A Índia de mochila às costas | Relatos de uma viagem

A Índia de mochila às costas | Relatos de uma viagem

ÍNDIA  Dia 1

Depois de 12 horas de voo chegámos a Delhi. Já arranjámos um hotel para passar a noite (parece um pardieiro mas custou 6€/quarto duplo), já temos bilhetes de comboio e já temos a adrenalina indiana, No táxi entre o aeroporto e Paharganj, onde estamos, o taxista não queria meter o carro dento do bazar então “simulou” uma avaria e pôs-nos fora do táxi a cerca de um quilómetro do nosso destino. No entanto, obrigámo-lo a chamar um riquexó e a pagá-lo até ao hotel! Agora sim, estamos na Índia! Bem vindos à verdadeira Índia!

ÍNDIA  Dia 2

O segundo dia em Delhi correu (super) bem (o super é porque não fomos atropelados). O Rui começou por fazer uma oração para não ter problemas intestinais ao longo da viagem (é um crente). Aproveitámos depois para percorrer os becos e ruelas dos bazares da cidade (o que resultou na mochila já cheia, mais 6 calças, 6 camisolas fantásticas e um lenço). É por isso que nunca viajo com roupa para a Índia! Depois foi hora de matar saudades dos amigos indianos, o Dipanshu (que conheci no KBE) e a mulher. Foi tão bom. Ao fim da tarde, e depois de meia hora de chuva torrencial (são as monções!) nada melhor do que um autocarro nocturno para Manali. São só 14 horas de viagem (se correr bem).  Vamos para as montanhas dos Himalaias!

ÍNDIA  Dia 3

Depois de, não 14, mas 15 horas de autocarro, chegámos a Manali! Pelo caminho, apanhámos quase sempre chuva e neblina. São as monções. Estamos a 2050 m de altitude. Daqui para a frente é sempre a subir! As aventuras indianas continuam. Tínhamos uma reserva no booking mas descobrimos que o hotel estava fechado. Então alguém, resolveu orientar-nos para o seu hotel. Um quarto pardieiro mas por 20€. Quem já viajou na Índia de mochila às costas sabe que um quarto de 20€ aqui tem que ser um deluxe! Mas este não era. Viemos embora e, de mochila às costas, lá arranjamos outro pardieiro no centro da cidade (mas desta vez por pouco mais de 7€). Resolvemos não ficar em Velha Manali (o destino predilecto dos backpackers ) porque aquela é uma onda muito de “erva”. Esse não é, nem nunca foi, o nosso registo. Ficamos na parte local da cidade e já fomos participar num festival de Verão (que achamos que era patrocinado por um partido político local), dar uma volta pelos mosteiros budistas e também pela Velha Manali.

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É a segunda vez que estamos em Manali. Mas da primeira vez, seguimos em direcção a Leh , no Ladakh (e um dos nosso locais preferidos na Índia). Mas desta vez temos outros planos. Vamos fazer o vale de Spiti. Já arranjámos bilhetes para um mini bus para Kaza. Amanhã saímos às 5h30! Levantar cedo nunca fez mal a ninguém, pois não? 

ÍNDIA  Dia 4

Hoje foi dia de apanhar um micro bus de madrugada para o Vale de Spiti. Esta é uma das estradas mais instáveis do mundo, especialmente na altura das monções. Choveu a noite toda e tínhamos dúvidas se íamos ter viagem ou não. Afinal tivemos, mas cheia de contratempos. Apanhámos desabamentos de terras, desabamento da estrada, rios na estrada, quedas de água a caírem sobre a estrada… Houve de tudo. A viagem demorou cerca de 12 horas.

Os precipícios vertiginosos faziam tremer, e a determinada altura, até nos juntámos à população para passar sobre um camião atolado numa queda de água. O dia foi todo passado na estrada, cruzando passos de montanha com mais de 4 mil metros, cheios de stupas e bandeiras de oração, onde todos os veículos os contornam num circuito para dar boa sorte à viagem. Na viagem pelo vale de Chandra, o tempo estava muito encoberto e até chegou a chover um pouco. Mas quando chegámos ao Vale de Spiti, o céu abriu e exibiu uma paisagem majestosa.

Aldeias tibetanas completamente isoladas nos Himalaias, num vale verdejante rodeado de montanhas escarpadas. Este é, com certeza, um dos lugares mais belos do planeta Terra. Chegámos a Kaza, onde vamos ficar um par de dias explorando os mosteiros, aldeias e a cultura tibetana do Vale de Spiti. A internet no vale é um pesadelo. A password do wifi no hotel tibetano onde estamos é “patience” e durante 3 dias não funcionou! E olhem que eu até tenho “patience” e aqui estou quase zen.

ÍNDIA  Dia 5

Começar o dia com uma oração budista num dos mosteiros mais isolados do mundo é um privilégio. O mosteiro de Kye, em Spiti, foi apenas o primeiro que visitámos hoje. Privámos também com um grupo de crianças que estão no mosteiro para experimentar a vida monástica.

Daí visitámos várias aldeias tibetanas nos Himalaias, nomeadamente Kibber, Hikkim, Komic, Langza. Komic é a aldeia mais alta do mundo, que pode ser alcançada por estrada (embora o termo estrada seja um eufemismo) e Hikkim tem o posto dos correios mais alto do mundo. Estamos a falar de aldeias acima dos 4500 m de altitude. Agora estamos em Kaza e amanhã continuaremos a explorar os magníficos vales desta região dos Himalaias.

ÍNDIA  Dia 6

O vale de Spiti não pára de nos surpreender. Hoje visitámos alguns dos mais belos e mágicos mosteiros budistas que já vimos no mundo. Começámos por Kungri, perto da aldeia de Guliing, no vale de Pin, um dos lugares mais isolados do mundo. Depois fomos para Dhankar, onde conhecemos um mosteiro com mais de 1000 anos pendurado nas vertentes. Já só ali existem 3 monges e vivem quase isolados de tudo.

Depois fomos para Lhalung, onde encontrámos um mosteiro com dois monges, completamente esculpido com divindades budistas e bodhisatvas. Este mosteiro, segundo o que o monge nos contou, apareceu pintado do dia para a noite e foi obra divina. Em frente ainda existe uma árvore, que segundo ele, foi onde o monge tibetano que trouxe o budismo do Tibete para ali enterrou o seu cajado.

Terminámos o dia em Tabo, o mais antigo mosteiro do vale de Spiti. Arranjámos um quarto ao lado do mosteiro e passámos a tarde assistir às aulas dos jovens monges e a visitar o mais magnífico mosteiro que vimos até hoje. 

ÍNDIA  Dia 7

O dia no Vale de Spiti começou às quatro horas da manhã. Levantar cedo para percorrer uma das estradas mais perigosas do mundo: Tabo – Rekong Peo, é sempre motivador. Tivemos que tratar de permissões em Kaza. A viagem demorou 9 horas, cruzando cenários maravilhosos e cheios de penhascos onde achávamos que cada minuto ia ser o último!

Parámos em Nako, uma aldeia fabulosa nos Himalaias e depois seguimos para Rekong Peo. No entanto, o nosso destino não era a cidade. Viemos para Kalpa, uma aldeia nas montanhas dos Himalaias, com vista para o Kinner Kailash, irmã da montanha sagrada que fica a poucos quilómetros daqui no lado do Tibete. Agora estamos na aldeia, com uma vista maravilhosa sobre as montanhas e templos hindus. Tudo decorado com bandeiras de oração budistas. Uma mescla muito interessante.

ÍNDIA  Dia 8

O dia clareou já nós estávamos na estrada a caminho de Sarahan, uma cidade que alberga um dos templos hindus menos conhecidos da Índia, o Bhimakali. Este templo é dedicado à deusa Kali, e é todo construído em madeira talhada. Localizado no interior do estado do Himachal Pradesh, chegar ali não é fácil, e para nós também não foi.

Apanhámos um autocarro às 6 horas da manhã para a cidade de Jeori e aí tivemos que contratar um carro para nos levar lá. A estrada por onde passavam os autocarros e riquexós está intransitável devido à queda de uma ponte com as chuvas da monção. Atravessámos assim o vale das Maças e alcançámos o templo magnífico. Para regressar foi ainda mais difícil. Novamente em Jeori, apanhámos um autocarro para Shimla mas as monções não estão a dar tréguas. Abateram-se horas intermináveis de chuva muito intensa, e o autocarro nem sequer tinha pára-brisas! Que loucura! Água, lama, terra, pedras, tudo escorria vertente abaixo e estávamos mesmo a ver quando nós eramos os seguintes. Felizmente, ao fim de quase 8 horas, chegávamos a Shimla, onde nos alojámos já noite, para amanhã explorar a cidade.

ÍNDIA  Dia 9

Hoje a monção não deu tréguas. Choveu o dia todo. Sob um céu cinzento escuro, explorámos a cidade de Shimla durante o dia, percorrendo o The Mall e o Ridge, e aproveitámos para fazer algumas compras. Esta cidade era a capital de Verão do Império Britânico na Índia.

Da parte da tarde, apanhámos o Toy Train, um pequeno comboio que liga Shimla a Kalka, um trajecto de 96 km, que atravessa 102 túneis e 988 pontes. Aqui a monção tornou a paisagem extremamente bela já que atravessámos a floresta verdejante. Quando chegámos a Kalka, era hora de apanhar um comboio nocturno para Delhi e depois para Gwalior, a sul da capital indiana, e no coração do estado de Madhya Pradesh.

ÍNDIA  Dia 10

Estamos na verdadeira Índia. O budismo ficou para trás. As paisagens bucólicas e a chuva de monção também. Estamos em Gwalior. Esta cidade parece ter mais vacas do que pessoas (e olhem que ter esta sensação na Índia não é fácil)! Hoje visitámos o Palácio Jai Vilas, um palácio dos Marajás que tem alguns apontamentos fabulosos. Para começar, o salão principal tem os dois maiores candelabros do mundo ,cada um pesando 3 toneladas, e para testar o tecto do salão antes de os colocarem, o marajá ordenou que lá se pendurassem 8 elefantes. Para além disso, há uma sala de banquetes (que a família ainda aluga em casamentos), com um comboio em miniatura de prata, que percorre as mesas e onde os convidados podem tirar as bebidas e servirem-se. À entrada do palácio há também duas charretes de comboio da Rolles Royce, que o Marajá usava para passear na cidade, assim, como vários coches.

Mas aquilo que mais nos impressionou na cidade foram as magníficas esculturas jainistas, escavadas entre os séculos VII e XV, retratando os 24 Tirthankaras, mestres históricos do Jainismo.

Mas Gwalior tinha muito mais para nos oferecer. Passamos a tarde no forte, deambulando entre templos e palácios, sempre posando para as selfies dos indianos, e partilhando muitos sorrisos. Não ficamos alojados num palácio, mas o nosso hotel também não era nada mau. 

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ÍNDIA  Dia 11

Hoje foi daqueles dias que sentimos o pulso da Índia. Sentimo-la como se ela fosse uma entidade viva, capaz de nos surpreender a cada minuto. Saímos de Gwalior eram quase quatro da manhã num comboio em direcção à aldeia de Sanchi, uma povoação com cerca de 7 mil habitantes, e onde nos sentimos integrar-nos facilmente com a comunidade. Na aldeia havia uma cerimónia hindu, que não chegámos a perceber bem qual, e os homens nos templos dançavam de forma entusiasta. Juntamo-nos a uns miúdos e dali fomos passear pela aldeia conhecendo a alma do lugar.

Mas o que nos tinha levado ali, não tinha sido aquela comunidade, mas sim os testemunhos mais antigos do Budismo na Índia. Trata-se de um complexo vasto que inclui várias stupas (altares budistas e que podem conter no seu interior relíquias), nomeadamente a Grande Stupa de Sanchi, um edifício com quatro pórticos esculpidos em pedra, completamente trabalhada em pormenor, com passagens da vida de Buda.

Andámos a deambular pelo local quase três horas, entre muitas selfies com a população local e a admiração do que tínhamos perante os nossos olhos. Ao final da tarde, contávamos apanhar um comboio de 40 minutos para chegar a Bhopal, a capital do estado de Madhya Pradesh. Para além do comboio ter chegado atrasado à estação, esteve parado durante duas horas a meio da linha. Para passar o tempo, juntámo-nos a um grupo de indianos e cantámos com eles. Nós cantávamos música portuguesa e eles cantavam música indiana. A plateia era composta pelo resto dos passageiros, inclusive um monge budista. Foram duas horas bem passadas, em que o sol se pôs e a noite chegou. Quando chegámos a Bhopal já era noite cerrada.

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A cidade tem o melhor e pior da Índia: caótica, cheia de lixo e vacas, viva, com luzes e muitas buzinas e, claro cheia de gente. Tentámos chegar ao hotel de riquexó mas o condutor não sabia onde era, e mostrava-se incapaz de descobrir. Assim, sem mais nem menos, saímos do riquexó de mochila às costas, e fomos a pé tentar encontrar o hotel. Caminhámos dois quilómetros mas descobrimos uma cidade cheia de gente boa e maravilhosa, assim como plena de cor e luz. Embrenhámo-nos no bazar muçulmano da cidade, onde ficámos alojados, rodeados de mesquitas e mercadores. Parecia a Rota da Seda. Aproveitámos para fazer compras de comida no bazar, inclusive cajus da China e tâmaras do Irão. Afinal há Rota da Seda aqui na Índia!

