Nadar com mantas (raias gigantes) no Atol Malé Norte | Maldivas

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Nas nossas viagens, procuramos sempre aproveitar o tempo ao máximo, até ao último momento. Muitas vezes, com voos marcados para de tarde, aproveitámos a manhã para uma última actividade, e que constituirá uma última recordação daquela viagem. Por exemplo, já este ano, aconteceu isso em Tromso, quando na manhã do último dia ainda fomos fazer uma caminhada com raquetes de neve. É cansativo, mas é recompensador, e, afinal, para descansar, descansamos em casa! O nosso último dia nas Maldivas foi um desses dias. O nosso voo estava marcado para as cinco da tarde, teríamos de estar na ilha do aeroporto por volta das duas da tarde, ou seja teríamos de nos despedir da nossa water villa no Vivanta by Taj – Coral Reef por volta do meio-dia e meia. Isso dava-nos uma janela de oportunidade perfeita para experimentarmos algo que nos captou a atenção desde que lemos sobre isso pela primeira vez: nadar com mantas (raias gigantes).

nadar com mantas

A manta é a maior espécie de raias (sendo na realidade dividida em várias espécies), e encontra-se nas regiões tropicais e subtropicais de todos os oceanos. A manta tem o corpo em forma de losango e uma cauda longa, sem espinho, e pode atingir sete metros de envergadura e pesar até mais de uma tonelada, podendo viver até 20 anos. No entanto, a sua aparência invulgar (por exemplo, grandes projeções cefálicas que se assemelham a “cornos”), assim como a sua envergadura (podendo atingir 6 a 7 metros), levaram, ao longo dos tempos, a algum receio por parte de pescadores, dando origem a lendas e histórias terríveis, e designações como diabo-do-mar, raia-diabo ou manta-vampiro. A realidade é bem diferente. Alimentam-se apenas de plâncton e pequenos peixes, e são inofensivas. Isto era a palavra de ordem para: nadar com mantas!

nadar com mantas

As Maldivas são um dos locais privilegiados para a observação de mantas. Durante as suas migrações, as mantas podem mergulhar até profundidades de quase dois quilómetros, onde as temperaturas da água atingem valores próximos de zero graus centígrados, mas, quando querem alimentar-se, procuram os ambientes ricos em plâncton, e por isso é frequente encontrá-las perto de recifes de coral. Nas Maldivas, é possível nadar com mantas em diferentes locais, em diferentes alturas do ano. No Atol Malé Norte, perto do Vivanta by Taj – Coral Reef, a época mais propícia é entre Dezembro e Março. Durante a maré baixa, as mantas aventuram-se em zonas de recife, e é nessa altura que se pode ter o privilégio de comungar da natureza na presença destes seres tão belos quanto enigmáticos.

nadar com mantas

Quando subimos para o barco, apenas nós, o guia e o capitão, sabíamos que tínhamos boas hipóteses de sucesso, mas ainda nos parecia irreal o facto de irmos nadar com mantas. Mas o facto é que, quando chegámos ao local, após uma breve viagem de cerca de 15 minutos (em barco rápido), havia um ou dois barcos já lá, e tivemos logo a confirmação: estava na altura de ir para a água! E, naqueles primeiros momentos, quando tivemos o primeiro contacto (de terceiro grau!), a sensação de estar junto de animais tão imponentes é simplesmente avassaladora. Já o tínhamos sentido quando nadámos com tubarões-baleia, no México, e voltámos a senti-lo agora a nadar com mantas.

nadar com mantas

As mantas mantêm-se na mesma zona, nadando em grandes círculos, e aparentemente em transe, não dando sinais que se incomodam com a presença de humanos nas suas proximidades. O nosso guia disse-nos para não andarmos atrás delas, elas viriam ao nosso encontro se nos mantivéssemos no mesmo local, e assim o fizemos. As mantas nadam com a sua enorme boca aberta, enquanto vão filtrando a captura dos pequenos organismos que constituem a sua dieta.

nadar com mantas

As mantas não possuem ossos, e sim cartilagens, e quando se mergulha ao seu nível, e se encontra uma de frente, é possível olhar para dentro delas, e ver essa estrutura tão invulgar, e por momentos, até pareciam transparentes. Mergulhando mais fundo do que elas (o que não era difícil, uma vez que a água não era muito profunda), podia admirar-se o seu fundo brando (povoado de pequenos peixes que mantêm uma relação de simbiose com a manta), tão diferente do seu dorso, negro e aparentemente ameaçador.

nadar com mantas

A sua elegância e fluidez na água são incomparáveis. Nadando ao seu lado, veio-me à memória os extraterrestres aquáticos do filme “O abismo” de James Cameron. A manta parece um alienígena, e, de certa forma, é. O mundo subaquático é um outro mundo, por vezes tão estranho para nós quanto um planeta longínquo, e quase tão inexplorado.

nadar com mantas

Apesar de as mantas não serem um “recurso” marinho muito explorado, talvez devido ao seu carácter furtivo, no mundo moderno é difícil, senão impossível escapar à acção humana. Há registos de alguma pesca exercida sobre estes animais para o aproveitamento da carne e óleo do fígado, e até para o aproveitamento da sua pele áspera como lixa. No entanto, a principal ameaça é a captura como “efeito colateral”, por exemplo na pesca de arrasto.

nadar com mantas

Nadar com mantas reforçou ainda mais a beleza, a singularidade e a fragilidade dos oceanos e da vida que ele contém. Muitas vezes negligenciados e esquecidos, os oceanos merecem a nossa total atenção, pois eles são um recurso inestimável para a humanidade, e são um barómetro da boa saúde do planeta. O seu tamanho descomunal, à escala humana, leva a que, por vezes, pensemos que pode aguentar com tudo, que o que possamos fazer não irá com certeza afectar um ecossistema tão vasto e complexo. No entanto, não é assim. Hoje existem já provas de que a actividade humana está a afectar irreversivelmente a biodiversidade dos oceanos, e a alterar para o futuro as condições ambientais propícias à continuidade de milhares de espécies. É urgente olhar para o mar, não só por aquilo que ele nos pode dar, mas também por aquilo que podemos fazer por ele. As belas águas das Maldivas também nos ensinam isso.

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Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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