ROTEIRO para um dia em GANTE (GENT) (desde Bruxelas) | BÉLGICA

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No início do século XII, na Alta Idade Média, uma revolução social dava os seus primeiros passos. O comércio começava gradualmente a tomar o lugar de principal força motriz da sociedade na Europa Ocidental. E a Flandres, e em particular Gante (em holandês e alemão, Gent, e em francês, Gand), estavam no epicentro dessa revolução, sendo o comércio de têxteis a actividade fulcral. Importando lã da Inglaterra, e exportando os tecidos para toda a Europa, os artesãos e mercadores geriam um negócio florescente. No século XI, Gante floresceu e, até ao século XIII, foi a segunda maior cidade europeia, logo atrás de Paris. Gante foi, na realidade, a primeira zona industrial da Europa.

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Os artesãos começaram a organizar-se em corporações de ofício (guildas), pondo em prática a ideia de que a união faz a força. Defendiam os seus membros, regulamentavam o processo produtivo, fixavam os preços, e controlavam a qualidade das mercadorias. Mas foi na arena política e social, mais do que económica, que a revolução se deu. O aumento da eficiência, a procura crescente, e o aumento de produção, levaram a um crescimento dos lucros e a uma acumulação de capital nunca antes vista na história da humanidade. Uma nova classe social nascia, a burguesia, e a sua luta de afirmação viria a transformar o panorama social e político para sempre.

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Conscientes de que as relações comerciais eram vitais para o seu negócio e estatuto, os burgueses começaram a pôr em causa o estatuto dos nobres governantes, quando as decisões destes punham em causa os seus interesses. As rotas mercantis ligavam o norte da Europa com a Inglaterra e o sul da Europa, e era imperativa uma boa relação entre a Flandres e a Inglaterra, algo que nem sempre acontecia devido aos conflitos permanentes entre a Europa continental e Inglaterra. Aliado a esta questão, outra se levantava. Os impostos pagos pelas cidades, e o pouco retorno que os mercadores sentiam por parte de quem os cobrava, levou a uma escalada de conflitos entre mercadores e a nobreza reinante.

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Estes conflitos, aliados à Guerra dos Cem Anos, entre a França e Inglaterra, levaram a um declínio de Gante e a uma gradual transferência do poder económico e social do eixo Gante-Bruges para Antuérpia-Bruxelas. A machadada final no período áureo de Gante foram os conflitos religiosos dos finais do século XVI, anunciada pela Reforma de Calvino, e atingindo o auge em rebeliões iconoclásticas. A Gante calvinista sofreria uma derrota às mãos de Filipe II, de Espanha, um católico devoto e filho sucessor de Carlos V, e os protestantes seriam perseguidos implacavelmente. No início do século XVII, no entanto, a Espanha, sofrida a derrota da Armada Invencível e sobrecarregada pelos custos de múltiplas frentes, perderia o seu domínio sobre a Flandres, e a Holanda emergia como uma potência europeia. Gante tinha então mergulhado num profundo declínio.

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No entanto, o empreendedorismo dos homens de negócios de Gante não tinha morrido, e a cidade renasceria das cinzas, tendo sido a primeira da Europa continental a aderir à revolução industrial, recuperando parte de sua indústria têxtil, e sendo apelidada de “Manchester do continente”. Hoje, Gante continua a ser um centro industrial e universitário, mas o turismo começa a afirmar-se como uma das correntes dominantes na economia da cidade. A história da cidade fez do seu núcleo histórico um dos mais belos da Europa, com edifícios históricos e um imponente castelo medieval, igrejas centenárias, e, claro, os sempre presentes canais, vias vitais para a sua economia, mas também um elemento essencial na beleza que atrai os visitantes a Gante.

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Gante fica a uma distância muito confortável de Bruxelas, permitindo uma visita de um só dia a partir da capital. À partida, preferiríamos passar uma noite em Gante, mas como estávamos numa “escapadela” de um fim-de-semana, o tempo era curto e resolvemos fazer de Bruxelas a nossa base. Saímos de Bruxelas de manhã, e chegámos a Gante de comboio por volta das dez da manhã. A estação de caminho-de-ferro Gent-Sint-Pieters está localizada relativamente perto do centro histórico da cidade, por isso deslocámo-nos até lá apanhando um eléctrico (3€/pessoa), seguindo pela Korte Meer, e saindo no centro da cidade. A seguir apresentamos, por ordem, o nosso percurso pela cidade e o que consideramos mais importante.

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1. Belfort

Saímos do eléctrico entre o Belfort e a St. Niklaaskerk. O primeiro é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, e resolvemos subir ao seu topo para ter uma visão global da cidade, com a luz do sol da manhã. Passando por uma exposição sobre a construção dos carrilhões, chega-se ao cimo e a vista não decepciona.

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Não é aconselhável a quem tem vertigens! Depois de descermos, entrámos ainda na St. Niklaaskerk, com uma bela arquitectura, tanto exterior, como interior.