ÍNDIA  Dia 12

Depois do dia agitado de ontem, o dia de hoje foi bem tranquilo. Bhopal ficou para trás, depois de uma viagem rápida de riquexó até à viva e selvagem estação de comboios. Apanhámos um comboio às 7h da manhã com destino a Solapur, onde chegámos à meia-noite. Passámos o dia no comboio.

Andar de comboio na Índia é fantástico. Vemos o país desfilar da janela do nosso banco, conhecemos a população, aprendemos com os locais e sentimos o país a mexer. É a Índia! A alma da Índia está nas estações e nos comboios que percorrem o país, espalhado no sorriso rasgados das gentes `e nos olhares de curiosidade, uns envergonhados, outros atrevidos.

Há meia-noite o comboio chegou a Solapur mas para nós correspondia apenas a uma escala de 40 minutos, pois tínhamos ido ali apenas apanhar o comboio para nos levar a Bijapur. Ficamos em choque quando ouvimos a palavra CANCEL! Pegamos imediatamente nas mochilas e apanhamos um riquexó para a estação de bus. Foi uma sorte termos autocarro à 1h da manhã para Bijapur, onde chegámos às 3h da manhã. O hotel abriu-nos as portas e nós atirámo-nos para a cama. Amanhã vamos começar a explorar Karnataka e Bijapur e os seus templos serão apenas o “primeiro capítulo”.

ÍNDIA  Dia 13

Estamos em Karnataka, no planalto do Decão. Depois das aventuras de ontem, começámos o dia explorando a magnífica cidade de Bijapur, um dos melhores exemplos de arquitectura islâmica da Índia. De carroça, uma das formas mais tradicionais de explorar a região, percorremos a alma da cidade, conhecendo a população local (que aqui se veste de forma bem tradicional), os mercados, a citadela e as mesquitas, na companhia de Adhil.

Os dois ex-libris de Bijapur são o Gol Gumbaz, um túmulo monumental com a segunda maior cúpula do mundo (com um efeito sonoro no topo onde existe a cúpula dos Sussurros). Se falarmos para a parede, baixo, do outro lado da cúpula conseguem-nos ouvir perfeitamente. O segundo ícone da cidade é o mausoléu Ibrahim Rauza, onde existem túmulos e mesquitas. É descrito como um dos mais belos edifícios do planalto do Decão.

Ao final do dia apanhámos o Gol Gumbaz Express, o comboio para Badami, na companhia de um dos senadores do estado. Conversámos sobre política, questões da água e, claro, sobre a população indiana. Quando chegámos a Badami, recebeu-nos uma aldeia ainda mais poeirenta do que o habitual. O nosso hotel é bem no centro da acção e até servem comida no quarto. Amanhã, com a luz do dia, vamos explorar uma das áreas que mais expectativas temos para esta viagem.

ÍNDIA  Dia 14

O dia de hoje foi dos mais belos que já tivemos na Índia. Tudo o que a Índia tem de melhor, nós sentimo-lo. Começámos bem cedo, em Badami, uma pequena aldeia no planalto do Decão. Esta é uma das áreas mais ricas em termos arqueológicos da Índia, mas ninguém vem cá. Para nós foi a jóia da coroa de Karnataka. Eram seis da manhã e o nosso riquexó já percorria as ruas empoeiradas das aldeias para chegar a Aihole, o mais belo complexo de templos que vimos até hoje na Índia.

Ao contrário de todos os lugares do mundo, em Aihole a população vive no meio dos templos, dando-lhes vida e cor. As crianças brincam nas estátuas, as mulheres cozinham na soleira dos templos, os homens descansam nas sombras dos deuses. E, as vacas, passeiam-se pelos recintos. Há mais de cem templos em Aihole, e embora soubéssemos que o lugar ia ser magnífico, ele foi muito mais do que podíamos esperar.

Desde o templo de Durga até aos templos escavados nas rochas, passando pelos templos ainda ocupados pela população, tudo nos fazia sentir como novos exploradores. Éramos os únicos estrangeiros e não devem aparecer muitos por cá. Os bebés choram quando nos vêem, mas as crianças riem e querem muitas fotografias, assim como os adultos e anciãos.

Índia

A poucos quilómetros de distância fica Pattadakal, um complexo sagrado dos reis Chalukya. Para além dos magníficos templos e esculturas, tivemos a sorte de presenciar uma cerimónia em honra do Deus Nandi. Foi memorável e indescritível. Mas esta seria apenas a primeira do dia. No templo de Mahakuta, um templo vivo, juntámo-nos às multidões, e na companhia de quatro rapazes energéticos, explorámos os recintos e a devoção da população, nova e velha. Fomos abraçados, distribuímos beijos, tirámos dezenas de selfies e tocamos.

Na Índia o toque é fundamental para se sentir o país. Já mais próximo de Badami descobrimos outro templo, com um carro alegórico gigantesco, esculpido em pedra. Na entrada, várias mulheres acumulavam-se debaixo de um pórtico. São as viúvas, agora sem meios de sustento. Mais uma cerimónia, desta vez em honra da deusa Lashmi. Terminámos o dia explorando Grutas-templos, dedicadas a Vishnu e Shiva, e escavadas em penhascos de arenito vermelho à volta do lago.

Índia

A última gruta era jainista. Badami tinha merecido muito mais tempo. Queremos voltar. Precisámos de mais tempo para abraçar esta gente. Ficou a promessa. Ao fim da tarde, apanhámos um autocarro para Gadag, onde apanhámos outro para Hospet e um riquexó para Hampi. Conhecemos um miúdo maravilhoso, o condutor do riquexó que nos levou ao resort onde ficaremos nos próximos dias, o Evolve Back Resorts, em Hampi. O dia terminou com um jantar magnífico, acompanhado por um bom vinho indiano (sim, é possível). Hoje sentimo-nos abençoados. Tivemos o melhor que a Índia nos pode dar.

Em Hampi, o Orange County Resorts (agora Evolve Back Resorts) convidou-nos a ficar três noites, e não podíamos deixar passar esta oportunidade. Quando atravessámos os portões do resort, já de noite, candeeiros iluminavam o caminho, ladeado por pequenos lagos, levando-nos ao edifício principal. O nosso motorista de riquexó estava espantado “This hotel looks like a palace!”. Não parecia; era mesmo, com toda a sua arquitectura e decoração inspiradas nos palácios de outrora. Depois de recebidos com muita hospitalidade pelo gerente residente, a nossa assistente conduziu-nos ao nosso quarto: enorme, com duas camas, um sofá, duas mesas, uma escrivaninha, uma varanda, e uma casa de banho com duche, banheira e jacuzzi.

Depois de tomado um bom banho, era tempo de descer e experimentar as iguarias da cozinha da Índia do Norte, num restaurante temático do resort. Um kebab de peixe e um guisado de cordeiro fizeram as nossas delícias, tudo acompanhado por um bom vinho tinto indiano! Era tempo destes dois mochileiros terem uma pausa de descanso e conforto nesta grande viagem pela Índia.

ÍNDIA  DIA 15

Depois de um pequeno-almoço com vista para a piscina, onde a fruta e os pratos tradicionais indianos emprestam uma profusão de cor ao nosso início do dia, estava na hora de mais uma incursão pelo complexo de templos de Hampi. Depois de voltarmos, já víamos o edifício em que estávamos alojados com outros olhos. Os arcos dos corredores imitam os do edifício dos Banhos da Rainha, assim como as janelas elaboradas à volta do pátio central, também banhado por água. O Evolve Back Resorts de Hampi é mesmo uma reconstrução do que seria viver num palácio dos impérios que dominaram esta região há 500 anos, com o acrescento dos confortos modernos, como o ar condicionado (embora os antigos também tivessem formas tradicionais de refrigeração, como janelas de ventilação e tecidos molhados a cobrir as paredes). Não podíamos deixar de imitar um pouco a realeza de então e deliciámo-nos num banho de jacuzzi com vista para a paisagem de Hampi, dominada pelos promontórios rochosos de granito, a pedra que também constituiu a base da construção dos templos e palácios hoje em ruínas.

Hampi é uma cidade em ruínas e, provavelmente, o maior complexo de ruínas da Índia. Com mais de 500 anos, a antiga capital do Império de Vijayanagar, ainda ostenta alguns dos mais belos edifícios, estátuas, templos e palácios do sul da Índia. O Evolve Back Resorts ofereceu-nos uma visita à zona dos templos de Virupasksha, um templo hindu em honra do deus Vishnu, na companhia de Rajesh, um historiador do resort.

Rajesh é fabuloso e um entusiasta da história local. Levou-nos pelos principais templos e locais, percorrendo caminhos centenários, uma cultura incrível e explicando-nos cada detalhe. 

O tempo não colaborou, choveu, mas na hora do pôr-do-sol, uns raios de sol apareceram quando já estávamos no topo de uma das mais belas montanhas de Hampi, a Matanga. A vista é magnífica e aquele momento foi mágico. Nos rochedos laranja só faltou os leopardos que, ao que parece, habitam o local.

Regressar ao resort foi fantástico, assim como poder usufruir de comida indiana de qualidade, sem medo de apanhar uma doença. É uma outra Índia.

ÍNDIA  Dia 16

O dia hoje começou mais solarengo, mas as nuvens de monção são omnipresentes. Depois de uma noite de descanso bem merecido, em camas super confortáveis, levantámo-nos para tomar um bom pequeno-almoço, e depois tivemos direito a uma visita guiada pela propriedade. A Amreeta, responsável pelas relações públicas, levou-nos a explorar as diferentes partes do complexo, explicando um pouco da história do Orange County de Hampi, construído muito recentemente, mas fazendo parte de um grupo já com muitos anos de experiência noutros locais da Índia, agora denominado Evolve Back Resorts. Entrámos numa das vilas, rodeadas de água, com uma piscina privada, e de arquitectura inspirada nos palácios das rainhas do império Vijayanagar.

Passámos para o edifício do restaurante Bimayani, onde tínhamos jantado na noite anterior, inspirado no Lotus Mahal, que visitaríamos nessa tarde. Ao lado, no mesmo edifício, funciona o spa do resort, onde são feitas massagens e tratamentos ayurvédicos com toda a qualidade e requinte. Nós não tivemos tempo de usufruir destes serviços, pois andámos sempre de um lado para o outro, mas ficou a curiosidade de um dia experimentar. No entanto, não deixámos de relaxar um pouco na piscina do resort, embora o tempo estivesse algo nublado. 

O Rajesh voltou a acompanhar-nos, desta vez explorando o Complexo Real de Hampi, e foi uma preciosa ajuda, explicando as curiosidades e as lendas da mitologia hindu por detrás das representações elaboradas nas esculturas dos templos. Os deuses hindus e as suas reencarnações são tantas que não é fácil seguir todos os pormenores!

Começámos pelo templo de Vitthala, o mais magnífico que vimos aqui, mas depois seguimos para o Lotus Mahal, os banhos da Rainha e os estábulos dos elefantes. Visitar estas ruínas com um historiador é uma oportunidade incrível, graças ao convite do Evolve Back Resorts.

Ao final do dia regressámos ao resort, inspirado na arquitectura que tínhamos visto no complexo, e quando usufruímos do nosso jacuzzi privado no quarto sentimo-nos como senhores do Império de Vijayanagar. Hoje até partilhámos o resort com dois actores de Bollywood e a entrada está cheia de fãs que procuram uma fotografia e um autógrafo. Na falta do actor de Bollywood, contentam-se com uma selfie connosco. 

ÍNDIA  Dia 17

Deve ter sido a primeira vez que um riquexó entrou no Evolve Back Resorts, em Hampi. Alek, o nosso novo amigo de Karnataka, é a pessoa mais humilde que conhecemos. Nunca saiu de Hospet e Hampi, e as aldeias à volta, foi o lugar mais longe onde foi. Tem 28 anos, dois filhos bebés e mantém a família e a mãe. Trabalha para dar o melhor aos filhos. Entrar num resort foi um sonho.” Ver um palácio de perto” foi indescritível. “Coisa de ricos que nós nunca poderíamos ter”. Quando esperava por nós no parque do resort ainda tentou tirar uma fotografia mas os guardas obrigaram-no a apagar a foto. Por sorte, tirei uma fotografia do riquexó dele lá dentro, que lhe enviei por facebook. Ficou encantado. “Vocês preocupam-se connosco, eles não ligam aos pobres”.

Mas a Índia está a mudar. O sistema de castas é cada vez menos restrito e há cada vez mais ascensão económica dos mais pobres. Apesar de Alek não ter qualquer tipo de instrução, os últimos três anos a conduzir riquexó ensinaram-lhe a falar inglês e hoje é o turismo que alimenta a sua família.

Índia

Levou-nos aos segredos mais bem escondidos de Hampi, e foi com ele que descobrimos recantos incríveis nas ruínas, tal como um templo de Shiva, onde fomos abençoados e onde, de dia e de noite, sadhus (homens santos) cantam. Foi ele que nos levou aos templos de Rama e Khrisna, assim como nos contou histórias escondidas e gravadas nas pedras da cidade de Vijayanagara, tal como o local onde os trabalhadores comiam, com pratos esculpidos nas rochas, ou tanques e passagens secretas para entrar nos templos. Ainda demos uma fugida a Anegondi, onde visitámos um templo com frescos e pinturas murais coloridas e conhecemos a vida rural das comunidades de produtores de arroz da região.

