Explorando o Parque Arqueológico e as gravuras de Foz Côa | Portugal

Explorando o Parque Arqueológico e as gravuras de Foz Côa | Portugal

O Parque Arqueológico do Vale do Côa é uma visita única e obrigatória no nosso país. Para todos, novos e velhos, muito ou pouco instruídos, com ou sem sensibilidade artística, este deve ser um local a visitar, pois as gravuras de Foz Côa são um dos tesouros da Humanidade, constituindo um verdadeiro museu ao ar livre da arte do Paleolítico, ou seja, dos nossos antepassados que por ali viviam há mais de 20.000 anos. Com a descoberta das gravuras de Foz Côa deixava-se de parte a ideia das gravuras paleolíticas encerradas em cavernas, e passava-se a uma realidade de redescoberta da capacidade artística e criativa dos nossos antepassados, e da sua inequívoca vontade em mostrar essa arte aos outros.

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Há muito conhecidas das gentes locais, principalmente pastores e moleiros, as gravuras de Foz Côa saltaram para a berlinda mediática em 1994, aquando da sua descoberta oficial originada pela construção de uma barragem na foz do rio Côa. Após um longo processo político e variados estudos científicos, as obras da barragem seriam suspensas, o Parque Arqueológico do Vale do Côa seria criado, e as gravuras seriam classificadas como Património Mundial da UNESCO. Em 2010, inaugurava-se o Museu Côa e criava-se a Fundação Côa Parque, que passava a gerir e a cuidar deste património.

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Apesar de existirem várias dezenas de núcleos arqueológicos de gravuras, distribuídos principalmente pelos últimos dezassete quilómetros do rio Côa (mas também se estendendo pelo vale do Douro), estão abertos ao público apenas três núcleos de gravuras: Canada do Inferno, Penascosa, e Ribeira de Priscos. As visitas decorrem em pequenos grupos de um máximo de 8 pessoas, que acedem ao sítio apenas e só acompanhadas com guias do Museu do Côa, ou com agentes autorizados, requerendo marcação prévia. É possível fazer também visitas à noite, particularmente ao núcleo da Penascosa, recorrendo a luzes artificiais para proporcionar uma iluminação rasante das gravuras, o que permite uma melhor visualização (e um ambiente mais fresco no Verão!).

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Nós optámos pelos serviços da Glória Donoso, da Stone Memories (stonememories@sapo.pt), e gostámos muito. A Glória é arqueóloga, muito simpática e vê-se que é apaixonada pelo que faz. Trabalhou durante sete anos como guia do Parque, até há pouco tempo quando decidiu criar a sua própria empresa, dedicada à divulgação exploração deste incrível património. Tínhamos apenas um dia para visitar as gravuras, e combinámos com a Glória visitar o núcleo da Canada do Inferno pela manhã, e o núcleo da Penascosa pela tarde.

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Museu Côa

Como a visita à Canada do Inferno era feito a partir do Museu Côa, situado a cerca de 3 km de Vila Nova de Foz Côa, decidimos visitar o museu logo pela manhã. O museu está muito bem organizado, contextualizando o legado arqueológico que chegou até nós, apresentando réplicas de algumas gravuras, mas também uma série de informações baseadas em modernas tecnologias digitais. É uma óptima forma de começar a explorar o Parque Arqueológico e a tomar consciência da importância das gravuras de Foz Côa.

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Canada do Inferno

Quando iniciámos a visita à Canada do Inferno, o calor já começava a fazer-se sentir. Pelo caminho passa-se pelo que resta ainda das obras de construção da barragem, incluindo o ominoso paredão da barragem, que ainda hoje se mantém como uma assombração sobre a paisagem e gravuras, tendo um impacto visual enorme sobre a paisagem, e originando uma subida do nível das águas do rio Côa (aliado ao impacto da barragem do Pocinho), que se traduz na submersão de muitas gravuras que se conhecem, e muitas outras que se poderiam descobrir.

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Na Canada do Inferno, encontra-se a chamada rocha 1, que deu origem a toda a polémica há mais de 20 anos, com figuras densamente sobrepostas, mas no local a quantidade e qualidade das gravuras é muita. Existem ainda algumas figuras de origem moderna e algumas contemporâneas, no entanto sempre desenhadas em sítios diferentes das suas congéneres milenárias (ao contrário da recente vandalização de uma gravura na Ribeira de Priscos).

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Ali, com a ajuda das explicações da Glória, começámos a ter consciência daquilo de que estávamos a ver. As gravuras de Foz Côa são, de facto, quase únicas no panorama mundial. Gravadas ao ar livre, na rocha de xisto tão comum na região, os nossos antepassados deixaram o seu testemunho, utilizando temáticas e técnicas comuns a outras gravuras encontradas em Espanha e França, sendo um testemunho do intercâmbio de ideias e da existência de regras na expressão artística, como em qualquer movimento artístico moderno.

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Através de técnicas como a incisão filiforme, picotagem, abrasão e raspagem, as figuras representadas distribuem-se por diferentes temáticas, sendo que a representação de animais é predominante.