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2. Nas margens do rio Leie

Seguimos até ao Korenmarkt, a praça que foi outrora o mercado de cereais da cidade, e hoje dominada pelas esplanadas e cafés. Seguindo pela Koren Munt, acompanhámos a linha do eléctrico até à pequena ponte (Vleeshuisbrug) sobre o rio Leie, tendo uma vista fabulosa nos dois sentidos, em especial para o lado da ponte Grasbrug. Dali seguimos pela Pensmarkt, e depois junto ao rio, até chegarmos à ponte Grasbrug. Ali, volta-se a ter uma vista privilegiada sobre a cidade e o rio, com casas características, construídas pelas guildas ou por mercadores ricos.

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3. Graslei

Graslei é uma das ruas mais bonitas da cidade de Gante, acompanhando a margem do rio, e, onde era o porto medieval da cidade, encontram-se casas de guildas muito bem conservadas. Atravessámos o rio em St Michiels, e voltámos para trás, novamente em direcção a Grasbrug.

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O dia estava lindo, frio, mas com um céu azul e um sol reconfortante. As casas brilhavam á luz do sol e o seu reflexo nas águas do rio formava um cenário perfeito.

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4. Het Gravensteen

Mais à frente, encontrámos uma das atracções da cidade, o imponente Het Gravensteen, a antiga Casa dos Condes da Flandres. Não visitámos o seu interior, mas o seu exterior é impressionante. Grossas paredes erguem-se junto ao rio, por trás de um fosso, dominando aquela parte da cidade de Gante.

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Data do século XII (com partes do século XIV), mas sofreu uma profunda renovação após ter sido usado como fábrica de algodão no século XIX. Parece um castelo de um conto de fadas.

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5. Patershol

Dali, voltamos à margem do rio, em Kraanlei, e seguimos para o bairro de Patershol, um conjunto de estreitas vielas e que foi recuperado da degradação na década de 80, e hoje é uma das zonas mais elegantes da cidade de Gante, com restaurantes, lojas e bares.

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Foi ali que decidimos parar para almoçar, no restaurante Amadeus, o primeiro de uma cadeia que se espalhou pelo país, famosa pelas suas costelinhas acompanhadas de um molho delicioso, e pela decoração tradicional dos seus restaurantes. Foi “all you can eat” (17.5€/pessoa) e ficámos inteiramente satisfeitos, pela qualidade e quantidade! A repetir…

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6. Vrijdagmarkt

De barriga cheia, era imperativo caminhar em Gante. Encaminhámo-nos então em direcção ao Vrijdagmarkt, o fórum público da cidade, onde a população se encontrava. Hoje realiza-se ali o mercado de Sexta-Feira, e daí o seu nome. Mais à frente, encontra-se a St-Jacobskerk e depois seguimos pela Belfortstraat, passando pela Stadhuis, a camara municipal, alojada num palácio renascentista.

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7. St-Baafskathedraal

Chegados à St-Baafsplein, restava-nos visitar a St-Baafskathedraal, a catedral gótica da cidade de Gante. Para além dos elementos arquitectónicos, e da cripta da catedral, pode admirar-se, numa das capelas laterais, uma das obras mais emblemáticas da história da pintura, “A Adoração do Cordeiro Místico” (também conhecido como o “Retábulo de Gante”), de Jan van Eyck, que em 1432 mostrou, pela primeira vez, o domínio e potencial da técnica da pintura a óleo.

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O retábulo consiste em doze painéis, sendo que os painéis laterais são pintados em ambos os lados, dando duas perspectivas diferentes consoante se encontram abertos ou fechados. Os painéis superiores mostram Deus, a Virgem Maria e São João Batista, anjos, e Adão e Eva, enquanto os painéis inferiores mostram a adoração do Cordeiro de Deus, sangrando para um cálice. A sua importância histórica foi amplificada pela sua história conturbada, tendo sido escondido aquando da fúria iconoclástica do século XVI, durante as duas grandes guerras, e roubado pelos franceses durante a revolução e pelos nazis em 1940, tendo regressado a Gante em 1946. Diz-se que os nazis acreditariam (qual “Indiana Jones e a Grande Cruzada”) que nele se escondia um mapa para o Santo Graal. Coincidência, ou divina providência, o painel inferior original à esquerda foi roubado em 1934, nunca tendo sido encontrado, e impedindo os nazis de terem acesso à totalidade da obra. Uma obra de visita imperdível em Gante (infelizmente não era possível fotografar o original, por isso fotografámos uma réplica em tamanho reduzido).

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De volta à estação de caminho-de-ferro

Dali, apanhámos novamente o eléctrico (3€/pessoa) de volta à estação ferroviária de Gante. Estava na altura de regressar a Bruxelas, e estávamos plenamente satisfeitos. Gante tinha superado as nossas expectativas e constitui uma visita obrigatória para quem visita a Bélgica, nem que por apenas alguns dias.

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Rui Pinto

Físico de formação mas interessado em todos os aspectos da cultura e história da humanidade. As viagens são o meio privilegiado para um aprofundamento do conhecimento do mundo, das suas gentes e do nosso papel na vida.

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