Índia

Já era noite quando Alek nos deixou na estação de comboio de Hospet. Seguiríamos viagem num comboio nocturno para Bangalore e de lá para Chennai. Mas, antes de sairmos, Alek ainda voltou à estação. Entrou de rompante dentro da nossa carruagem 30 segundos antes do comboio partir. Tinha perdido o cartão com o nosso contacto. Voltamos a dá-lo, e quando o comboio saiu da estação de Hopet, sabíamos que deixávamos agora para trás um novo amigo na Índia. 

ÍNDIA  Dia 18

Voltámos a dormir no comboio. O dia começou bem cedo, connosco a correr às 6h15m da manhã para apanhar o comboio seguinte que saia da estação dali a minutos. 15 minutos de atraso numa escala de 25 minutos deixou-nos a ligação quase em risco. Felizmente a sorte estava do nosso lado e entrámos a tempo no comboio que nos levou de Bangalore para Chennai.

Índia

Chennai recebeu-nos de forma caótica, suja e com um cheiro nauseabundo. Quem nos conhece sabe que grandes cidades não é a nossa praia, por isso dedicamos o tempo que tínhamos na cidade a ver alguns dos seus maiores atractivos, nomeadamente o Templo Hindu principal, o Kapaleeshwarar, com torres coloridas típicas da arquitectura do sul da Índia, a Catedral onde o apóstolo Tomé foi sepultado e, comprar saris numa das melhores lojas da Índia.

Ainda passeamos um pouco pela marginal e pela zona dos pescadores, antes de regressar à modista que me ficou a fazer a blusa do sari que comprei. A população indiana é do mais generoso que existe no mundo, mas aqui em Chennai não tivemos essa experiência. Tirando a modista que me fez a blusa do sari, a população é bastante mais agressiva e ríspida. Talvez seja da concentração de dióxido de carbono na cidade!

Amanhã, já vamos embora por isso há que explorar o melhor da cidade e esquecer o que tem de pior. No hotel foi tempo de refazer as mochilas. 

ÍNDIA  Dia 19

Começámos o dia no aeroporto de Chennai para embarcar para as Ilhas Andaman, o nosso próximo destino. Depois das formalidades habituais e de duas horas de viagem avistámos o arquipélago, cheio de pequenas ilhas rodeadas de recifes de coral. O sol espreitou durante a tarde que passamos em Port Blair, a capital.

Não há grande coisa para ver aqui, a não ser uma prisão e o que resta dos ataques dos japoneses durante a segunda Guerra Mundial. Port Blair é uma cidade feia, semelhante a qualquer cidade indiana mas com menor densidade populacional. O nosso quarto do hotel é um pardieiro. A cidade também não nos encantou, mas amanhã vamos seguir para o interior da ilha (já temos bilhete para um autocarro às 4h da manhã) onde esperámos encontrar novas aventuras.

ÍNDIA  Dia 20

Era noite cerrada quando o autocarro saiu de Port Blair, nas ilhas Andaman, com destino a Rangat, na ilha do Meio. Para ali chegar tivemos que sair de Port Blair no autocarro das 4h da manhã. A estrada que liga as diferentes ilhas de Andaman envolve a travessia de ferries mas a verdadeira experiência está em atravessar a Reserva da Tribo Jarawa, um dos grupos étnicos que vivem em Andaman. Esta tribo, composta por 250 indivíduos, vive isolada numa reserva com 640 km2, e ao atravessá-la não se pode filmar ou tirar fotografias.

Tivemos que nos registar, e atravessar a reserva em caravana de veículos, com tempos de entrada estabelecidos. Foi isso que fizemos. O Rui ainda conseguiu ver três miúdos na beira da estrada a ver passar os carros. Demorámos quase 7 horas a chegar a Rangat, onde apanhámos um riquexó para Yerrata, uma pequena povoação, no seio da floresta de Mangal. Era cedo para o ferry que nos ia levar a Long Island, uma ilha não turística no norte do arquipélago. Aproveitámos para conhecer um projecto de plantações de espécies existentes nos mangais, e subir a uma torre de observação. Os canais ali estão cheios de crocodilos e a sinalização não deixa esquecer. Juntámo-nos depois aos habitantes locais para aguardar pelo ferry.

Às 15h30 lá apareceu, e como ia atravessar os canais dos Mangais, decidimos escolher um lugar no exterior. O passeio, que na realidade é um transporte público que custou 30 cêntimos, durou uma hora e meia. A paisagem é de cortar a respiração. As cores do pôr-do-sol (que aqui é às 17h30) começaram a iluminar a paisagem. Mas de repente abateu-se uma chuvada muito forte sobre o barco, molhando-nos até aos ossos. Mochilas e sacos ficaram todos encharcados.

É assim viajar na monção! Poucos minutos depois a chuva passou e o barco atracou em Long Island. Todos sabiam para onde íamos. Só há um alojamento na ilha que recebe estrangeiros. Ali uma cabana feita em bambu no meio da selva e à saída da aldeia recebeu-nos por uma noite. E já estava quase noite quando lá chegamos. Poder privar com estas populações locais, algumas indígenas e com pouquíssimo contacto com estrangeiros é um privilégio. 

ÍNDIA  Dia 21

Despedimo-nos de Long Island a bordo do ferry das 7h da manhã, já o sol ia alto. Os raios solares deixavam para trás a pequena ilha habitada e levava-nos em direcção a Havelock, a ilha mais turística das Andaman.

Pelo caminho o barco parou em Strait Island, uma ilha reserva, onde os estrangeiros e até os indianos são proibidos. O funcionário do barco avisou-nos logo que não podíamos tirar fotografias, só ver. A população que ali vive são Andamanis, uma das etnias autóctones do arquipélago. Hoje restam apenas cerca de 50 indivíduos já que os restantes foram dizimados pelo contacto com doenças para as quais não têm qualquer defesa, como o Sarampo e a Sífilis. Apesar de não podermos fotografar, pudemos ver alguns deles, junto ao porto, inclusive um miúdo com uma juba castanha clara que parecia um punk dos tempos ancestrais. Um deles entrou no barco e, depois de conversar com um polícia indiano que o acompanhava, tive autorização para o fotografar.

Eram 10h quando chegámos a Havelock. Estava um sol radioso e um calor abrasador. Aproveitámos para nos dirigirmos para a praia 5, a praia de Vijaynagar, onde arranjámos um bungalow de bambu em frente à água. O mar convidava a um mergulho demorado e deixámos passar a hora do almoço permanecendo na água quase três horas. Depois de um almoço tardio, ainda tivemos tempo para passear junto ao mar, agora com maré baixa e expondo os recifes de coral.

As crianças jogam à bola, algo raro por terras indianas onde todos jogam cricket. O sol foi desaparecendo atrás das nuvens do fim do dia e com a noite chegaram também os mosquitos que “picaram” este nosso dia perfeito.

ÍNDIA  Dia 22

Não sabemos o que aconteceu mas levantámo-nos às 7h da manhã pensando que eram 10h. Logo hoje que era um dos dias que podíamos dormir até tarde. Contudo até soube bem, pois aproveitámos ainda melhor o dia! Depois de um pequeno-almoço maravilhoso rumámos à praia de Kalapathara, na parte sul da ilha de Havelock. Parecia que tínhamos sido teletransportados para as Bahamas, tal era a cor da água.

Os casais recém-casados indianos (Havelock é um destino predilecto para lua de mel) passeavam na areia mas nós queríamos mar. Despidos de preconceitos, atiramo-nos no mar de Andaman. A água é perfeita, nem quente demais, nem fria. Um passeio junto à praia revelaria outros encantos da ilha.

Da parte da tarde a nossa viagem seguia em direcção à praia mais famosa de Andaman, a praia de Radanaghar, considerada uma das mais belas praias da Ásia, e onde decidimos pernoitar. Para trás deixávamos a nossa cabana de bambu. Já temos saudades e já nos arrependemos de o ter feito. O tempo não ajudou, mas a verdade é que das praias todas que conhecemos, esta foi a que menos gostámos.

Estava cheia de indianos, que se banharam vestidos até os nadadores salvadores apitarem e colocarem toda a gente fora da água devido ao risco de ataque de crocodilos ao fim do dia. Amanhã será o nosso último dia na ilha de Havelock e já combinámos, vamos sair bem cedo para apanhar o primeiro autocarro do dia e regressar à praia onde fomos mais felizes, a praia de Vijaynagar.

ÍNDIA  Dia 23

Será que devemos voltar aos lugares onde fomos felizes? Nós achamos que sim, e por isso, às 7h da manhã despedimo-nos da praia de Raganaghar e apanhámos o primeiro autocarro para a Beach 5, a praia de Vijayanagar. Mas não foi fácil. Estávamos a entrar no autocarro e chega o funcionário do hotel com um telefonema do “boss”.
– Têm que preencher mais um impresso antes de sair!

O Rui ainda teve de ir de mota preencher o tal impresso (igual a dois que tinhamso preenchido ontem) enquanto eu meti as mochilas dentro do autocarro, paguei o bilhete e implorei aos rapazes que esperassem pelo Rui. O próximo autocarro só passaria por volta das 10h da manhã. Poucos minutos depois o Rui voltava e regressámos à praia mais bela das Andaman e onde fomos muito felizes. Voltámos a sê-lo. Deixámos as mochilas guardadas na recepção dos bungalows e usámos o bar/restaurante e a praia.

Tomámos pequeno-almoço, nadámos, passeámos na praia, dançámos músicas de bollywood, cantámos e estendemo-nos ao sol. A gastronomia das Andaman entraram para o top 5 mundial, com o melhor bife de atum que já comemos, fresco e a sair da lota, assim como gambas com molho de alho e manteiga. Não queríamos mesmo ir embora mas tinha de ser.

Índia

De tarde tivemos que apanhar um riquexó para o porto e o barco para Port Blair, a capital das Ilhas Andaman. A nossa permissão para ficar na ilha termina amanhã e temos mesmo que nos despedir deste paraíso. Olhámos para trás dezenas de vezes e, inconsoláveis, prometemos que vamos voltar. Sim, nós queremos muito voltar aos lugares onde fomos felizes.

ÍNDIA  Dia 24

Andaman ficou para trás. Apanhámos um voo de manhã para Calcutá, cidade que nos recebeu com chuva de monção, o Ganges poluído, barulho e cheiro nauseabundo por todo o lado, pedintes e um trânsito infernal. É a segunda vez que visitámos Calcutá. Estivemos aqui há 10 anos, na altura, com um calor infernal. Calcutá continua igual a si mesma. Cheia do pior mas também do melhor que a Índia tem: sorrisos rasgados, pedidos para selfies e fotos, cerimónias hindus na estrada, gente boa, simpática e feliz. Voltámos a um dos lugares que mais nos tinha fascinado na altura: o mercado de flores, próximo da estação de comboio de Howrah, onde da parte da tarde íamos apanhar o comboio para Puri, em Orissa.

Cruzámos a ponte a pé, com o Ganges a correr por baixo dos nossos pés. O Rio sagrado continua extramente poluído apesar do empenho do governo indiano na “missão nacional de despoluir o Ganga”. O mercado de flores continua lindo, igual ao que nos recordávamos dele, cheiro de cor, alegria, sorrisos e cheiro a flores que quase passa despercebido entre o cheiro nauseabundo que vem dos resíduos orgânicos que se acumulam atrás dos vendedores.

Esta é a Índia. Uma Índia crua, feia, colorida, simpática e dura, tudo ao mesmo tempo. A chuva da monção fez sobressair os tons coloridos das flores, assim como os sorrisos dos homens e mulheres que vendem nas ruas. Há imensos peregrinos nas ruas. Vão para um festival de Shiva, a sul de Calcutá. Posam para as fotografias com orgulho, como quase todos os indianos, e até competem pelo protagonismo em frente à lente. Aproveitámos o tempo que tínhamos em Calcutá para fotografar a Índia, esta índia magnífica que desfila diante dos nossos olhos de forma tão intensa que até temos dificuldade em processá-la.

Mas a viagem tem que continuar e partimos numa viagem de comboio de sete horas até Puri, onde chegámos já noite. A partir de amanhã espera-nos um outro estado, Orissa e tudo o que o que ele esconde.

ÍNDIA  Dia 25

Em Puri, ficámos alojados na Grand Road, uma rua cheia de movimento, de lojas de artigos religiosos e de alojamentos para peregrinos, e onde, ao fundo, se encontra a grande razão que atrai tantos indianos a esta cidade, o templo de Jagannath. Puri é uma cidade sagrada, e no estado de Orissa é aquela que atrai mais visitantes. Em véspera do Dia Nacional, ainda se sentia mais o fluxo de pessoas na cidade. Logo de manhã, arranjámos um riquexó para nos levar até Konark, perto de Puri, onde ficam as ruínas do famoso Templo do Sol, outrora um dos grandes templos da região, e hoje uma atracção de feriado para os indianos.

Foi com milhares deles que visitámos o templo, no meio de muitas requisições para selfies. As esculturas do templo são impressionantes, destacando-se enormes rodas de coche e muitas e explícitas esculturas eróticas, algumas dignas de classificação M18! Regressados à cidade, dirigimo-nos com as multidões até ao templo de Jagannath, que se diz conter a divindade transladada do Templo de Konark, mas este é interdito a não-hindus, por isso tivemos de nos contentar com apreciar o movimento dos peregrinos e a diversidade de rituais associados a uma visita tão importante.

As fotos, e mesmo os filmes, não conseguem traduzir tudo aquilo que se passa à volta do templo. Ao final do dia, haveríamos de voltar às imediações, ainda com mais movimento de pessoas (saberíamos mais tarde que era um dia festivo, comemorativo da reencarnação de Krishna), e conseguimos uma vista aérea do topo de um alojamento de peregrinos, que gentilmente nos indicaram o caminho.