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Os animais mais representados são os cavalos e os bovídeos (ou melhor, os auroques, um antepassado já extinto), mas também coexistem com caprídeos e cervídeos.

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Os animais podem aparecer isolados, mas também em associação, constituindo verdadeiros painéis, curiosamente havendo também casos de sobreposição, na mesma rocha, de representações de diferentes épocas. Nesses casos, é imprescindível, a ajuda do guia que, como a Glória, pode ajudar a deslindar as diversas camadas artísticas gravadas na rocha.

Penascosa

A visita ao núcleo da Penascosa é feita a partir da aldeia de Castelo Melhor. Depois de um almoço fabuloso, junto ao rio Douro, no restaurante “Petiscaria Preguiça”, era muito o calor (e a preguiça!), mas estava na altura de voltar ao vale para ver as gravuras de Foz Côa. Encontrámo-nos com a Glória junto do Centro de Recepção de Castelo Melhor.

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Dali seguimos de jipe por uma paisagem espectacular, aproximando-nos do vale do Côa, pelo caminho podendo observar os pombais que eram característicos desta zona, e a imponente Quinta de Ervamoira.

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A Penascosa é uma praia fluvial da margem direita do Côa e tem alguns dos maiores painéis do Parque, como nas rochas 5 e 10. As gravuras distribuem-se pela encosta sobranceira ao rio, quer junto ao sopé da vertente, quer ao longo desta.

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Ali se pode encontrar uma inovação formidável característica da arte do Côa, que é a noção de movimento numa só figura, conseguido pela gravação de figuras de animais em diferentes posições, como que imitando as técnicas de animação stop motion. Ali pudemos apreciar, por exemplo, uma figura que representa o acasalamento de um cavalo com uma égua, em que o movimento do cavalo é evidenciado por essa técnica.

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Balanço de (quase) 20 anos de Património Mundial da UNESCO

No final da nossa visita, regressámos a Vila Nova de Foz Côa, onde jantámos no restaurante “Coa Museu”. Era tempo de descansar e saborear a comida e o vinho, mas também de fazer uma reflexão. A verdade é que tínhamos saído do Parque Arqueológico do Vale do Côa com sentimentos mistos. Por um lado, ficámos maravilhados com as gravuras rupestres e o seu alcance na nossa compreensão dos nossos antepassados longínquos. Mas, por outro lado, o Côa deixou-nos decepcionados com o nosso país e pela forma displicente e indiferente com que os seus responsáveis políticos tratam do património natural e cultural. Hoje, passaram-se mais de 20 anos sobre a descoberta mediática das gravuras e o início do processo de luta pela importância cultural e científica das gravuras de Foz Côa e pela paragem da construção da barragem na foz do rio, e estão quase a completar-se 20 anos da classificação como Património Mundial da UNESCO. No entanto, após este tempo, e tudo o que se conseguiu, a verdade é que o paredão da barragem continua em pé, e as obras da barragem continuam oficialmente, apenas, “suspensas”. Que diz isto do nosso país? Em 2012, o governo de Passos Coelho anunciou a extinção da Fundação Côa Parque, uma decisão que, porém, nunca viria ser a executada. No entanto, em anos de crise, os sucessivos cortes no financiamento levaram a Fundação a uma situação financeira deplorável que tem consequências gravosas ainda hoje.

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As gravuras de Foz Côa são um milagre. São um milagre porque resistiram durante milénios à acção humana e da natureza, e chegaram aos nossos dias em condições de conservação notáveis, principalmente se se tiver em conta que passaram mais de 200 séculos desde a sua criação! São um milagre porque resistiram ao avanço do progresso, à construção de uma barragem que alteraria a paisagem irreversivelmente e, provavelmente, as esconderia para sempre. Mas, acima de tudo, são um milagre porque são uma das mais antigas memórias gráficas que temos da humanidade, e uma prova de que há mais de vinte mil anos, os homens que percorriam o vale do Côa tinham uma criatividade, uma capacidade de expressão, e uma sensibilidade artística muito maior do que era imaginada pelos estudiosos e pelas pessoas comuns.

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No entanto, olhando para o futuro, nada deve ser dado como adquirido. É preciso saber que é preciso cuidar deste património como se fosse um ser vivo, alimentando-o, protegendo-o, acariciando-o. E, sobretudo, não deixar que os valores mais altos do dinheiro e do pragmatismo financeiro, tão em voga nos dias de hoje, se sobreponham à conservação de um património que é uma parte integrante essencial da memória colectiva da Humanidade, ou seja, daquilo que, afinal, nos diferencia dos outros animais, como homens e mulheres pensantes, livres e criativos.

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DICA: Para visitar as gravuras de Foz Côa, na companhia de uma arqueóloga, entre em contacto com a Glória Donoso, da Stone Memories, através da empresa, stonememories@sapo.pt ou do email da Glória, gloriadonoso1@hotmail.com.


 

Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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