos últimos anos a indústria de equipamento técnico de Alta Montanha tem sofrido uma grande evolução e o desportista dispõe de uma gama variada de bom equipamento que o poderá manter seguro.

Para prevenir estas situações, os desportistas devem estar bem equipados e as regras de segurança indicam que se devem vestir com três camadas (1ª camada transpirável, 2ª camada de aquecimento e 3ª camada exterior impermeável).

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2. Perigos Subjectivos

Os perigos subjectivos aparecem de cada vez que o desportista está menos bem preparado para enfrentar a características da Alta Montanha. Estes perigos podem ser minimizados e até anulados dependendo da atitude. Existe uma lista muito vasta destes perigos dos quais se destacam a falta de experiência e/ou preparação, a falta de formação, a hidratação incorrecta, a má nutrição, a má forma física e/ou psicológica, a desorientação, o desconhecimento ou subestimação dos perigos objectivos, a falta de sensatez, o excesso de confiança, o material insuficiente, inadequado ou em más condições, a incapacidade técnica para utilizar o material, a distracção, a desconcentração, etc. É essencial que o desportista conheça os riscos que enfrenta e que esteja preparado para enfrentá-los. O desportista para atingir os seus objectivos com sucesso deverá carregar consigo conhecimento e destreza para enfrentar os perigos. Deve reconhecer as zonas de risco potencial (como no caso dos desabamentos de rochas e colocar capacete) e encontrar os melhores locais de progressão para evitar crevasses, rimayas e seracs. Quando os encontra deve saber contorná-los ou transpô-los em segurança, bem como conhecer as técnicas de auto-resgate para o caso de acidente. O conhecimento das vertentes potenciadoras de avalanche deve ser também uma das suas prioridades. Sendo assim, compete apenas ao desportista o controle dos perigos subjectivos, pelo que um individuo bem preparado estará em muito menor risco do que um outro.

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Conclusão

A percepção do risco é essencial para que os desportistas de Alta Montanha o possam minimizar. Sendo assim, será compreensível que a maioria deles o façam conscientes dos perigos e riscos que enfrentam. Desta forma, os desportistas assumem o risco e até certo ponto esse risco é calculado. Só assim se compreende que estas actividades sejam consideradas actividades radicais e como tal, a sua prática implica o risco de vida. Desde a expedição polar na Antáctida, levada a cabo por Sir Ernest Shackleton no inicio do século XX que o desporto aventura está associado a este risco de vida e é isso que o define.

Apesar dos inúmeros riscos que os desportistas enfrentam e do número de acidentes mortais que se registam todos os anos nas montanhas mais altas do mundo, o homem continua a empreender actividades desportivas de risco e a seguir, dia após dia, atrás de novas aventuras. Uma boa formação e um bom conhecimento dos perigos e riscos potenciais que se enfrentam na montanha é a melhor forma de lidar com eles. Algumas máximas destas actividades, aparentemente empíricas, demonstram um conhecimento profundo das condições geomorfológicas e meteorológicas da Alta Montanha. Uma dessas máximas é “Sobe como um velho e desce como um novo”, já que as subidas devem ser lentas para minimizar os riscos e, na mesma óptica, por sua vez as descidas devem ser rápidas. Outra corresponde a subir em função do movimento aparente do sol. O desportista deve subir a montanha enquanto o sol está a subir no horizonte, quando este começa a descer o desportista deverá fazer o trajecto no mesmo sentido.

Na Alta Montanha só o conhecimento pode minimizar os perigos enfrentados. Assim, competirá a qualquer desportista preparar-se para aquilo que pode vir a enfrentar quer seja com o conhecimento empírico quer seja como conhecimento científico dos riscos.

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida, culminando num doutoramento nos Andes, investigando ambientes glaciares. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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