Puri também é um destino balnear para os indianos, por isso resolvemos percorrer a marginal de uma das movimentadas praias da cidade, onde os visitantes até podem dar um passeio de camelo. Mas o momento que mais nos marcou neste dia foi a visita aos crematórios da cidade. Puri, à semelhança de Varanasi, é o destino final de muitos indianos, em especial do estado de Orissa, que escolhem ali morrer, ou são para ali levados pelos seus familiares. Swargdwar, ou portas do céu, é o nome do local onde, diariamente, são queimados dezenas de corpos. Enquanto lá estivemos, perto de dez corpos foram colocados nas piras, e cremados, depois de realizados alguns rituais, normalmente executados pelos filhos mais velhos dos defuntos.

Índia

Assistir a isto é algo que não é para todos, mas fazê-lo permite-nos partilhar de momentos verdadeiramente únicos na vida das pessoas (que se mostravam receptíveis às nossas perguntas e às nossas fotos), e penetrar um pouco na essência do modo de vida indiano, e do seu modo de encarar a morte. Uma lição de vida que não esqueceremos. 

ÍNDIA  Dia 26

Hoje deixámos a cidade sagrada de Puri para trás. Dirigimo-nos de comboio para Bhubaneswar, a capital do Estado de Orissa, que é conhecida como a “Cidade dos Templos”. Outrora terão existido mais de 7 mil templos na cidade mas, depois da destruição dos séculos, restam cerca de 400.

Índia

Chegámos a Bhubaneswar com os primeiros raios de sol, e depois de guardar as mochilas na estação, fomos explorar a zona dos templos em volta do Templo Lingaraj. Os templos de Orissa têm forte influência indonésia e por breves momentos parece que estamos noutro país. Há dezenas de templos nas imediações mas alguns são magníficos, tais como os templos à volta do tanque de Bindusagar, o templo de Parasurameswar e o templo de Mukteshwar. A maioria dos templos são templos vivos, o que significa que são usados pela população como local de culto, mas também como local de vida quotidiana.

Saris estendidos a secar, mulheres a lavar as roupas dos maridos, crianças a saltarem para a água. Tudo é possível nos templos. Tivemos a sorte de testemunhar uma família de Sudras (uma das mais baixas castas na Índia) a tomar banho e a lavar as roupas numa piscina do templo. Caminhámos quilómetros, debaixo de um calor abrasador, e a água escorria-nos pelo corpo, para conhecer alguns dos mais belos templos de Bhubaneswar, mas valeu bem a pena. Pelo caminho, sorrisos, bandeiras da Índia, motas, riquexós e muitos turistas indianos que aproveitam o feriado do dia Nacional.

Cansados, arranjámos o riquexó do Pori para nos levar aos arredores, onde visitámos templos hindus, stupas budistas e grutas jainistas. Pelo caminho, abateu-se sobre nós uma chuva intensa que nos molhou até aos ossos (mesmo no riquexó). Depois de muitas selfies trocadas, estava na hora de regressar à estação de comboio, pegar nas mochilas e apanhar um comboio nocturno para Calcutá. 

ÍNDIA  Dia 27

Hoje foi um dos piores dias que tivemos em viagem. Tudo correu mal, desde o momento que chegámos de madrugada a Calcutá. Eram 4h da manhã quando o comboio parou. Apanhámos um táxi pré-pago para o hotel onde tínhamos reserva (que se localizava numa rua onde o táxi não podia ir). Andámos de mochila às costas quase duas horas, em vão, à procura do hotel numa das zonas mais pobres da cidade, com centenas de pessoas a dormir nas ruas, lixo, mau cheiro e, mesmo depois de desistir do hotel da reserva e de tentar outros, todos terminavam com vários “no rooms” ou “no foreigners allowed”.

Já estava dia quando apanhámos um táxi para outra zona da cidade, tentando aí a nossa sorte. Os primeiros seis ou sete hotéis “no rooms”. Estávamos a desistir quando no que decidimos ser “o último”, conseguimos um quarto com check-in para 24 horas. Eram 7h da manhã. O hotel era bom e o preço convidativo. Dissemos ao empregado que o quarto era só para o dia porque à noite teríamos comboio para Darjeeling.

– Não, não têm! Os comboios para Darjeeling e para Assam estão cancelados desde dia 12 de Agosto. As inundações e deslizamentos foram terríveis e as linhas estão danificadas. Vai demorar dias ou semanas a reparar. Os comboios foram todos cancelados.

Não podia ser! Eles são muito alarmistas, pensámos nós. Vamos dormir duas horas e depois vamos à estação. Foi isso que fizemos. Eram 11h estávamos a ouvir do chefe da estação a mesma informação. Ficámos desolados. Tínhamos preparado três semanas de viagem nos estados no nordeste e agora estava tudo impedido. Não podíamos perder tempo. Pegámos no guia da Lonely Planet e, sentados no chão da estação, redefinimos numa hora um plano de viagem para três semanas. Gujarat e Rajastão foram as nossas escolhas. Mas antes, ainda queríamos ir ao Bangladesh (já que tínhamos o visto tratado, embora fosse para fazer no final da viagem em Setembro). Tentámos fazer as reservas dos comboios na estação. Estava um caos. A Carla usou do seu “poder de sedução indiano” e entrou dentro da parte das reservas para falar com o chefe da estação. Ele viu as reservas todas que queríamos fazer e até lhe preencheu os impressos de reserva. O Rui foi para a fila “indiana” esperar para comprar os bilhetes. Seis horas depois, saíamos da estação com os bilhetes de comboio todos comprados (embora alguns em lista de espera).

Índia

Eram 17h e o nosso novo plano levar-nos-ia para o Bangladesh no dia seguinte. Era preciso regressar rapidamente ao centro de Calcutá para comprar bilhetes de autocarro para o dia seguinte de madrugada. E, felizmente, algo de bom aconteceu nesse dia. Conseguimos os dois últimos lugares no autocarro que sairá amanhã às 6h da manhã. Eram quase sete horas, já noite cerrada em Calcutá, quando respirámos de alívio. Um alívio cheio de frustração e desânimo. Um alívio por termos conseguido resolver as coisas, mas uma frustração tremenda por deixar para trás algumas das regiões que mais queríamos conhecer na Índia.

Índia

Para além de proporcionar grandes cenários fotográficos, viajar nas monções pode ser magnífico. Nós temos aprendido imenso durante esta viagem sobre o valor da vida, da água, das chuvas, e de todo o ritmo de vida indiano, especialmente porque temos apanhado chuva quase todos os dias. Mas viajar nas monções também pode ser um problema, especialmente porque os territórios ficam mais vulneráveis.

BANGLADESH  Dia 28

Há dias assim em viagem; dias passados em trânsito, observando a paisagem a passar, e testando a nossa paciência quando as coisas não correm como deviam. À partida iam ser 12 horas de viagem, logo saindo de Calcutá às seis da manhã, chegaríamos a Dakha às seis da tarde, mas nesta zona do planeta, os imprevistos são muitos e os planos têm de ser flexíveis. Calcutá e Dhaka são das cidades mais populosas do mundo, e em particular o trânsito é um problema difícil de ultrapassar. Saímos de Calcutá num autocarro cheio de cidadãos do Bangladesh que regressavam a casa. O bilhete é directo para Dhaka, com a passagem na fronteira pelo meio, e até saímos quase a horas, apenas com um ligeiro atraso. Mas o trânsito de Calcutá não deu tréguas e nas primeiras três horas de viagem, quase estivemos mais tempo parados do que a andar. Mas, passadas quase seis horas, lá chegámos à fronteira com o Bangladesh. Aí, as filas eram muitas para passar no posto indiano, onde ainda estivemos mais de uma hora à espera.

Os transportadores das malas foram uma ajuda preciosa, guiando-nos pelo caminho, e seguimos para o posto do Bangladesh. Aí, depois de preenchidos os formulários e respondidas algumas questões, lá prosseguimos para o escritório da companhia do autocarro. Afinal íamos trocar de veículo, pelo qual ainda esperámos um pouco. No total, passámos quase três horas na fronteira. Mas o autocarro lá prosseguiu, e a paisagem verdejante dos campos de arroz alagados do Bangladesh ia fazendo as nossas delícias. Íamos atrasados, mas não tanto. Quando atravessámos de ferry o impressionante rio Jamuna, estava a anoitecer, e na outra margem, a estrada continuava, faltando pouco mais de 50 km para Dakha.

Mas o trânsito começou a complicar-se e quanto mais nos aproximávamos da capital do Bangladesh, com uma população de 17 milhões de pessoas, mais caótico e difícil se tornava o fluxo de riquexós, carros, carroças, camiões e autocarros, tudo numa estrada com largura inferior a duas faixas de rodagem. Dentro da cidade, foi verdadeiramente desesperante. Estávamos cansados, sem paciência e com muita vontade de chegar. Mas os últimos quilómetros foram feitos a passo de caracol. Se soubéssemos o caminho, chegaríamos mais depressa a pé, mas não tínhamos outra hipótese senão aguentar a viagem até ao fim. Quando o autocarro finalmente se imobilizou, era quase uma da manhã, e a viagem tinha demorado dezanove horas. Ainda tivemos de apanhar um cicloriquexó para o nosso hotel, mas estávamos já perto. Quando fechámos a porta do nosso quarto, os pacíficos campos de arroz já pareciammuito distantes, e só queríamos esquecer o caos dos engarrafamentos de Dakha. Viajar é mesmo assim, e amanhã será um novo dia. 

BANGLADESH  Dia 29

Dakha, capital do Bangladesh, recebeu-nos com um trânsito caótico logo pela manhã. A caminho do porto, e a bordo do cicloriquexó, tivemos um acidente e o nosso cicloriquexó abalroou outro, tendo o outro condutor ficado entalado debaixo da nossa bicicleta e o passageiro projectado para a frente. Felizmente, connosco não aconteceu nada.

Bangladesh

Seguimos em direcção ao porto de Sadarghat, onde apanhámos um barco para cruzar o rio e explorar os estaleiros artesanais de Dakha. Subimos aos barcos, vimos Dakha de uma perspectiva completamente diferente do habitual, conversámos com os trabalhadores e vimos a crua realidade do que é (sobre)viver ali.

De regresso a Velha Dakha, perdemo-nos nos bazares, mesquitas e templos hindus, usando os cicloriquexós para nos movermos na cidade. Dakha é uma cidade alucinante e não é para todos. É feia, pobre, suja, poluída e com um trânsito caótico a todas as horas. No entanto, é uma cidade cheia de carisma e identidade.

As pessoas sorriem, são curiosas e estão pouco habituadas a ver estrangeiros. Aproximam-se e ficam estarrecidas e esquecidas a olhar fixamente para nós (algo que também nos acontecia na Índia há 10 anos, mas agora já não). Querem conversar mas quase ninguém fala inglês. São os sorrisos que permitem a interacção. O tradicional “Salam Aleikum” também faz milagres porque o Bangladesh é um país muçulmano. A maioria das mulheres e crianças anda tapada com o lenço, e os homens usam turbante ou touca branca.

Terminámos o dia no hotel, a matar as baratas com quem dividíamos o quarto, na esperança de não sobrar nenhuma para nos fazer companhia durante a noite.

BANGLADESH  Dia 30

Hoje foi dia de comprar bilhetes para o Rocket, o barco quase centenário que faz a viagem entre Dhaka, capital do Bangladesh, e as Sundarbans, o delta dos rios Ganges e Bramaputra, e que serve de habitat a mais de 100 tigres de Bengala. Rumámos bem cedo ao escritório da companhia, que era quase impossível descobrir não fosse a ajuda preciosa de Ali, um condutor de cicloriquexó que falava inglês (um achado no Bangladesh!). Entrámos num edifício abandonado e decrépito, no porto principal. Com os bilhetes na mão para essa tarde, resolvemos explorar Dhaka o resto do dia, visitando a Universidade, o Museu Nacional e o Museu da Libertação do país, que conquistou a sua independência do Paquistão apenas em 1971.

Ao final da tarde embarcámos no Rocket, no porto de Sadarhat, cheio de vida, cor e muita confusão. Chegar ali foi uma aventura, pelo meio do trânsito caótico da cidade. Graças à perícia de Ali chegámos a tempo de embarcar e até de contemplar o final da tarde do topo do Rocket. Mas a jóia do dia foi a saída do barco do porto, com o sol a pôr-se, iluminando os pequenos barcos de madeira que, a cada minuto, transportam pessoas para a margem oposta do rio.

Com o devido desfasamento, aquela imagem fez-nos lembrar Veneza. O sol deu lugar à lua e as estrelas passaram a iluminar o nosso caminho. O Rocket é um barco de transporte local, em que a maioria da população viaja deitada no chão de madeira dos dois andares do barco.

Bangladesh

Como comprámos bilhetes para um camarote privado, bem humilde mas limpo, passámos parte da noite na frente do barco a ver o trânsito nestes rios que são a alma do Bangladesh. Uma noite linda e memorável e uma experiência incrível no Bangladesh. 

BANGLADESH  Dia 31

Levantar cedo para ver o nascer do sol sempre foi a nossa desculpa preferida para colocar o despertador a tocar. Hoje o sol nasceu às 5h30m, hora a que já esperávamos por ele na varanda do barco. Estávamos atracados em Barisal quando o sol começou a iluminar os canais do delta e os barcos que os cruzavam.

Passámos a manhã no barco, cruzando as Sundarbans, desde Barisal até Hularhat, e contemplando da varanda os arrozais que se estendiam até onde a vista deixava de ser capaz de alcançar. A população do Bangladesh tem uma ligação muito estreita com a água, especialmente durante a monção, quando cerca de um quarto do país fica debaixo de água. Mas a vida continua e a população trabalha parcialmente emersa, cultivando os campos, apanhando lenha, produzindo fibras naturais, etc.

Bangladesh

Esta viagem de barco foi o ponto alto da nossa aventura no Bangladesh mas o dia ainda tinha mais para nos oferecer, embora não tenhamos avistado nenhum tigre.

Bangladesh

Em Hularhat, nas Sundarbans, apanhámos um autocarro para Bagerhat, que possui a maior concentração de mesquitas históricas do Bangladesh. A população local, feliz por nos ver, pára os riquexós para nos tirar fotografias e postar nas redes sociais! Em Bagerhat ainda visitámos uma pequena escola, onde a polaróide fez as delícias da pequenada mas a falta de um mapa-mundo não nos deixou brilhar numa aula de Geografia.

A viagem seguiu de autocarro em direcção a Khulna, onde antes ainda tivemos que passar para um barco de madeira de forma a poder cruzar o rio que separa a cidade das ilhas do delta. Em Khulna não tivemos tempo para nada, entrámos a correr num comboio para Jessore, onde queríamos chegar nessa noite.

Pelo caminho, a população não resistia e no seu parco inglês tenta meter conversa. A maioria não o faz porque não fala inglês, mas olha estarrecidamente para nós. Não há muitos estrangeiros no Bangladesh e algumas das pessoas nunca viram um ocidental. Em Jessore era hora de descansar.

O dia tinha sido enorme e precisávamos de recuperar energias para voltar à Índia.

BANGLADESH  Dia 32

Hoje foi dia de cruzar a fronteira entre o Bangladesh e a Índia, de regresso a Calcutá. Apanhámos um autocarro de Jessore para a fronteira de manhã bem cedo e outro da fronteira para Calcutá. Pelo meio, as formalidades habituais numa fronteira terrestre, mas onde a hora vespertina a que começámos facilitou o processo.

Era meio-dia quando chegámos a Calcutá, cidade que visitávamos nesta viagem pela terceira vez. Desta vez, rumámos à College Street, para comprar livros, e ao New Market, para fazer compras de artigos artesanais. Pelo caminho ainda nos tentámos a fazer uma massagem num “barbeiro” mas declinámos o convite!

No final do dia tínhamos um comboio para Varanasi, cujos bilhetes iniciais eram provisórios. Abraçámo-nos com felicidade quando chegámos à estação e descobrimos que os nossos bilhetes estavam confirmados e íamos ter duas camas juntas para a viagem nocturna de 14 horas que nos ia levar para a cidade mais sagrada da Índia.

ÍNDIA  Dia 33

Hoje foi daqueles dias em que viajar como casal foi difícil. Quando chegámos de manhã a Varanasi, tentámos apanhar um riquexó para os ghats, mas os condutores teimavam em querer levar-nos para um hotel. Não precisávamos porque tínhamos comboio à noite e só tínhamos vindo a Varanasi matar saudades porque explorámos a cidade há 10 anos atrás. Durante a tentativa de negociar um riquexó desentendemo-nos, discutimos e, em vez de descarregarmos nos “gajos sem escrúpulos que se acumulam nas portas da estação”, descarregamos um no outro.

Depois de conseguir o preço justo, rumámos aos ghats, onde até o sol que nos acompanhava desde o Bangladesh deu lugar à chuva. Começámos por percorrer a zona ribeirinha do Ganges em Varanasi, de sul para norte, tentando, sempre que possível, caminhar sobre os sucessivos ghats, desde que o nível da água do Ganges assim o permitisse. Partindo do Chet Singh Ghat, dominado por um forte, passando pelo Harishchandra Ghat, o segundo maior ghat crematório da cidade, onde pudemos mais uma vez testemunhar a cremação de corpos e os rituais associados. Acompanhando o fluxo da mãe Ganga, desembocamos no Dashashwamedh Ghat, o mais importante da cidade, e ao qual voltaríamos ao final do dia para assistir às cerimónias hindus de Ganga Aarti.

Dali apanhámos um barco, com um grupo de indianos, para admirar a cidade velha a partir do rio, e desembarcámos no Manikarnika Ghat, o maior ghat crematório da cidade e uma das mais impressionantes experiências culturais que se tem na Índia. O pesar da lenha, o corte do cabelo dos filhos primogénitos, os banhos rituais no Ganges, a decoração, transporte e colocação do corpo na pira funerária, e finalmente a cremação, constituem passos de um processo que fica na memória de todos aqueles que o testemunham.

Dia Internacional da Democracia

Ao final do dia, durante a cerimónia, um episódio curioso: a menina que há 10 anos vendia velas para as pujas era agora uma mulher. Reconhecemos o mesmo olhar, agora numa cara marcada por anos de vida dura mas que sorriu quando lhe dissemos que a tínhamos reconhecido e fotografado 10 anos antes. A Índia tem destas surpresas.

Fizemos uma puja ao Ganges, pedindo-lhe que cuide de nós. À noite rumámos à estação, para apanhar um comboio nocturno com destino a Delhi, onde faremos escala rápida para rumar a Ahmedabad, no Gujarat. 

ÍNDIA  Dia 34

Cheiramos mal. Escorremos água em bica há mais de 12 horas. Estamos cheios de fome. São 10 horas da manhã e estamos há 10 horas a dormir no chão da estação de comboio de Varanasi.

Índia

O nosso comboio, com destino a Delhi, já vai com 10 horas de atraso e a este ritmo será muito mais. A noite foi um caos. Descobrimos que o comboio estava atrasado duas horas logo que chegámos à estação mas, desde a 3h da manhã que o atraso não pára de aumentar. Primeiro embarcaríamos às 3h30, depois 6h, depois 8h20, de seguida 9h, agora 10h. Já estamos fartos. Está um calor insuportável em Varanasi e a estação está suja, cheia de gente e cheira mal. Escorremos água por todos os lados. Já perdemos o comboio de ligação que tínhamos em Delhi, e que nos levaria para Ahmedabad, no Gujarat. A nossa única opção será voar de Delhi mas mesmo essa opção é cada vez mais difícil porque o comboio já demorou quase 22h para fazer os 470km que separam Varanasi da estação onde iniciou a marcha. Não se deve passar nada de bom. Tememos que cancelem o comboio. Durante a noite foi impossível saber a que se devia o atraso. Os funcionários de serviço estavam mal-humorados e não falavam inglês, apenas diziam “wait, wait”. Às 8h abriu o serviço de vendas de bilhetes e tentámos comprar bilhetes para Ahmedabad, fazendo escala em Bhopal, ou noutras cidades do centro da Índia. Impossível. Demoravam demasiado tempo e se saíssemos já, na única opção disponível (ainda que num dos comboios em lista de espera) precisávamos de dois dias e meio para lá chegar, o que nos fazia perder os comboios que temos reservados daqui para a frente. O dia estava mesmo a correr mal e ainda só eram 10 horas da manhã. Um funcionário que falava inglês entrou ao serviço.
– Tenho más notícias. Houve um acidente na linha esta noite e os comboios estão a ser deslocados do seu trajecto. Quando este comboio chegar, que não sabemos quando, provavelmente terá um atraso maior.
O acidente ocorreu antes de Delhi e apesar de ainda não haver vitimas mortais confirmadas, o funcionário falou-nos em dezenas de mortos e feridos e 12 carruagens encartadas em cadeia. Íamos também perder a possibilidade de voar de Delhi para Ahmedabad. Tínhamos que pensar rápido. Pegamos nas mochilas, deixando para trás a opção do comboio, e fomos a pé tentar encontrar um ciber café. Encontrámos um voo para Ahmedabad, hoje à tarde, com escala em Delhi. Partia às 16h30 do aeroporto de Varanasi e chegava a Ahmedabad às 21h30. Era perfeito e o preço não era proibitivo. Isso permitia-nos continuar com todos os bilhetes daí para a frente e explorar o Gujarat e o Rajastão, tal como tínhamos planeado em Calcutá. Pensámos duas vezes, pois era a primeira vez que fazíamos um voo interno numa viagem, mas não havia alternativa. Se não queríamos ficar presos durante dias em Varanasi ou Delhi, teríamos de voar. Fechámos os olhos e reservámos os bilhetes. Ainda regressámos à estação antes de apanhar um riquexó para o aeroporto. O comboio continuava atrasado e estava agora previsto chegar às 12h10 a Varanasi e a Delhi, quem sabe! Nunca saberemos se chegará.

Dois voos depois, estávamos a aterrar em Ahmedabad, a capital do Gujarat, prontos para dormir numa cama de hotel, tomar banho, limpar o pó que se acumula em todas as dobras do corpo, tirar este cheiro nauseabundo que nos persegue, trocar de roupa e preparar-nos para um outro dia. A Índia é isto, tem dias que nos atira completamente ao tapete. Mas depois é preciso reerguer-nos.

ÍNDIA  Dia 35

Bem-vindos ao Gujarat! Gritaram-nos umas meninas no Templo de Modhera. O Gujarat é um dos estados mais tradicionais da Índia e começámos a explorá-lo a partir da cidade de Ahmedabad, a sua maior cidade. A cidade tem várias mesquitas, incluindo a Jama Mashid, a mesquita principal, construída com restos das ruínas dos templos hindus e jainas, onde terminaríamos o dia, contemplando o pôr-do-sol.

Logo pela manhã partimos com destino a Modhera, uma cidade a pouco mais de 100 km e que alberga um templo hindu extraordinário. As mulheres são “senhoras” por estas terras, já que no dia de hoje praticamente só encontramos mulheres, vestidas de forma muito colorida, enquanto passeavam com os filhos no templo. Um grupo de raparigas, numa visita de estudo, ficou super entusiasmado quando nos viu e aproveitámos para conversar e brincar um bocado com elas. O templo tem uma riqueza de pormenor fabulosa e um tanque em escadas em frente, concedendo-lhe um carácter muito peculiar.

No regresso a Ahmedabad, parámos em Patan, para visitar um dos dois poços que vimos hoje: Rani Ni Vav. Os vavs são poços em escadas, normalmente com 5 ou mais níveis, que se destinam a armazenar as águas das chuvas de monção, mas também para aceder à água dos aquíferos. Foram construídos como lugares de recreio e lazer, geralmente por mulheres ligadas às famílias nobres do Gujarat. Parecem autênticos palácios e descer ao seu interior é mágico.

O Rani Ni Vav foi o vav maior que vimos, com 7 níveis, e uma área considerável. Mas o mais belo que vimos foi o Adalaj Vav, a apenas 18 km de Ahmedabad, com 5 níveis mas com uma riqueza de pormenor que faz lembrar os palácios do Rajastão.

Terminámos o dia a passear no bazar, e a ver a noite chegar na mesquita. Mas a noite ainda traria outra surpresa. No comboio nocturno que apanhámos para Junagadh, um indiano masturbava-se na estação, enquanto olhava para nós. Uma Índia profunda e real que convive lado a lado com a Índia dos templos e palácios reais. A noite seria passada no comboio, uma das mais belas formas de viajar pela Índia. Precisávamos de fazer as pazes com os comboios indianos depois de descobrir que o comboio de Varanasi para Delhi (que abandonámos na estação de Varanasi) chegou a Delhi com 20 horas de atraso. 

ÍNDIA  Dia 36

Chegamos a Junagadh de comboio às 04h30. Não é por isso de estranhar que o facto de o nosso hotel ser mesmo ao lado da estação nos ter parecido algo maravilhoso. Ainda conseguimos descansar e dormir numa cama maravilhosa, antes de nos levantarmos para um novo dia, que na realidade já tinha começado. Começámos por explorar a colina de Girnar, uma montanha que se ergue imponente sobre a cidade, sagrada pelo seu papel na mitologia hindu e jaina, e repleta de templos e lojas que ladeiam o caminho que os peregrinos fazem até ao topo.

Tínhamos lido versões contraditórias quanto ao número de degraus envolvido na subida (entre 4000 e 10 000), mas sabíamos que era uma subida muito dura, suficiente para ocupar todo o dia. Mas, como já não tínhamos acordado muito cedo, e tínhamos ido à estação de autocarros saber das opções para os próximos dias, começámos a subir eram já onze da manhã. O tempo estava muito cinzento e tinha chovido torrencialmente antes de lá chegarmos. Arranjámos dois bastões de peregrinos (de bambu) e lá fomos subindo, com muita gente já a descer. O tempo nublado não nos permitia ter uma noção exacta do quanto subíamos, nem da paisagem circundante, mas após cerca de uma hora e meia, deixámos a floresta para trás e começámos a subir por degraus escavados na rocha que se erguia por cima de nós. Novos, velhos, homens e mulheres, todos percorrem este trilho com fé e espírito de sacrifício. Nós, pelo menos, tínhamos o segundo. Já envoltos por completo pela neblina, encontrámos o primeiro grande conjunto de templos jainas, mas aquele que mais nos captou a atenção foi um templo hindu ricamente esculpido e que, envolto pelo nevoeiro e musgo, parecia tirado de um filme do Indiana Jones.

Continuámos a subir, com o declive dos degraus a aumentar, assim como o nosso cansaço. Mais à frente, um conjunto de templos hindus atraía muitos peregrinos, mas depois de repousarmos um pouco seguimos em frente. Dali, ainda descemos um pouco, para depois voltar a subir acentuadamente, chegando ao Templo de Amba Mata, muito popular entre os hindus recém-casados como fonte de felicidade. Continuávamos sem ter uma noção exacta do que estaria para a frente. Sabíamos que faltava, pelo menos, o pico mais elevado da montanha, mas não sabíamos quanto demoraria, nem conseguíamos descobrir, pois ninguém falava inglês. Os degraus voltavam a descer acentuadamente, e sabíamos que teríamos de fazer o percurso de volta. Já passava das duas da tarde, por isso ponderámos, e resolvemos voltar para trás. Na descida, o tempo começou a ficar melhor, e brindou-nos com uma visão muito mais detalhada da montanha, e até ficámos surpreendidos com o quanto tínhamos subido! Não fomos até ao pico final, mas subimos a montanha, testemunhando um fenómeno religioso de massas extremamente interessante, nesta Índia tão diversa e profunda. Não sendo hindus, também fizemos a nossa peregrinação.

Depois de regressarmos à cidade, visitámos o forte, onde pudemos admirar dois belos poços, e ficámos espantados pela beleza de dois mausoléus no centro da cidade, um deles adornado com quatro minaretes com escadas em caracol, dignos de um conto de fadas. Acabámos por partilhar o pôr-do-sol com um grupo de crianças que brincava na rua, e que se deleitou com as nossas fotos, principalmente as da máquina polaróide, que ficam como uma memória daquele momento.

Índia

A Índia também é esta inocência das crianças, de uma alegria contagiante, mesmo vivendo num contexto muito desfavorecido numa favela com as melhores vistas da cidade.

ÍNDIA  Dia 37

– A minha mãe é portuguesa! – Diz-nos uma rapariga na praia. – Vou já chamá-la!

Amida nasceu em Moçambique antes da Independência do país e desde essa altura conserva o passaporte português. Aos 3 anos veio para Diu, e já adulta emigrou para Londres onde vive desde então. Regressou a Diu com o marido e três filhos para passar férias e ver a família. Foi na praia onde a encontrámos, já ao anoitecer, e durante uma puja em honra de Ganesh, um festival de 11 dias que tivemos a honra de participar a convite da sua família.

Era hora de almoço quando chegámos a Diu, a antiga colónia portuguesa na costa do Gujarat. Chegar ali foi fácil e, apesar de Diu ser uma ilha, há uma ponte que liga este ex-enclave português ao território continental. Diu é muito tranquilo, tanto que enquanto tirávamos fotografias num riquexó que dizia “PORTUGAL” perdemos todos os riquexós que existiam à volta da estação! Caminhámos um pouco e lá chegámos à “Herança Goesa”, uma hospedaria da Dona Alina e do seu filho Francisco, que nos receberam com um “Bom dia”. São naturais de Goa e escolheram Diu para viver. Uma vez alojados, estava na hora de tirar a barriga de misérias! Fomos ao restaurante “O Coqueiro” que tem fama de ter comida “típica portuguesa” feita por uma matriarca indiana que terá aprendido com alguém de Portugal. A matriarca já faleceu mas deixou as receitas a um rapaz que agora gere o restaurante e continua a deliciar estrangeiros e indianos. Sem rodeios, foi a melhor refeição que fizemos no último mês! Batatas fritas caseiras, calamares fritos e temperados com manteiga e alho e, a jóia, camarões tigres (alguns com quase meio quilo) grelhados com manteiga e alho. Diu podia ser uma desilusão mas vir ali já tinha valido a pena! 

Mas Diu foi tudo menos uma desilusão. Passámos a tarde a passear no forte português, testemunhando a herança portuguesa por terras tão distantes. Sentimo-nos em casa, mais uma vez, quando fomos abordados por Paulino, um português de Diu, que nos gritou “Bom dia” e correu na nossa direcção quando nos ouviu falar português. Aproveitou a nossa presença para desenferrujar o seu português e fez-nos um pequeno tour pelo forte. Para terminar a tarde, optámos por visitar a praia de Nagoa, que atrai centenas de gujarates aos fins-de-semana, e onde partilhámos as delícias de um banho de mar com uma família de Ahmedabad. Mas o tempo não convidava a mergulhos e optámos por ver o pôr-do-sol na cidade.

No entanto, o destino levar-nos-ia para a praia de Ghogla, onde encontrámos a família de Amida ao anoitecer. Amida, as filhas e algumas mulheres preparavam o altar do Ganesh com flores e velas. O filho, o marido e o resto dos homens da família tocavam e cantavam na praia. Estavam a preparar a puja de Ganesh. Depois de conversarmos sobre Portugal, convidaram-nos para participar na puja. Foi com muita honra que aceitámos o convite da família e pudemos testemunhar um dos momentos mais bonitos que tivemos na Índia. Quando a noite caiu, as mulheres começaram a orar e a fazer cânticos à volta do altar improvisado na praia. Ofereceram-nos doces típicos e participámos nas orações da puja, com bênçãos a Ganesh usando fumo e fogo das velas. Depois destes rituais, um grupo de homens, no qual se incluía o marido de Amida, pegaram no altar do Ganesh e foram oferece-lo ao mar, depositando-o no fundo, enquanto as mulheres cantavam na praia.

Foi uma experiência incrível que graças à família de Amida tivemos o privilégio de participar. No final da noite, agradecemos e despedimo-nos de Amida, das suas das jovens filhas e filho, e do marido. O dia terminaria em beleza com a repetição do menu do almoço, agora ao jantar. Diu estava a ser uma verdadeira surpresa e um dos pontos altos da nossa viagem pela Índia.

ÍNDIA  Dia 38

O dia começou bem cedo pois queríamos muito assistir à venda de peixe no porto da aldeia piscatória na ilha de Diu, de seu nome Vanakbara, e localizada no extremo da ilha oposto à cidade de Diu. Apanhámos um autoriquexó que nos levou bem ao centro da acção. Os barcos de pesca já tinham chegado, e as mulheres vendiam o peixe mesmo junto aos barcos. A luz brilhante do sol do começo da manhã emprestava cores fantásticas ao colorido da roupa das mulheres. O movimento era imenso, o regatear intenso, e as oportunidades para fotos magníficas eram muitas!

Regressámos à cidade de Diu, onde passámos o dia. Aproveitámos para visitar algumas das igrejas da cidade, que são a maior herança arquitectónica dos portugueses. Tal como os indianos, tirámos os sapatos, e entrámos na igreja de S. Paulo, que tem uma fachada impressionante, e na igreja de São Tomé, que alberga agora uma pequena colecção de estátuas de santos e apóstolos, assim como algumas pedras com inscrições em português. Deambulámos pela zona histórica da cidade, e experimentámos uma limonada com gengibre, fresquinha e picante! Como Diu é governada a partir de Delhi (fazendo parte da União de Territórios de Damão e Diu), não faz parte do estado de Gujarat, que é um estado onde impera a lei seca. Assim, são muitos os indianos que, principalmente ao fim-de-semana, se deslocam a Diu para poder comprar e consumir álcool. Nós ainda tínhamos esperança de matar saudades de casa com uma garrafa de vinho português, mas foi em vão que procurámos. Em Diu, só vimos uísque e vodka.

Tivemos que nos contentar com um jantar maravilhoso, onde o marisco esteve uma vez mais no topo das nossas preferências. Quando vivemos ou apreciamos algo muito bom, costumamos brincar um com o outro, dizendo “Vamos amargar tanto isto…”. Será? Amanhã é dia de voltar à velha Índia e ao estado de Gujarat. Novas aventuras nos esperam. 

ÍNDIA  Dia 39

Hoje o dia foi passado em viagem. Autocarro para Junagadh, de Junagadh para Rajkot e de Rajkot para Bhuj, no extremo oeste do Gujarat. Foram quase 12 horas de viagem para alcançar uma das povoações mais isoladas do estado. Pelo caminho cruzámos as planícies salgadas do Kachchh, uma depressão onde se extrai o sal acumulado há milhares de anos e agora inundada pelas chuvas de monção.

As mulheres aqui vestem saias coloridas e usam essencialmente véus negros. Ao contrário do resto da Índia, não estão disponíveis para serem fotografadas, e mostram-se muito mais tímidas. Já os homens posam orgulhosos e destemidos. Um dia no autocarro permite ter muito tempo para contemplar o país a desfilar pela janela.

Da nossa experiência, o Gujarat é dos estados mais sujos da Índia. Há lixo por todo o lado, e embora se comecem a ver alguns caixotes do lixo, ninguém os usa. Até os mais jovens e instruídos deitam com frequência garrafas de plástico e lixos para o chão. Os rios estão completamente poluídos e sujos. Bhuj não é diferente. Felizmente o nosso hotel é fantástico. É uma cidade suja mas há muito para descobrir aqui e nas redondezas e amanhã vamos começar a explorar a cidade.

ÍNDIA  Dia 40

Bhuj recebeu-nos com o céu muito escuro. Uma depressão cavada, associada ao final das monções, desenvolveu-se sobre Mumbai, provocando chuvas catastróficas ao longo do dia. Ainda que relativamente afastada da Mumbai, a depressão estendeu-se até ao Gujarat e, como tal, a chuva aqui também não perdoou. Com ou sem chuva, aproveitámos o dia para conhecer a cidade de Bhuj, a mais importante do distrito de Kutch, e algumas das aldeias mais próximas.

Começámos por visitar o Palácio de Bhuj, outrora um dos mais belos da Índia, mas cujo terrível terramoto de 2001 (7,7 graus na escala de Richter) deixou parcialmente em ruínas, assim como o resto da cidade, juntamente com cerca de 20000 vítimas mortais. Habituada às catástrofes naturais e à adversidade, a população de Kutch soube reerguer-se dos escombros, e reconstruir a sua cidade, mas ainda hoje se notam sinais do devastador sismo, enquanto algumas obras de reconstrução se prolongam no tempo. O palácio mais antigo (Rani Mahal) foi o mais destruído, mantendo-se fechado e em ruínas, mas conservando algumas janelas rendilhadas fabulosas, naqueles que eram os aposentos das mulheres da corte.

Ao lado, o Aina Mahal, o Palácio dos Espelhos, sofreu menos e mantém o seu glamour, sendo um dos mais bonitos que já visitámos. Resolvemos visitar o Museu de Arte Popular (Folk Art Museum), mas é demasiado caro para aquilo que apresenta ao público. Pelo contrário, o templo que visitámos no centro da cidade foi uma agradável surpresa. O Templo de Swaninarayan, pertencente a uma seita religiosa hindu cujos crentes acreditam na divindade do seu fundador (século XVIII), reconstruído desde o terramoto, é um local fabuloso para se assistir à devoção dos crentes.

Dali partimos à descoberta de duas aldeias perto de Bhuj e conhecidas pela qualidade do fabrico de tecidos e pelas técnicas de impressão de desenhos. Bhujodi foi a primeira paragem, onde assistimos ao fiar e ao trabalhar dos teares, e onde pudemos também apreciar o produto final, e fazer algumas compras.

A seguir, visitámos Ajrakhpur, famosa pela técnica de impressão de desenhos nos tecidos, usando blocos de madeira esculpidos. Foi como assistir a algo que já não é dos nossos dias, algo que talvez esteja condenado a desaparecer, face ao avanço da globalização e da mecanização. O Gujarat é isto, uma terra que parece perdida no tempo, e no espaço, longe, muito longe da Índia das start-ups e das metrópoles, aninhada junto ao Paquistão. Por isso é que merece ser visitada. 

ÍNDIA  Dia 41

O Gujarat é um dos estados mais tradicionais e étnicos da Índia e Bhuj é considerada a porta de entrada para conhecer as tribos da região.

Mesmo com a depressão barométrica a dirigir-se para o Gujarat e Paquistão, arriscámos e fomos de carro com o Mutli até ao Deserto branco, um deserto de sal, na fronteira entre a Índia e o Paquistão, onde outrora correu o rio Indus. Um sismo alterou o curso do rio, transformando toda aquela área num deserto de sal, mas hoje, quando a visitámos, estava cheia de água. É a água das monções, agravada pelas precipitações da noite passada, que transformaram o deserto num autêntico mar. É um fenómeno raro, que tivemos o privilégio de testemunhar. Mas estas chuvas não nos trouxeram apenas privilégios. A nebulosidade não nos deixou ver a paisagem em nenhum dos miradouros que parámos, o que nos deixou, juntamente com os turistas locais, algo desiludidos. Porém o que nos trouxe ali foram as gentes e, essas, não dependem das monções. Aliás as monções mostram-nos o quão destemidos e perseverantes estes povos têm de ser para enfrentarem a escassez e a abundância de água com que os deuses hindus os brindam anualmente. Ainda que a água fosse elemento presente na paisagem, os camelos continuam a povoar o deserto, percorrendo agora as estradas asfaltadas, conduzidos pelos pastores, em busca de terrenos mais firmes.

A aldeia de Nirona ainda nos acolheu com a luz do sol, e os deuses iluminaram os rostos daqueles que nos receberam, crianças, homens e mulheres sorridentes e animados, que em troca de uma polaróide partilharam connosco risos alegres. Pudemos ver o trabalho do ferro, da pintura de madeira e criação e decoração de utensílios e até da arte Rogan, uma arte de pintura em tecidos que já só é praticada por uma família no Gujarat, que o faz há 8 gerações. Mas o sol durou pouco tempo. Foi com chuva que vimos na aldeia de Khavda as limitações que esta monção traz na produção de cerâmica, e foi da chuva que tivemos que nos abrigar na aldeia de Ludiya, cheia de casas tradicionais pintadas de forma colorida, mas que o sol teimou em não iluminar.

A chuva ali já era tanta que tivemos que correr encharcados para o carro e regressar rapidamente a Bhuj já que os avisos de mau tempo foram estendidos a todo o noroeste do Gujarat e Paquistão. As chuvas que ontem tinham matado dezenas de pessoas em Mumbai dirigiam-se agora para onde estávamos. Com reservas para essa noite no comboio nocturno com destino a Ahmedabad, descobrimos que tinha destino final Mumbai, pelo que estava já com duas horas de atraso, mas a previsão era de cancelamento. Não queríamos ficar presos nas inundações da bacia do Indus, que todos os anos matam centenas de pessoas no Gujarat e no Paquistão. Mutli sacou do telemóvel e viu que existia um autocarro a sair de Bhuj, naquele final de tarde, com destino a Udaipur, no Rajastão. Deveria levar-nos em 12 horas para uma região sem chuva, ou pelo menos sem avisos de inundações fortes. Conseguimos apanhar o autocarro, e quando deixámos Bhuj para trás já as águas escorriam em torrente pelas estradas e vertentes das colinas. Despedimo-nos de Mutli com um abraço.

Olhar para os lençóis do autocarro-cama, cheios de nódoas que pareciam que ali já tinha morrido gente, não nos deixou com nojo, deixou-nos satisfeitos por termos conseguido sair de Bhuj. Com os lençóis enrolados ao fundo, passámos a noite a dormitar entre os saltos do autocarro nos buracos da estrada, nas poças de água e nas torrentes de lama que atravessam o seu caminho.

ÍNDIA  Dia 42

Se achávamos que as chuvas tinham ficado para trás estávamos completamente enganados. Udaipur, no Rajastão, brindou-nos com o melhor da Índia mas as chuvas não pararam durante todo o dia. Já que a chuva teimava em manter-se, resolvemos aproveitar uma promoção do Booking.com e marcámos um quarto no Palácio Real da cidade por 79€/noite (deixamos o link em baixo para poderem guardar nos favoritos). Uma noite seria o tempo que teríamos para nos sentirmos verdadeiros marajás.

Se o tempo não estava para andar a passear, então havia que usufruir dos luxos de um palácio, com vista sobre um outro, no meio do lago Pichola. Entre os pingos da chuva ainda conseguimos passear no Gangaur Ghat e visitar a Bagore Ki Haveli. À noite não resistimos a um espectáculo de danças e marionetas típicas do Rajastão.

Índia

Sentimos que estávamos agora numa nova fase da nossa viagem pela terra dos Marajás quando percorremos durante a noite o recinto palacial sem turistas, a caminho dos nossos aposentos reais.

Índia

ÍNDIA  Dia 43

Era o nosso primeiro dia completo passado em Udaipur, mas decidimos que iríamos dedicá-lo a dois lugares que queríamos visitar: Ranakpur e Kumbhalgarh. Mas, uma vez que o mais distante se encontra a quase 100 km de Udaipur, isso implicaria que iríamos passar todo o dia fora a cidade, deixando a sua exploração para o dia seguinte. Começámos por nos dirigirmos a Kumbhalgarh, um dos fortes mais impressionantes do Rajastão, do século XIV, e estrategicamente localizado entre Jodhpur e Udaipur. A estrada para lá era completamente secundária, cheia de buracos, e com bastante água, fruto das chuvas que continuam a cair nesta região, por isso a nossa progressão foi bastante lenta: três horas para percorrer 80 km! Mas antes de lá chegarmos o acaso brindou-nos com uma experiência cultural magnífica, outra vez relacionada com uma puja de Ganesh, cujo cortejo ia a passar na estrada. Parámos imediatamente e a Carla começou a tirar fotos, mas quando deu por ela, a multidão tinha-a envolvido e já estava a dançar e cheia do pó vermelho das comemorações. Ainda acompanhamos o cortejo durante algum tempo, mas tínhamos de continuar o nosso caminho.

O forte de Kumbhalgarh esperava por nós, assim como muitos indianos e muitas selfies requisitadas! As muralhas estendem-se por quilómetros e o perímetro do forte inclui templos, palácios e reservatórios de água. A fortaleza de Kartargarh está no cimo da colina, onde se chega por uma subida íngreme e atravessando várias portas. De lá as vistas são fabulosas, mas mais uma vez o tempo não ajudou, estando muito cinzento.

De volta ao nosso carro, dirigimo-nos para Ranakpur, mas pelo caminho ainda passámos pela cidade de Saira, onde as mulheres com roupas tradicionais e coloridas passavam no mercado, e onde muitos rapazes desfilavam vestidos de mulheres (e maquilhados), num festival em honra da deusa Parvati.

Índia

Ranakpur é um dos centros mais importantes da religião jaina, contemporânea do budismo, e cujos mestres eram partidários de um modo de vida simples e um ascetismo exacerbado. Os templos de Ranakpur são, no entanto, de uma complexidade artística impressionante, sendo o mais importante o templo de Adinath, com 1444 pilares de pedra, todos esculpidos de forma diferente. À volta, as representações dos 24 tirtankharas (mestres) jainas, como que guardam o santuário. Mas os guardas actuais não lhes ficam atrás no empenho, fazendo cumprir estritamente as regras de entrada no templo: para além do vulgar (na Índia) descalçar dos sapatos, não podem entrar quaisquer elementos de comida, bebida ou feitos de animais (como por exemplo, bolsas de pele), e o número de máquinas fotográficas é rigorosamente controlado (de acordo com o bilhete que se compra), não sendo permitido tirar fotografias às divindades. Curiosamente, também não é permitido a entrada a mulheres em período menstrual, embora ninguém faça o teste à entrada!

De regresso a Udaipur, chegámos já o sol se tinha escondido atrás de algumas nuvens, mas aparentemente o dia tinha sido solarengo na cidade, ao contrário dos lugares por onde tínhamos andado. Parece que estamos com mau karma! Para contrariar esse karma, alojamo-nos numa maravilhosa haveli (o melhor hotel que ficamos na Índia e por apenas 30€/noite), onde terminámos o dia com um jantar romântico com vista sobre o lago Pichola.

ÍNDIA  Dia 44

Tínhamos ficado com esperança de um dia quase sem nuvens, mas o mau tempo continuou. Ficámos assim até mais tarde no hotel em Udaipur. Quando saímos, explorámos a zona comercial da cidade e dirigimo-nos depois para o outro lado do lago, atravessando a ponte pedonal. Aí percorremos a margem do lago na zona do Hanuman Ghat, até à ponta, com vista sobre os diferentes palácios da cidade, e toda a zona junto à água, incluindo o nosso hotel e o palácio da primeira noite. Mas a chuva teimava em cair, por isso decidimos acabar por ali o dia e regressar ao hotel.

Mas a Índia surpreende-nos todos os dias, quando menos esperamos. Ao chegar à zona de Gangaur Ghat, o principal da cidade, descobrimos que hoje se comemora um festival de Khrisna, uma reencarnação do Deus Vishnu, uma das divindades mais veneradas na Índia. Os altares foram invadindo as ruas ao longo da tarde, acompanhados por cânticos populares e muita cor, quer dos vestidos e saris das mulheres, como dos pós atirados ao ar. Parecia o Holi, o festival das cores. Os homens transportavam os andores até o lago Pichola, onde faziam um ritual, tomavam banho, atiravam oferendas ao lago e regressavam a casa.

Índia

As mulheres assistiam e ofereciam oferendas aos altares durante o percurso, geralmente alimentos. O momento alto foi quando uma carroça puxada por um camelo surgiu na base do templo hindu, transportando crianças vestidas de Khrisna. Este festival foi um momento deslumbrante que terminou em frente ao templo e no ghat com um grupo de rapazes a fazer acrobacias com fogo. E até tivemos direito a entrevista em directo para a TV do Rajastão! 

O nosso dia terminaria com um brinde à nossa viagem fabulosa pela Índia, sentados no varandim da “nossa haveli”, com vista sobre o lago Pichola e a lua escondida por trás das nuvens. Cada dia que passa, a Índia brinda-nos com dádivas e bênçãos que tentamos estar à altura de receber. Gratidão é o que sentimos cada vez mais por este país que há muito conquistou o nosso coração de viajante.

ÍNDIA  Dia 45

Hoje foi dia de dizer adeus a Udaipur e viajarmos em direcção a Bundi. Mas pelo caminho iríamos visitar de passagem a cidade de Chittorgarh, a duas horas de autocarro de Udaipur. Saímos cedo do hotel, pois tínhamos a viagem de autocarro, a visita ao forte (garh) de Chittor, e às 15.30 tínhamos um comboio marcado para Bundi. Não podíamos facilitar, por isso antes das sete da manhã já estávamos a fazer o check-out. Rapidamente chegámos à estação de autocarros, de onde saímos quase imediatamente. Duas horas depois chegávamos a Chittorgarh, cidade totalmente dominada pelo forte construído numa colina rochosa e que tem uma história de glória e tragédia que personifica o Rajastão dos marajás.

Um motorista de riquexó empreendedor interceptou-nos logo que pusemos o pé fora do autocarro e fez-nos uma proposta para andar connosco no interior do forte (de seis quilómetros de comprimento) a visitar os sítios mais emblemáticos. Assim fizemos, e depois de subirmos até à entrada do forte e ao ticket office, começámos por visitar o palácio de Rana Kumbha (o mesmo que construiu o forte de Kumbhalgarh), hoje quase completamente destruído, fruto das duas vezes que o forte foi conquistado no século XVI (após uma primeira em 1303), levando ao deslocamento do centro de poder para Udaipur. Em todas as derrotas, os homens pereciam em batalha, mas as mulheres não lhes ficavam atrás, cometendo suicídio colectivo (aos milhares) por imolação, no interior do forte, antes de caírem nas mãos dos invasores, matando também os seus filhos.

Hoje, o interior do forte continua a exercer uma atracção sobre todos os que o visitam, como nós e as multidões de indianos que resolveram dar ali o seu passeio domingueiro. As principais atracções são a torre da Vitória, uma torre de nove andares (com 36m de altura) completamente esculpida (no exterior e no interior), mas à qual já não se pode subir, e o reservatório de água de Gaumukh, onde muitos eram aqueles que se banhavam, ou pelo menos molhavam pés e mãos, com uma reverência ritual.

Mas onde tivemos realmente o nosso banho de multidões foi no templo de Kalika Mata, um antigo templo dedicado ao culto do sol reconvertido num templo da deusa Kali. O fluxo de pessoas era impressionante, desde bebés quase recém-nascidos no colo das suas mães, até idosos com dificuldade em subir as escadas que levavam ao santuário principal. Em redor deste, as pessoas faziam piqueniques, e muitas pediam para ser fotografadas.

De volta ao nosso riquexó, regressámos à estação de comboios, pois já não tínhamos muito tempo. Esperámos pouco tempo na estação e foi uma curta viagem de duas horas até chegarmos à estação de Bundi, onde apanhámos um riquexó até ao nosso hotel. Pelo caminho, entrámos na cidade velha de Bundi, com as suas casas azuis, e contemplámos o imponente forte da cidade. Aliás, o rooftop do nosso hotel tem a que é, provavelmente, a melhor vista da cidade. Depois de um breve passeio, e uma pizza a la italiana ao jantar, regressámos ao nosso hotel. Bundi promete ser um dos locais mais bonitos do Rajastão. Amanhã veremos se cumpre.

ÍNDIA  Dia 46

E cumpriu-se! Bundi revelou-se como uma pérola escondida do Rajastão, partilhando os seus tesouros com os poucos turistas que a visitam. Foi um dos locais que mais gostámos na nossa viagem, ao que também não será alheio o facto de termos tido um dia com sol, algo que já não nos acontecia há muito tempo. O sol é revigorante para a alma e inspirador para as fotos, pois tudo parece mais bonito com a luz certa, mas a beleza de Bundi é mais do que isso.

Começámos o nosso dia com o pequeno-almoço no terraço do nosso hotel, com vista sobre o forte e o palácio de Bundi, imponente sobre a cidade. Quando o visitámos, ficámos deslumbrados com o que vimos. Muitas das divisões do palácio estão encerradas ao público, e entregues aos morcegos, mas aquelas que estão abertas contêm tesouros de valor incalculável.

A arquitectura é magnífica, mas o destaque vai para as pinturas nas paredes e tectos, que são soberbas. Nunca tínhamos visto um palácio tão antigo e tão bem conservado. Com a ajuda de um caseiro que, em troca de uma gorjeta, nos abriu uma sala encerrada, pudemos admirar até pinturas feitas com ouro! Sublime.

"Sitarey" de Tiger Style, Feat. Jaz Dhami

Ainda subimos um pouco da muralha, por entre vegetação densa e muitos macacos, até chegarmos a um edifício abandonado, com uma janela que tem a melhor vista de Bundi, com a cidade aos nossos pés, cheia de casas pintadas de azul, o lago ao fundo e o palácio na colina.

Índia

Depois de almoço, partimos à descoberta da cidade, das suas gentes, e das suas ruelas. Os artesãos abundam por ali, ainda distribuídos por ruas temáticas. As lojas têm colchões onde os clientes se deitam ou sentam, enquanto os vendedores lhes mostram as novidades.

A Carla aproveitou os serviços de um costureiro e viu as suas calças arranjadas, enquanto o Rui aprendeu como se faz um turbante. Tudo isto, com a simpatia e hospitalidade de uma população habituada a ver poucos turistas.

Ao final do dia tivemos o nosso primeiro pôr-do-sol em muito tempo, o que acrescentou brilho ao nosso dia. Depois do sol descer, tivemos ainda direito a um espectáculo natural invulgar, quando testemunhámos o céu ficar cheio de nuvens, não de vapor de água, mas sim de milhares de morcegos que saíam dos seus esconderijos escuros nos palácios abandonados para explorar a noite que começava a cair. Espantoso.

O dia tinha sido fabuloso, mas apesar da música indiana se ouvir de um casa vizinha ao nosso hotel, tínhamos de nos deitar cedo. O dia seguinte iria começar muito cedo, em direcção ao nosso próximo destino, a cidade de Jaipur. 

ÍNDIA  Dia 47

Eram quatro e meia da manhã e já estávamos de pé, a arranjar as mochilas, e prestes a sair do nosso quarto em Bundi. Uma vez lá fora, àquela hora ninguém andava na rua, e só os cães e as vacas nos faziam companhia. Os riquexós estavam lá, mas estacionados e sem condutores. Era um problema, tínhamos de ir para a estação de autocarros, pois queríamos apanhar o primeiro da manhã, e ainda ficava a dois quilómetros. Fomos andando, com esperança de apanhar um riquexó que fosse a passar, mas nada feito. Cansados, chegámos à estação mesmo a tempo de apanhar o “express” que estava a sair. Noite cerrada, aproveitámos para dormir parte da viagem. O autocarro fez poucas paragens e às 10.30h estávamos em Jaipur. Fomos para o nosso hotel que, curiosamente, foi o único que repetimos da nossa viagem de há dez anos, tendo sido engraçado notar as diferenças e viajar atrás no tempo. Depois de instalados, saímos para explorar a parte histórica da cidade e os seus bazares.

Deslumbrámo-nos novamente com as janelas da fachada cor-de-rosa do Hawa Mahal e juntámo-nos à população local, principalmente a feminina, nos bazares da cidade, pois Jaipur é conhecida pela boa relação qualidade/preço dos produtos à venda, essencialmente têxteis e joalharia. O regatear continua a ser uma instituição indiana, sendo parte integrante do processo de compra/venda, embora uma das mudanças na Índia que conhecíamos é que há cada vez mais lojas a praticar o “fixed price”.

Acabámos o dia no “Water Palace”, rodeado realmente por água devido às chuvas de monção, iluminado por uma cor fantástica do pôr-do-sol, e onde muitas famílias indianas passeavam na marginal, algumas fazendo oferendas ao deus Ganesh. Depois do sol se pôr, acabámos por regressar ao nosso hotel.

A Carla não se sentia bem, pois há alguns dias tinham-lhe aparecido numa axila o que aparentavam ser furúnculos. Estava medicada, mas sentia-se em baixo. O jantar no “rooftop restaurant” do nosso hotel, com música ao vivo e boa comida, no entanto, animou-a um pouco.

ÍNDIA  Dia 48

A noite não foi fácil. A Carla acordou a meio da noite com dores e um dos furúnculos começou a drenar pus e sangue. Era um bom sinal, pois era o primeiro passo para poder secar e desaparecer, mas todo o cuidado era pouco e fizemos um curativo. Tomado um analgésico, voltámos a dormir, mas por volta das sete, repetiu-se o mesmo com outro furúnculo. Ainda ponderámos ir ao hospital, mas como já tinham drenado e a Carla estava a tomar antibiótico que tínhamos trazido da consulta do viajante, decidimos esperar para ver. Era essencial, no entanto, proteger as feridas para evitar o contacto com a poluição e possíveis bactérias, as mesmas que tinham estado na origem do problema, associadas à transpiração constante num ambiente com muita humidade e calor. Para isso, tivemos de nos reabastecer de material numa visita à farmácia. Poupamos-vos das fotografias “nojentas” desta aventura. Resolvidas estas questões médicas da parte da manhã, voltámos a explorar Jaipur, regressando aos seus bazares, tão caracteristicamente divididos por zonas onde se agregam diferentes especialidades. Pudemos apreciar o fabrico de estátuas de pedra, os costureiros em acção, a venda de especiarias e óleos aromáticos, a comida de rua, e, claro, os inevitáveis saris, lenços de pashmina e sandálias.

Depois das compras, subimos ao minarete de Iswari, de onde tivemos vistas privilegiadas sobre toda a cidade, uma metrópole de mais de três milhões de pessoas, com uma parte nova de avenidas largas e edifícios de aspecto ocidentalizado. A seguir, resolvemos voltar a visitar o Palácio da cidade, um complexo de edifícios e pátios bem no centro da “Old City”, onde se pode admirar a opulência que sempre caracterizou o modo de vida da classe reinante do Rajastão. Despedimo-nos do centro histórico de Jaipur com uma chuva torrencial, para não nos esquecermos que, também aqui, ainda estamos no final da monção.

INDIA  Dia 49

A Índia é como uma entidade viva e hoje voltámos a sentir-lhe o pulso. Foi por isso que hoje foi um daqueles dias que nos deitámos satisfeitos e realizados por viajar aqui. Saímos de Jaipur pela manhã num autocarro com destino final Bikaner. Mas, na Índia, tudo pode acontecer e hoje tudo nos aconteceu. Depois de andar uma hora de autocarro, fomos parados na auto-estrada.

– Uma ordem de tribunal, que saiu esta noite, proíbe os autocarros privados de operar durante o dia. Todos fora do autocarro! – Diz o polícia.

Saímos. Com mochilas às costas, abandonámos o autocarro e juntamo-nos a todos os outros que se preparavam para ficar horas sentados na berma da auto-estrada à espera de um autocarro que só viria à noite, para fazer a viagem. Para nós isso estava fora de questão! Pegámos nas mochilas e fizemos paragem ao primeiro autocarro local que passou. Entrámos e fomos até à próxima cidade, a 60 km. Juntou-se a nós Vivek, um senhor que falava inglês e que era empresário de explosivos. Chegados a Sikar, o autocarro deixou-nos num cruzamento, onde devíamos apanhar um riquexó para o terminal de bus.

– Os riquexós e os táxis da cidade estão em greve. Exigem subsídios ao governo de Moti.

Não queríamos acreditar. Será possível? Hoje tudo nos acontece. Com a ajuda de Vivek começámos a percorrer o caminho em direcção a um local onde o autocarro para Bikaner também parava. No entanto, era mais longe do que pensávamos e Vivek conseguiu convencer um carro particular a levar-nos. Quando lhe pedimos para pagar ele respondeu:

– O vosso preço é ajudar um indiano que encontrem pelo caminho e que precise de ajuda.

Junto com Vivek não esperámos mais de 5 minutos pelo autocarro para Bikaner, mas quando ele chegou, trazia novidades.

– O autocarro está completamente cheio. Há exames de admissão ao Exército Indiano em Bikaner e os homens de todo o Rajastão deslocam-se para lá. Não têm lugar.

Se há coisa que aprendemos na Índia é que tudo é possível quando somos simpáticos e sorrimos, e com um “please”, entrámos no autocarro e o motorista deixou-nos viajar sentados no cockpit, bem ao seu lado, nas 5 horas seguintes. Pelo caminho, tivemos tempo de apreciar o aparecimento do deserto de Thar, o calor abrasador, e as nuvens a dissiparem-se no ar. Isto tudo com o motorista a ler o jornal para passar o tempo enquanto conduzia!

Eram 15h30 quando chegámos a Bikaner. Pousámos tudo no hotel e voltámos a sair. Queríamos muito ver o Templo dos Ratos, a 35 km da cidade. Diz a lenda que uma “curandeira” da aldeia perdeu o seu filho afogado no rio e, para conseguir trazê-lo de novo à vida, todos os seus descendentes passariam a reencarnar em ratos. A mulher aceitou esse fardo e desde essa altura, todos os descentes dessa família, juntamente com os sacerdotes do templo, alimentam os ratos da aldeia, crendo que são os seus antepassados.

Estima-se que vivam mais de 600 descendentes da mulher na aldeia, e quando visitámos o templo ficámos verdadeiramente surpreendidos. As pessoas convivem no templo com os ratos como se fossem animais domésticos (só que às centenas e nojentos). Dão-lhes de comer, comem dos mesmos pratos, fazem-lhes caricias, deitam-se no chão com eles a passarem ao seu lado e por cima.

Dizem que se os ratos passarem por cima dos nossos pés isso dá boa sorte! Mas os pés têm que ir descalços. Deixámos os sapatos lá fora mas levamos meias, que no final da visita foram directas para o caixote do lixo.

Esta é a Índia que adorámos. A Índia que nos testa todos os dias. A Índia que nos choca e ao mesmo tempo nos maravilha. A Índia que nos leva ao limite e ao mesmo tempo nos vicia. Esta é a Índia. Pura e simplesmente a Índia.

INDIA  Dia 50

Cinquenta dias de viagem e todos os dias a Índia surpreende-nos. Todos os dias temos aventuras novas, conhecemos gente fabulosa e deslumbrámo-nos com as maravilhas deste país. Bikaner não foi excepção. Localizada no extremo norte do Rajastão, à volta é tudo deserto, o deserto de Thar. Não é por isso de estranhar que a par com os riquexós que circulam nas estradas apareçam as carroças puxadas a camelo. Começámos o dia por visitar os templos jainistas e hindus, explorando as ruas cheias de havelis da cidade velha.

Aqui os homens exibem de forma orgulhosa os seus bigodes longos e penteados. São o símbolo da beleza masculina no deserto. A cidade está cheia de jovens rapazes que, às centenas, rumaram aqui para fazer exames de admissão ao exército indiano. Aglomeram-se nas ruas e nos monumentos e “torturam-nos com selfies”. A maioria vem das aldeias do Rajastão, procurando uma oportunidade de vida longe das zonas rurais e deprimidas da Índia.

Durante a visita ao forte da cidade, quase não conseguimos estar mais de 5 minutos sem uma selfie. As solicitações não paravam.

Bikaner tem um centro de investigação de camelos, onde se faz pesquisa sobre a resistência dos camelos às secas e se produzem camelos em cativeiro, teoricamente mais resistentes, que depois são vendidos às populações locais. Resolvemos visitá-lo. As condições podem não ser as melhores, mas na Índia, há milhares de pessoas que vivem bem pior. Não conseguimos deixar de pensar nisso durante a visita. Como é estranho o mundo em que vivemos, quando o ser humano parece, nos dias de hoje, ter mais compaixão pelos animais do que pelas pessoas. Desta vez, fomos nós que “sacámos” umas fotografias aos camelos.

Terminámos o dia na estação de comboio, com um grupo de jovens indianos que regressavam a casa, a cantar para nós, músicas de Bollywood. Embarcámos poucos minutos depois para Delhi, o ponto final nesta nossa viagem. E pelo caminho, até no deserto, a chuva nos brindou com um espectáculo de rara beleza: o deserto tornou-se “verde”.

INDIA  Dia 51

Delhi. Foi aqui que tudo começou há 10 anos. Foi aqui que tudo acabou há 10 anos. Foi aqui que tudo começou há 50 dias. É aqui que tudo termina agora. As despedidas nunca são fáceis. Pelo menos não na Índia. Não nos despedimos de ninguém em particular mas sim de algo muito mais grandioso. Despedimo-nos de um mundo. Um mundo que nos toca como mais nenhum país o consegue fazer. Um país que não se explica, sente-se. Um país que não se gosta, ama-se (ou detesta-se). Um país que nos molda, por dentro e por fora. Um país que nos torna mais humanos, devido à desumanidade. Um país que é uma lição de vida, e de morte. Um país que é muito mais do que um país. A Índia é TUDO o que o mundo tem de melhor e pior. É um país esquizofrénico, que nos mexe nos sentimentos mais profundos e nos faz questionar sobre tudo e todos. Um país que nos leva ao limite, todos os dias. Um país onde travamos batalhas interiores, todos os dias. A Índia é um murro no estômago. Um murro que dói até deixarmos de sentir a dor. A Índia não é para todos. Só alguns conseguem vê-la. Vê-la da forma transparente como ela se mostra, todos os dias. A Índia é o país onde prometemos mais uma vez voltar. Daqui por 10 anos? Sim. Mas se tudo correr bem ainda antes. Não vamos aguentar estar mais 10 anos sem voltar a esta “nossa” Índia. 

Índia

O resumo da nossa viagem em imagens neste vídeo!

Carla Mota

Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida, culminando num doutoramento nos Andes, investigando ambientes glaciares. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.

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2 Comment

  1. Obrigada pela partilha. Acompanhei a vossa viagem no Facebook e realmente deve ter sido incrível. Uma experiência incrível que penso que nunca seria capaz de arriscar. Não me conseguiria meter de mochila às costas num país como a Índia. Foi uma das viagens mais marcantes que já fiz. Foram apenas 9 dias mas foi mesmo aquele murro no estômago que todos deveriam levar um dia para perceber melhor o mundo. Gostei muito e espero ter oportunidade de voltar para conhecer outras regiões do país, mas num registo um pouco mais cómodo do que a vossa aventura. Continuação de muitas e boas viagens. Inês

    1. Carla Mota says: Responder

      Obrigada, Inês. Boas viagens.

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